Coronavírus: da turística Cascais esvaziada às preocupações dos profissionais liberais, Portugal já sente os efeitos na rotina

Suzane Veloso, especial para O Globo
Cascais, um dos destinos mais procurados de Portugal, está esvaziado num sábado de sol

CASCAIS, PORTUGAL— Na praça de alimentação do maior shopping de Cascais, um dos principais destinos turísticos de Portugal, a caixa de pizzaria Karina Monteiro olha desolada para as mesas vazias à sua frente. Em um dia normal, a loja venderia o equivalente a até quatro mil euros por turno. Nos últimos tempos, o movimento não supera 300 euros por dia. Neste sábado, um dia de sol, às 12h30, Karina só tinha uma nota de cinco euros no caixa.

A poucos metros dali, em um supermercado de uma das redes mais populares em Portugal, o movimento dos caixas era exatamente o oposto. Os funcionários, todos de luvas, mal tinham tempo para respirar. Ainda que longas, não se esperava mais que 10 minutos nas filas: rapidamente os consumidores pagavam e iam embora com seus carrinhos onde, invariavelmente, estava um pacote de papel higiênico — também em Portugal o produto se tornou um dos mais disputados na corrida aos supermercados.

O país europeu registra 169 casos de coronavírus. Na sexta, o governo decretou estado de alerta para mobilizar o serviço de proteção civil, a polícia e o Exército em seus esforços para controlar a epidemia.

O forte movimento, em Cascais, porém, não trouxe qualquer tipo de desabastecimento, mesmo com lojas sempre cheias. Alguns consumidores, como a professora Sofia Silva, já usavam máscaras.

Carrinho cheio, Sofia foi às compras para reduzir ao máximo as idas à rua, porque tem em casa uma pessoa com doença crônica – um dos grupos de risco expostos à doença:

— Desde quinta-feira à noite estamos fechados em casa. Ontem (sexta-feira), já não permiti que meus três filhos fossem à escola, e também não fui. Estamos agora aguardando orientações do Ministério da Educação para saber se nós, professores, teremos de ir à escola ou não. Se estou calma? Já estive mais. Mas nós tentamos manter alunos e pais calmos, damos dicas relativas à convivência social, aos hábitos e cuidados que devem ter. Mas são crianças. Crianças de 10, 11, 12 anos. E às vezes, passa-se um pouco e esquecem-se — contou.

A partir desta segunda-feira, todas as escolas de Portugal, que até então vinham paralisando as aulas pontualmente, suspendem as aulas. E o país terá de lidar com a rotina de ter crianças que normalmente passavam o dia na escola, onde, inclusive, faziam as refeições, em casa.

O governo já anunciou mecanismos para que os pais de menores até 12 anos possam ficar com os filhos em casa, pois não haveria quem cuidasse deles — os trabalhadores receberão 66% da remuneração base (metade a cargo do empregador e a outra metade, da Segurança Social).

Detalhadas na madrugada da sexta-feira pelo Ministério do Trabalho, as medidas excepcionais de apoio às famílias custarão pelo menos 294 milhões de euros em 2020. Muitas escolas manterão a rotina das aulas de maneira remota.

É o caso da escola dos filhos do empresário brasileiro Renato Bolzan, CEO da empresa de tecnologia Invillia, que vive em Portugal há um ano e meio.

Coincidentemente, Bolzan, assim como boa parte dos seus 500 funcionários – distribuídos por dezenas de cidades brasileiras e também em Portugal e Inglaterra – trabalha remotamente há anos.

— O difícil será fazer as crianças entenderem que, o fato de estarem em casa, não significa que elas estão de férias. Elas vão ter de ter a mesma disciplina de acordar, sentar-se à mesa, fazer suas lições. É mais fácil criar uma cultura de trabalho remoto para 500 pessoas do que para duas crianças – comenta o empresário.

Mas, para alguns, a vida ainda não mudou muito. O alemão Moritz Born, 32, executivo de Marketing free-lancer, mudou-se para Portugal há duas semanas, quando os casos na Europa já cresciam.

Disse que, desde então, sua rotina não mudou muito. Apenas passou a evitar aglomerações e locais com muita gente. Ontem mesmo, era um dos surfistas que chegavam, por volta das 9h, à Praia de Carcavelos, uma das favoritas da chamada “Linha de Cascais”.

Também em Carcavelos, a advogada Sofia Egídio dizia que, normalmente, chegaria mais tarde ao local. Porém, modificou sua rotina exatamente para evitar encontrar muita gente:

— Normalmente, aos sábados viríamos à praia mais tarde. Não tenho exatamente medo de vir, ainda, mas tenho cuidado na forma como faço, não ficando perto de pessoas, mantendo-me mais resguardada. No trabalho, estamos trabalhando de casa, evitando ter muita gente no escritório.

O movimento na rua, porém, certamente já é bem menor. Em um salão de cabelereiros bem no centro de Cascais, não apenas o movimento de clientes se alterou, como os funcionários preocupam-se com a continuidade do trabalho.

Carla Velino já decidiu que irá se afastar do trabalho, recebendo apenas dois terços do salário, pois sofre de problemas respiratórios e teve, no passado, câncer.

Sua colega Graziela Cunha, esteticista, continuará na rotina diária, mas seu medo maior está no ir e vir do trabalho:

— Eu já estava acostumada a trabalhar com máscara e de luvas em boa parte do meu serviço. Agora é redobrar ainda mais estas atenções. Meu medo maior está nos transportes públicos: não há nenhum cuidado, é tudo sujo.