Coronavírus derruba economia chinesa, que caminha para primeira contração desde 1976

A produção industrial na China desabou 13,5% em janeiro e fevereiro. (Foto: Anthony Wallace / AFP)

A voracidade chinesa transformou o país em sinônimo para crescimento econômico acelerado. Nas últimas décadas o avanço foi uma constante, a economia chinesa resistiu aos protestos na Praça da Paz Celestial, à crise do setor financeiro e à guerra comercial com os EUA, mas deve sucumbir à epidemia do novo coronavírus.

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Os primeiros números oficiais desde o surgimento da doença foram divulgados hoje, com produção industrial, vendas do comércio e investimentos registrando recuos recorde nos dois primeiros meses do ano, aumentando o risco de China enfrentar sua primeira contração desde 1976.

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A produção industrial na China desabou 13,5% em janeiro e fevereiro, em comparação com o mesmo período do ano passado, enquanto as vendas do comércio recuaram 20,5% e os investimentos, 25%. Os dados publicados pelo National Bureau of Statistics foram bem abaixo da expectativa dos analistas, e a crise deve perdurar por mais alguns meses.

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Quando o vírus SARS-CoV-2 surgiu em Wuhan, no fim de 2019, o governo chinês adotou medidas duras para conter o seu avanço, incluindo restrições de viagens e o isolamento de cidades inteiras, com milhões de habitantes. O tradicional feriado nacional da Festa da Primavera, o Ano Novo chinês, foi prorrogado por semanas, mantendo os trabalhadores em suas cidades, longe dos centros industriais. O comércio fechou, as pessoas ficaram trancadas em sua casa. O país parou, e a retomada está sendo gradual.

De acordo com informações de órgãos oficiais, a maioria das fábricas chinesas já foram reabertas, mas ainda operam em dois terços da capacidade. Existem dois problemas: milhões de trabalhadores ainda estão em suas cidades natais, em isolamento ou quarentena. Nesta segunda-feira, a imprensa estatal chinesa anunciou com pompa que os quatro primeiros ônibus com trabalhadores foram liberados para deixar a província de Hubei, onde surgiu o coronavírus. E existe a falta de consumidores dispostos a gastar em tempos de tanta incerteza.

“A oferta é um problema solucionável, é só trazer as pessoas de volta”, afirmou Ker Gibbs, presidente da Câmera de Comércio Americana em Xangai, ao New York Times. “O problema da demanda é mais difícil”.

O National Bureau of Statistics afirmou que a economia deve melhorar nos próximos meses, impulsionada por políticas de ajuda adotadas pelo governo, como o corte na taxa de juros, injeções de liquidez e redução de taxas e impostos. Mas analistas não estão otimistas. Julian Evans-Pritchard, da Capital Economics, acredita que a desaceleração em fevereiro tenha sido ainda maior, mas foi diluída com os resultados de janeiro, que não foram tão contaminados pelo coronavírus. Para Larry Hu, do Macquarie Group, o PIB colossal chinês de US$ 14 trilhões deve retrair 6% no primeiro trimestre.

“Agora está claro que será o pior em quase 50 anos”, afirmou, em entrevista à CNN, lembrando a última recessão chinesa, em 1976, marcada pela morte do líder do Partido Comunista Mao Tsé-Tung e o fim de sua Revolução Cultural, e pelo terremoto de Tangshan, que matou mais de 200 mil pessoas. Naquele ano, o PIB chinês recuou 1,6%.

Mas o governo tenta manter a calma, minimizando os efeitos econômicos da epidemia.

“O impacto da epidemia é no curto prazo, externo e controlável”, afirmou Mao Shengyong, diretor do departamento de estatística no National Bureau of Statistics, acrescentando que ainda é cedo para prever retração no primeiro trimestre, pois tipicamente os dois primeiros meses do ano são mais fracos por causa do feriado de Ano Novo.