Coronavírus: desaparecimento da cloroquina das farmácias do Rio preocupa pacientes usuários de medicamentos

Gabriela Oliva
Cloroquina, medicamento contra doenças autoimunes, está em falta em todas as farmácias do Rio.

RIO - Desde que estudos publicados em revistas acadêmicas dos EUA, China e França apontaram que as drogas cloroquina e hidroxicloroquina, atualmente usadas no tratamento da malária e de doenças reumatológicas, apresentaram resultados promissores contra o novo coronavírus, os medicamentos desapareceram das prateleiras das farmácias do Rio de Janeiro.

Para coibir o desabastecimento, a Anvisa enquadrou, nesta sexta-feira (20), a hidroxicloroquina e cloriquina como medicamentos de controle especial, proibindo ainda a sua exportação. A medida é para evitar que pessoas comprem sem necessidade.

O reumatologista Haim Maleb explica que esses medicamentos são usados geralmente em pacientes reumatológicos, principalmente em mulheres e jovens com problemas nos rins, pulmão e com artrite.

A substância foi descoberta durante a busca para o tratamento contra a malária, mas é hoje usada para tratar doenças autoimunes.

Maleb alerta que a suspensão indevida do uso pode ser fatal:

— A desinformação, sem orientação médica, é muito perigosa. Os pacientes que realmente precisam sofrem, pois o medicamento é insubstituível. Com a falta do remédio, a doença pode voltar a entrar em atividade, o risco pode ser fatal.

A hematologista Patrícia Gonçalves lembra ainda dos riscos da automedicação:

— A hidroxicloroquina é uma medicação com diversos efeitos colaterais potencialmente graves, como alterações oculares, anemia, aplasia medular, agranulocitose (queda severa dos glóbulos brancos) e queda na contagem de plaquetas. As pessoas que se automedicam podem sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde, principalmente neste momento tão caótico — diz.

Usuárias temem sumiço de remédios

Usuária do medicamento para tratar de um lúpus eritematoso sistêmico, a psicóloga Magda Aranha, de 57 anos, explica que tem a:

— Desde 2012, faço tratamento sem interrupção da doença com o Reuquinol, que tem a substância da hidroxicloroquina. Desde que estudos sobre um provável tratamento para a Covid-19 saíram, não o encontro em nenhuma farmácia — diz.

Magda desabafa que está se sentindo vulnerável sem a medicação, explicando que sua rotina de compra do remédio mudou:

— Tentei comprar o medicamento de 18h até 22h, mas não consegui. Como é um remédio de fácil acesso, qualquer um compra. Estou preocupada não só por mim, mas por outras pessoas que precisam do tratamento. Essa situação já está afetando muita gente — conta.

O drama foi compartilhado pela radialista Alessandra Eckstein, de 48 anos, diagnosticada com artrite reumatoide e lúpus. Ela percorreu 11 farmácias, mas só encontrou uma caixa no estoque de um estabelecimento, que durará apenas um mês:

— Estava bem no final da cartela, com oito comprimidos, quando estourou essa história. Com isso, saí ontem à noite para tentar comprar, depois de ter acessado o site de grandes redes pela internet. Pelo online, já não era possível encontrar o remédio nas farmácias que atendiam o Rio. Estive em cinco farmácias perto de casa e não encontrei. Voltei pra casa e liguei para outras três, na última consegui comprar a última caixa — desabafa.

A estudante de Letras Helena Lobo, de 21 anos, foi diagnosticada com lúpus aos 10, e faz tratamento até hoje. Ela explica que percorreu, com sua família, cinco farmácias em Botafogo na procura do medicamento, mas sem sucesso:

— Faço o uso do hidroxicloroquina, que é para doenças reumatoides e autoimunes. Tenho o remédio para apenas durante uma semana. Isso gera uma apreensão, insegurança social. Principalmente pela falta de comunicação dos laboratórios e distribuidoras — queixa-se.

Segundo a diretora-adjunta da Anvisa, Daniela Marreco, os laboratórios do Brasil que produzem a cloroquina são a Cristália Indústria Farmacêutica, o Laboratório do Exército Brasileiro e a Fiocruz. Já a hidroxicloroquina, são as empresas Sanofi Farmacêutica, EMS, APSEN e Medley.

— A procura excessiva dessas substâncias é preocupante, mostra desinformação. Existe um risco na automedicação, além de não ter comprovação da confiabilidade — explicou a diretora.

Uma fonte ligada à direção de um dos laboratórios citados confirmou que o governo federal entrou em contato com as presidências das empresas produtoras dos medicamentos para controlar seu uso. De acordo com a fonte, o motivo seria para administrar a compra do medicamento.

Em nota, o Ministério da Saúde nega, porém, que tenha solicitado a retenção de medicamentos.

Em relação aos fármacos cloroquina e a hidroxicloroquina, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu declarações nesta sexta-feira indicando que o remédio já estaria disponível para o tratamento de casos graves de coronavírus no Brasil. Porém, procurada pelo GLOBO, a pasta negou.

Distribuidora de produtos farmacêuticos do Rio de Janeiro, a Profarma informou que, em um único dia, quinta (19/3), a demanda pelos produtos equivaleu a cerca de dois meses em condições normais.

Portanto, diante de um "alto risco de desabastecimento", segundo informou em nota, a distribuidora decidiu tomar uma "iniciativa preventiva", suspendendo a entrega para as farmácias do Rio.

"A fornecedora espera que a indústria tenha condições de fornecer e entregar os referidos medicamentos, na expectativa de que sejam vendidos com critério e adquiridos com responsabilidade pelo consumidor final", continua o comunicado da empresa, que não informou como será o abastecimento dos medicamentos para quem já faz uso constante deles.

Das fabricantes procuradas, somente a Sanofi e a EMS responderam. A Sanofi explicou que dados clínicos atuais são insuficientes para tirar conclusões finais sobre a eficácia ou segurança clínica da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. No entanto, não deu explicações quanto a distribuição para as farmácias.

Já a EMS prevê um aumento 46 mil unidades de hidroxicloroquina para abastecer os hospitais até o dia 30/03. Mas não comentou o desabastecimento atual.Segundo a Anvisa, nenhuma empresa fez formalmente a suspensão da distribuição do medicamento. A agência explica ainda que, se uma fabricante estuda suspender um produto, é preciso justificar a ação. No entanto, diante da ausência, a Anvisa pode notificar os laboratórios a cobrarem uma explicação para não ter uma sanção.