Coronavírus: doações diminuem com a cidade vazia, e aumenta o drama de quem vive nas ruas

Geraldo Ribeiro e Rafael Galdo
José Carlos Marins e seus cachorros, Tina Turner, Fred e Branco, em praça de Botafogo. “Tenho Deus na vida. É só com isso que posso contar”, diz ele

RIO — Num fogareiro improvisado com pedaços de tijolos, os moradores de rua Marco Antônio Lima, de 42 anos, e Denise Rodrigues, de 53, cozinhavam ontem o quiabo e o aipim que cataram numa feira da Tijuca. Numa sacola plástica perto da chama, guardavam os restos de sabonete líquido e outros produtos de higiene que encontraram no lixo. Tem sido assim que o casal enfrenta a ameaça da pandemia do novo coronavírus no Rio, onde as medidas anunciadas para proteger seus milhares de sem-teto, embora urgentes, ainda não entraram em vigor. Com a cidade vazia devido ao fechamento do comércio e à quarentena cumprida por grande parte da população, as doações diminuíram bastante.

— Vivemos de doações, mas até a igreja evangélica que toda segunda-feira dava quentinhas já comunicou que o atendimento está suspenso por tempo indeterminado — conta Lima.

Para quem está nas ruas, o cenário não poderia ser mais desolador. Bares e restaurantes fecharam e, com medo da propagação do novo coronavírus, as carreatas dos voluntários que distribuem comida diminuíram. Na cidade bem mais vazia do que o de costume, em regiões como o Centro e a Lapa, parece que só sobraram eles, expostos ao perigo da pandemia e da fome.

A transexual Bia Gregório da Silva, de 39 anos, divide o espaço na calçada de uma agência bancária, na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, com o companheiro e pelo menos mais dez pessoas. Para eles, a alimentação tem sido a maior dificuldade.

— Alguns têm o coração tocado e vêm oferecer ajuda, mas é cada vez mais raro — diz Bia, que prefere a rua ao abrigo municipal, onde acha que estará mais exposta ao risco de contaminação, por conta da aglomeração de pessoas.

Desafio de deixar as ruas

Convencer as pessoas que vivem nas ruas a ir para um lugar mais protegido, muitas vezes, é mais um dos desafios. José Carlos Antônio Marins, de 60 anos, que devido à idade está no grupo de risco da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, é um dos que não querem ir para um abrigo. Na Praça do Mourisco, em Botafogo, ele aponta suas razões: os cachorros batizados de Tina Turner, Fred e Branco, seus parceiros inseparáveis, que não são aceitos nos abrigos.

— Não tô nem aí (para o coronavirus). Tenho Deus na vida. É só com isso que posso contar — diz Marins, que, mesmo dando de ombros para a doença, não abre mão de um borrifador com água e sabão para limpar as mãos.

O baiano Ailton Bispo dos Santos, de 38 anos, chegou no Rio há cerca de seis meses. Já trabalhou como caseiro e pintor de automóveis. Desempregado, foi para as ruas. Ele afirma que passou a ter medo de dormir ao relento depois que a população adotou o confinamento para fugir dos riscos do coronavírus, agora acredita que num abrigo estaria mais seguro. Sentado num papelão na Praça das Nações, em Bonsucesso, conta como se protege do risco da Covid-19:

— A gente toma banho no chafariz e lava as mãos no posto de gasolina. É o jeito.

André Vieira, de 41 anos, costuma dormir numa calçada em Ipanema. Ele reconhece que está cada dia mais difícil viver nas ruas e avalia que o preconceito, que já era grande, ficou ainda maior com o medo do novo coronavírus.

— Ninguém quer aproximação — lamenta Vieira.

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O Sambódromo, anunciado semana passada com uma das soluções para abrigar a população de rua, está em fase de adaptações para receber, em três espaços, 400 pessoas, segundo a Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos. No momento, segundo a prefeitura, a Comlurb faz a limpeza da Marquês de Sapucaí, e a Riourb instala chuveiros e pias. A previsão é de que tudo esteja pronto até a semana que vem, com beliches e roupa de cama, em unidades separadas para homens, mulheres, mães com crianças e gestantes.

A secretaria também afirma estar em contato com o Exército para conseguir o empréstimo de 10 tendas. Com o material, um espaço no Santo Cristo seria adaptado para receber 100 homens adultos. É o mesmo lugar onde é prevista a instalação de contêineres que poderão ser usados para isolamento em caso de contágio por coronavírus de algum abrigado.

A defensora pública Carla Beatriz Maia, do Núcleo de Defesa de Direitos Humanos, cobra mais rapidez da prefeitura na adoção de medidas para a população em situação de rua, que ela estima em cerca de 17 mil no Rio. Ela lamenta que ações anunciadas na semana passada ainda não tenham sido postas em prática:

— Além do Sambódromo, recomendamos o uso dos estádios, a ampliação da rede de restaurante populares, e que esses restaurantes tenham uma cota de gratuidade para quem vive nas ruas e não pode pagar. É preciso uma força-tarefa, inclusive com voluntários. É uma situação extrema, que se não for cuidada terá consequências para toda a sociedade.

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A solidariedade, no entanto, resiste, apesar do medo da pandemia. Mesmo na quarentena, grupos estão se mobilizando para ajudar. Ricardo Tavares, presidente da ONG Organização de Reintegração e Estímulo à Socialização (Ores), que há dois anos e meio criou o serviço volante de banho social, decidiu ampliar o atendimento, que antes era feito apenas três dias por semana, no Largo da Carioca.

— Com a chegada do coronavírus, passamos a atender essa população todos os dias, inclusive aos sábados e domingos — afirma Tavares, que está adaptando um ônibus para levar o serviço móvel de banho a outras praças públicas.

Gestora do Projeto RUAS, Larissa Montel afirma que tem sido observada uma migração de moradores de rua de regiões como a Zona Sul para o Centro e a Lapa, onde ainda têm ocorrido a distribuição de comida e outra ações sociais. Áreas próximas aos restaurantes populares e onde há consultórios de rua da Secretaria municipal de Saúde, como o bairro de Bonsucesso, também têm sido o destino dessa população em busca de um mínimo de ajuda. O projeto lançou a campanha #popruaeumeimporto, com orientações disponíveis na internet.

— A nossa ideia não é estimular que as pessoas saiam de casa nesse período de quarentena. Mas, quem precisar ir à rua pode, no caminho, distribuir kits para quem precisa — explica Larissa.

Saiba como doar

Diamante na Cozinha e Comida de Resistência: Chefs e donos de bares e restaurantes promovem campanha de doação de alimentos e produtos de higiene pessoal como álcool em gel e sabonete para famílias que moram em comunidades do Rio. (21) 983838741. A Casa Nem e o Grupo "Transrevolução" (movimento social transgênero) promove campanha de doações de alimentos de cesta básica, produtos de limpeza e de higiene pessoal. (21) 96829-0296.A XP decidiu abrir uma campanha para doação de cestas básicas para famílias de baixa renda por causa da quarentena provocada pelo coronavírus. 4003-3710.Sem bilheteria, sua principal fonte de arrecadação, mais de 400 artistas de 17 picadeiros itinerantes têm pedido a doação de alimentos e produtos de higiene pessoal. (22) 99823-9862.O Ministério da Saúde pede doações de sangue em razão do novo coronavírus. Hemorio: Rua Frei Caneca 8, Centro - 2332-861.Ministério da Saúde pede doações de materiais como álcool gel e máscaras de proteção. Governo pede doações de álcool em gel, máscaras e luvas, Para colaborar, é preciso se inscrever pelo site do G10 - Apoie Rocinha: A campanha surgiu para fomentar o empreendedorismo local, ajudar os moradores em condição de vulnerabilidade (que perderam o emprego e não tem meios de subsistência), para aluguel de casa para montagem de um hospital de campana, compra de alimentos / montagem de marmitas, água, colchões, UTI móvel e contratação de transportes e profissionais da saúde. Pandemia com Empatia: A campanha da ONG Voz das Comunidades arrecada dinheiro que pode ser depositado numa conta da Caixa Econômica Federal (agência 0198; CC 3021-2; operação 03; CNPJ 21.317.767/0001-19).