Coronavírus: em apenas três dias, hospital de campanha do Rio ocupa 28 das 30 vagas

Felipe Grinberg e Pedro Zuazo
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Hospital de Campanha Lagoa-Barra, no Leblon, Zona Sul do Rio, foi inaugurado no dia 25 de abril

O Estado do Rio corre contra o tempo para ampliar sua estrutura para cuidar de quem está em estado grave pela Covid-19. Na mesma velocidade que cresce o número de casos confirmados, aumenta a fila de espera por leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Até ontem, segunda-feira (27), havia 326 pacientes nessa situação, de acordo com a Secretaria estadual de Saúde (SES). Com exceção do Hospital Regional Zilda Arns, em Volta Redonda, que ainda tinha 18 vagas de UTI disponíveis, todos os outros espaços do tipo da rede estadual destinados para o tratamento do novo coronavírus já estavam ocupados ou bloqueados (aqueles “reservados” para pessoas já internadas na unidade que podem piorar). No Hospital de Campanha Lagoa-Barra, inaugurado no último sábado, no Leblon, 28 dos 30 leitos de UTI estavam preenchidos até esta segunda-feira. Especialistas temem o colapso e apontam uma regulação de vagas conjunta com a rede privada como alternativa.

Considerando todas as unidades da rede estadual, a taxa de ocupação era na segunda-feira, 27, de 71% nos leitos de enfermaria e de 83% nos de UTI. Há pouco mais de duas semanas, as taxas eram de 41% e 63%, respectivamente. Também até ontem, segunda-feira, 936 pacientes estavam internados na capital, em unidades das três esferas (município, estado e federal), por suspeita ou confirmação da Covid, sendo 313 em UTI. Ao todo, 2.235 pacientes estão internados na rede estadual em todo o Estado do Rio.

 

Além do hospital de campanha montado no Leblon, o estado promete inaugurar na primeira semana de maio um outro no Maracanã, que terá 400 leitos, sendo 80 de UTI. Há ainda outros sete hospitais de campanha previstos para serem abertos em todo o estado, com 500 vagas destinadas a UTI. Para Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, porém, esse número pode não ser o suficiente.

— Os hospitais de campanha não só estão demorando muito para ficar prontos como também oferecem poucos leitos de UTI. Mesmo sendo poucos, o estado ainda vai enfrentar dificuldade para equipá-los com respiradores e com uma equipe especializada — afirma a especialista, que aponta o uso de leitos privados como solução: — Não é justo que os profissionais de saúde tenham que escolher quem vai morrer. Tem um jeito de evitar isso, que é o uso de leitos privados. Não é preciso se apropriar dos leitos privados. É possível lançar mão de recursos como redução de impostos, por exemplo, para aumentar a capacidade de atendimento.

O município do Rio contava, em fevereiro deste ano, com 2.267 leitos de UTI, considerando hospitais públicos e privados. Desse total, apenas 499 eram da rede pública, como mostra um levantamento feito a partir de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde pela pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Margareth Portela:

— Considerando esse perfil do Rio, em que há uma grande diferença na quantidade de vagas entre os setores público e privado, é importante considerar a possibilidade de se fazer uma regulação única. Se isso acontecesse, reduziria muito a necessidade de se criar tantos leitos de campanha.

No caso do Hospital de Campanha Lagoa-Barra, construído com recursos da iniciativa privada e administrado pela Rede D’Or, os 60 respiradores que serão utilizados nos cem leitos de UTI serão remanejados de outras unidades da rede privada.

Em nota, a SES afirma que já foram abertos 521 novos leitos exclusivos para o tratamento de pacientes com suspeita ou confirmação do novo coronavírus em todo o Estado do Rio. Desse total, 256 são de UTI; 265, de enfermaria. Há ainda 137 leitos para o tratamento da Covid-19 em áreas isoladas de outras unidades estaduais.

Os 419 leitos exclusivos que a Prefeitura do Rio abriu para atender os pacientes com coronavírus não foram suficientes. Sem vagas, havia nesta segunda-feira apenas 13 quartos de enfermaria em toda a rede municipal de saúde (quatro no Miguel Couto; cinco no Ronaldo Gazolla; e dois nos hospitais Souza Aguiar e Evandro Freire), enquanto há 271 pacientes aguardando transferência. Ainda há quatro leitos de UTI pediátrica no Hospital Municipal Jesus, em Vila Isabel, na Zona Norte da capital.

Não é apenas a falta de leitos que preocupa os profissionais de saúde. Na rede municipal, os médicos de clínicas da família já começaram a ter dificuldade para tansferir pacientes. Na última sexta-feira, uma pessoa em estado grave chegou a esperar cinco horas na fila para ser transferida da unidade do Complexo do Alemão.

— Antes da pandemia, a gente esperava no máximo duas horas. Agora, além de lutar por uma vaga em outra unidade, temos que brigar pelas ambulâncias. Quando pedimos prioridade, falam da falta de automóveis — lamenta um médico, sem se identificar.

Procurada, a prefeitura afirmou que dispõe de 61 ambulâncias transferir pacientes. Um dos entraves para o aumento na demora de atendimento pode ser o tempo de higienização de cada carro, mas, segundo a Secretaria de saúde, é necessário para garantir a segurança das pessoas e evitar o contágio do coronavírus.