Coronavírus: em apenas três dias, hospital de campanha do Rio ocupa 28 das 30 vagas

Felipe Grinberg, Luiz Ernesto Magalhães e Pedro Zuazo
Pciente chega de maca para ser internado no hospital de campanha do Leblon

RIO — A situação de pacientes em estado grave, contaminados pelo novo coronavírus no Rio, é dramática. Nesta segunda à noite, 326 pessoas com Covid-19 precisavam ser transferidas para uma UTI, mas não havia mais vagas na rede municipal nem em seis hospitais da rede estadual que recebem infectados pela doença. Apenas uma unidade, o Hospital Regional Zilda Arns, em Volta Redonda, tinha leitos no setor destinado aos casos mais delicados — mas somente 18 dos 80 existente estavam livres. Diante da situação, que se aproxima do colapso, o estado montou no sábado o Hospital de Campanha Lagoa-Barra, no Leblon, que também já está sobrecarregado. Das 30 vagas de UTI do local, 28 estavam preenchidas nesta segunda. Especialistas sugerem uma regulação de vagas conjunta com a rede privada como alternativa para atender à crescente demanda.

Considerando todas as unidades da rede estadual, a taxa de ocupação de leitos de UTI destinados a Covid-19 chegava a 93% ontem. No município, já era de 100%. Para tentar abrir mais vagas, tanto a prefeitura quanto a Secretaria estadual de Saúde planejam inaugurar mais sete hospitais de campanha — na primeira semana de maio deverá estar funcionando o do Maracanã, que terá 400 leitos, 80 deles de UTI. A unidade do Riocentro, no entanto, não vai ter a capacidade planejada inicialmente.

O prefeito Marcelo Crivella admitiu que o hospital do Riocentro poderá ser inaugurado no próximo dia 1º com apenas 110 dos 500 leitos previstos. Apenas dez vagas serão destinadas, na abertura, a pacientes mais graves por conta da dificuldade de se obter respiradores. A chegada de equipamentos que viriam da China atrasou e, segundo Crivella, foi preciso arrendar duas aeronaves da Latam para trazê-los, ao custo de US$ 800 mil dólares. Os aviões, segundo o prefeito, só estarão disponíveis na próxima sexta-feira, data que o prefeito estimara para a abertura do hospital. Quando todos os hospitais de campanha estiverem em pleno funcionamento, o número de vagas de UTI extras passará para 500, mas para Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, pode não ser o suficiente.

—Os hospitais de campanha não só estão demorando muito para ficar prontos como também oferecem poucos leitos de UTI. E, mesmo com pouca quantidade, haverá dificuldade para equipá-los — afirma a especialista, que aponta o uso de leitos privados como solução. —Não é justo que os profissionais de saúde tenham que escolher quem vai morrer. Tem um jeito de evitar isso, que é o uso de leitos privados. Não é preciso se apropriar deles, é possível lançar mão de recursos como redução de impostos, por exemplo, para aumentar a capacidade de atendimento.

Margareth Portela, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, concorda:

—É importante considerar a possibilidade de uma regulação única. Dessa forma, se reduziria muito a necessidade de criar tantos leitos de campanha.

No caso do Hospital Lagoa-Barra, já existe uma parceria. Ele foi construído com recursos da iniciativa privada e é administrado pela Rede D'Or.

Além da dificuldade de se obter leitos de UTI, já há carência de vagas em enfermarias da rede municipal. Dos 419 leitos criados pela prefeitura para atender os pacientes com coronavírus, só havia 13 ontem disponíveis. Enquanto isso, 271 pessoas aguardavam na fila. Médicos de clínicas de família já relatam dificuldades. Na última sexta-feira, um doente em estado grave esperou cinco horas para ser transferido da unidade do Complexo do Alemão para um hospital.

— Antes da pandemia, a gente esperava no máximo duas horas para uma transferência. Agora, além de lutar por uma vaga, temos que brigar pelas ambulâncias. Quando pedimos prioridade, a regulação avisa que o problema é a falta de automóveis — diz um médico que pediu para não ser identificado.

Procurada, a prefeitura afirmou que dispõe de 61 ambulâncias para ajudar no transporte de pacientes., Um dos entraves para o aumento na demora de atendimento desses veículos pode ser o tempo de higienização de cada carro, mas segundo a secretaria municipal de saúde, é necessário para garantir a segurança dos pacientes e evitar o risco de contágio do coronavírus.