Coronavírus: 'Era uma tortura assistir à sua luta’: médica relata angústia de ver filho de 4 anos com covid-19

Alessandra Corrêa - De Winston-Salem (EUA) para a BBC News Brasil
The British Broadcasting Corporation

Com quase 20 anos de profissão, a pediatra americana Anna Zimmermann, de 44 anos, está acostumada a cuidar de crianças doentes.

Especializada no tratamento recém-nascidos prematuros, ela atua em uma UTI Neonatal em Denver, no Colorado, e relata histórias de superação dos bebês e de suas famílias em um site e um podcast.

Mas, nos últimos dias, Zimmermann decidiu falar sobre a experiência de sua própria família, depois que o filho Lincoln, de 4 anos de idade, foi internado com covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

Anna Zimmermann relatou a semana que seu filho Lincoln, de 4 anos, ficou internado com covid-19

Durante uma semana no hospital ao lado de Lincoln, a médica acompanhou com ansiedade a luta do filho, que não parava de tossir e precisava de oxigênio suplementar para respirar.

Em um vídeo postado nas redes sociais, ela descreve como podia ver todos os músculos do menino trabalhando no esforço para fazer o ar entrar e sair dos pulmões e como tentava ficar calma e confortar o filho durante os ataques de tosse.

"Como médica, eu sabia o que estava acontecendo com ele, como estava sua respiração", diz Zimmermann à BBC News Brasil. "E eu tinha total confiança de que estávamos fazendo todo o possível."

Mas ela conta que, apesar da experiência como médica, foi muito angustiante ver o sofrimento do filho. Em meio a acessos de tosse e ao esforço para respirar, Lincoln dizia "Mamãe, acho que não me sinto muito bem".

"Como mãe, era uma tortura assistir à sua luta", afirma Zimmermann.

Coronavírus em crianças

'Como médica, eu sabia o que estava acontecendo com ele (Lincoln), como estava sua respiração', diz Zimmermann

Zimmermann lembra da sensação de vulnerabilidade ao ficar trancada com o filho em um quarto de hospital, sem poder sair (por causa do isolamento imposto pela doença), e vendo que ele piorava a cada hora que passava.

"Foi difícil estar no hospital sozinha (com ele) quando tudo o que eu queria era dar um abraço no meu marido e nas minhas filhas e dizer que nós iríamos superar isso."

Ela diz que o pior momento foi no terceiro dia de internação, quando os médicos continuavam aumentando o volume de oxigênio mas, mesmo assim, Lincoln ainda tinha dificuldade de respirar.

"Eu estava realmente preocupada. Não conseguia dormir. A cada pequeno barulho eu levantava e ia checar como ele estava", lembra. "Nessa noite, eu chorei. Foi quando me senti mais vulnerável e mais assustada com o que estava por vir."

Agora, Lincoln já está em casa, totalmente recuperado e de volta à convivência com o pai, Chris, e com as irmãs, Emmeline, de 6 anos, e Elizabeth, sua gêmea.

Zimmermann diz que um dos motivos pelos quais resolveu compartilhar sua história foi o fato de que muita gente acha que crianças não são afetadas pela covid-19.

"É verdade, apenas 2% dos casos são em crianças, e apenas uma em cada cinco crianças fica gravemente doente e precisa ir para o hospital", afirma a médica, citando dados dos Estados Unidos divulgados neste mês pelo CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças, agência de pesquisa em saúde pública ligada ao Departamento de Saúde).

No hospital, mesmo com entubado, Lincoln chegou a ter dificuldade para respirar

"Mas acontece. Então, para todas as mães que estão frustradas, arrancando os cabelos enquanto supervisionam as lições escolares dos filhos em casa e tentam manter seus empregos em tempo integral e não podem sair para a rua, deixe-me lembrá-las: é por esse motivo que vocês estão fazendo isso (a quarentena)."

Precauções

Zimmermann garante que ela e a família seguiram todas as precauções para evitar o contágio pelo novo coronavírus e não tem ideia de como o filho foi contaminado. Desde 12 de março, as crianças estavam fora da escola e todos estavam quase o tempo inteiro dentro de casa.

"Nós demos a volta na quadra algumas vezes, e checamos a correspondência. Meu marido foi ao mercado uma vez, e eu outra", diz Zimmermann sobre as únicas ocasiões em que alguém da família saiu para a rua nesse período.

Mas, apesar dos cuidados, em um sábado de março, quando já fazia uma semana que estava fora da escola, Lincoln começou a apresentar os primeiros sintomas. Inicialmente, era apenas um pouco de tosse e o nariz escorrendo, e os pais acharam que se tratava de uma alergia ou algum vírus fraco.

Depois de uma semana, no entanto, Lincoln começou a ter febre alta, e a tosse piorou. Os pais levaram o menino ao pediatra, e ele voltou para casa com a receita de antibióticos e oxigênio suplementar - apenas pequenas doses, principalmente para dormir.

Mas, como o filho não estava comendo nem bebendo, os pais voltaram ao médico dois dias depois. Lincoln precisava de mais oxigênio, e Zimmermann e o marido decidiram levá-lo ao hospital, em 30 de março.

Hospitalização e recuperação

Até então, Zimmermann não sabia que o filho tinha covid-19. "Acho que ainda estava em negação, pensando que tínhamos feito tudo o que deveríamos fazer (para evitar o contágio), pensando que, como há tantos outros vírus que causam doenças em crianças, era provável que fosse um desses outros vírus", afirma.

"Quando o teste deu positivo, comecei a chorar. Em parte, porque me perguntava como isso foi acontecer. E em parte porque me perguntava o quão grave era o quadro. Ele continuava piorando", lembra.

Mas ela conta que, ao mesmo tempo, sentiu alívio ao saber o que o filho tinha. E também porque, com a confirmação, estava descartada a possibilidade de o menino ter outra doença grave e, ainda assim, correr o risco de contrair o coronavírus depois.

Anna Zimmermann conta que, apesar da experiência como médica, foi muito angustiante ver o sofrimento do filho

Lincoln não comia nem bebia nada e passava a maior parte do tempo dormindo. Mas, depois de alguns dias piorando, no quinto dia de internação ele começou a apresentar sinais de melhora.

Após uma semana no hospital, recebeu alta. Ele ainda precisou de oxigênio por mais uma semana quando já estava casa. Agora, está completamente recuperado.

"Ele está brincando com as irmãs no pátio. Você olha para ele e nem imagina que ele esteve doente", diz a mãe.

Esperança

Alguns dias depois que Lincoln ficou doente, seu pai apresentou sintomas leves de covid-19, mas também já está recuperado. As irmãs não apresentaram sintomas.

Zimmermann destaca o apoio e a solidariedade que recebeu de amigos, vizinhos e até desconhecidos. Ela diz que, além de chamar a atenção para o fato de que a doença deve ser levada a sério e pode ser grave mesmo em crianças, seu objetivo ao compartilhar sua história é também dizer aos pais que não entrem em pânico.

A médica diz que, quando lançou seu site, chamado Mighty Littles, tinha o objetivo de contar histórias de bebês na UTI Neonatal para dar coragem e esperança a outros pais passando pela mesma situação. Ela espera que a experiência de sua família com a covid-19 tenha impacto semelhante e ajude outros pais com filhos doentes.

"Quero mostrar que, mesmo quando fica realmente grave, como aconteceu conosco, ainda há esperança, é possível se recuperar."

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