Coronavírus: Especialistas afirmam que omissão do poder público contribuiu para avanço da pandemia

Daniel Gullino, Gustavo Maia, Renata Mariz e Renato Grandelle
Sepultamento de vítimas da Covid-19 no Cemitério do Caju

RIO e BRASÍLIA — A propagação do coronavírus no Brasil segue acelerada e, ontem, chegou a dois marcos dramáticos. O país ultrapassou simultaneamente a marca de 300 mil contágios e 20 mil óbitos. No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro reclamou da “propaganda muito forte” em torno da doença, que teria levado um “pavor para o seio da família brasileira”. Os cientistas, por sua vez, criticam o governo federal por resistir a medidas necessárias para conter a propagação da enfermidade, como o estabelecimento do isolamento social, insistindo na reabertura precoce do comércio. A estrutura precária do sistema público de saúde também preocupa, por forçar os médicos a fazer uma "escolha de Sofia", priorizando o atendimento aos pacientes que teriam mais condições de sobrevivência.

Pandemia:  Os números do novo coronavírus no Brasil e no mundo

Em 24 horas, o Ministério da Saúde recebeu 1.188 notificações de mortes por Sars-CoV-2, um recorde, além de 18.508 novas infecções.

Em uma videoconferência com lideranças católicas, Bolsonaro admitiu a “gravidade” da Covid-19 apenas para idosos e pessoas que já têm outras doenças, ignorando dados que mostram que essas não são as únicas afetadas.

— O governo federal faz o que é possível para entender o nosso povo na situação que vive com a questão do coronavírus. Se bem que, no meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira. E, obviamente, nós sabemos da gravidade das pessoas idosas e daqueles que têm algumas doenças, uma vez sendo acometido pelo vírus.

Uma prova da velocidade exponencial da pandemia no país está no tempo que levou para atingir as marcas de ontem: foram necessários 68 dias até que a Covid-19 chegasse a 100 mil contágios. Depois, 11 dias para dobrar. E, agora, sete dias para atingir 300 mil casos.

— A taxa de progressão é assustadora. Não sei se a população já percebeu o quanto é grave a nossa situação. Esta falta de adesão a medidas de isolamento social deve-se, em boa parte, à resistência do governo federal diante do combate à pandemia — lamenta a bióloga Natália Pasternak.

Para Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, a pandemia ainda está “mais ou menos na metade do caminho”, e o Brasil pode registrar até 40 mil vítimas fatais.

— Por pior que tenha sido a adesão ao isolamento, ele foi eficaz em reduzir o numero de casos — avalia, acrescentando a diferente situação da pandemia em cada região do país. — Manaus, por exemplo, já está numa curva caindo, mas São Paulo ainda está crescendo. O Rio já está um pouco mais próximo do pico.

Patricia Rocco, pesquisadora de doenças respiratórias, afirma que, diante da falta de infraestrutura, os médicos precisam escolher que pacientes serão atendidos, conforme sua chance de sobreviver.

— O Rio já deveria ter entrado em lockdown há, pelo menos, duas semanas. Infelizmente as consequências do coronavírus caíram sobre os médicos. A responsabilidade é do poder público.

‘Tempo de se preparar’

O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou, sem citar números, que a curva da Covid-19 está diminuindo em cidades grandes do Norte e Nordeste, mas que é necessário fortalecer a rede de saúde para enfrentar a interiorização do vírus, que classificou como “inevitável”.

No Sudeste, Sul e Centro-Oeste, segundo ele, “é tempo de se preparar”, sobretudo por conta da chegada do inverno.

— (É tempo de) se preparar para o combate, com a vantagem de estarmos observando como foi o impacto no Norte e Nordeste. Rezamos para que o impacto seja menor, mas virá algum grau de impacto.

Bolsonaro opinou ontem, em diferentes ocasiões, sobre como o coronavírus deve ser encarado. Afirmou que o país está na “iminência” de abrir o comércio — uma medida a que muitos prefeitos e governadores ainda resistem —, mas atribuiu aos estados e municípios a decisão sobre a data para o retorno às aulas.

Nas redes sociais, criticou um projeto de lei que tramita no Congresso criando uma multa para quem não usa máscara em ambientes públicos. Para ele, a população precisa ser convencida, e não obrigada, a adotar o acessório.

— Estamos na iminência de abrir, com responsabilidade, é lógico, o comércio, para que a miséria não faça a valer no Brasil. A pessoa desempregada não tem saúde — disse.

Sobre a volta às aulas, pediu calma e disse ter havido “uma reação negativa” à sua sugestão de que fossem retomadas.

— A população tem que ir entendendo aos poucos o que é esse vírus. Ele realmente é muito perigoso para quem tem certa idade ou alguma doença. Para a juventude, não tem esse perigo todo.

Colaboraram Leandro Prazeres e Paula Ferreira, de Brasília, Rafael Garcia, de São Paulo, e Rafael Walendorff, do Valor