Coronavírus: governos de estados mais afetados restringem aglomerações e suspendem aulas, mas divergem sobre transporte

Marlen Couto, João Paulo Saconi e Bruno Marinho
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87562237_RI Rio de Janeiro RJ 18-03-2020 Passageiros do BRT se revoltam com controle da PM e da.jpg

Passageiros em BRT lotado na Zona Oeste do Rio nesta quarta-feira

RIO - Os governos dos estados mais afetados pela pandemia de coronavírus no país restringiram nos últimos dias eventos com grandes aglomerações, fecharam espaços culturais e suspenderam atividades em escolas, mas poucos têm adotado medidas e recomendações mais drásticas em relação ao transporte público. É o que aponta um levantamento do GLOBO com base em informações publicadas nos portais dos governos e em diários oficiais.

Apenas três dos 13 estados brasileiros com os maiores números de casos confirmados — e que já fecharam museus e espaços culturais — restringiram a circulação de passageiros em ônibus, trens e metrô: Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina. Oito estados reforçaram a higienização de meios de transporte.

No Rio, o governador Wilson Witzel (PSC) determinou que ônibus intermunicipais, trens, metrôs e barcas funcionem com 50% da capacidade de lotação e que os passageiros das linhas intermunicipais só viajem sentados. Apesar disso, nesta quarta-feira ainda se viam veículos lotados, assim como pontos de ônibus. A medida chegou também às viagens entre a Região Metropolitana do Rio e o interior do estado que estão suspensas por 15 dias.

No Espírito Santo, o governador Renato Casagrande (PSB) determinou a retirada de circulação de ônibus com ar-condicionado e estabeleceu que passageiros devem ser orientados a manter janelas e vãos basculantes abertos. Também há previsão de uma campanha de conscientização para se reduzir o contato entre usuários e cobradores e para estimular o uso de aplicativo com os horários das linhas de forma a reduzir as aglomerações nos pontos.

Carlos Moisés (PSL), governador de Santa Catarina, decretou ontem a suspensão por sete dias da circulação de veículos de transporte coletivos municipais, intermunicipais e interestaduais.

Rodízio suspenso

Em São Paulo, que registra o maior número de casos confirmados de Covid-19, a prefeitura suspendeu o rodízio de carros para incentivar a redução no fluxo de passageiros, mas não houve alteração no funcionamento do transporte público.

O infectologista Alberto Chebabo, professor da UFRJ e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, avalia que São Paulo já deveria ter restringido os transportes. Mas ele também faz críticas às medidas adotadas pelo Rio:

— Para mim, ambas têm problemas. Em São Paulo, já deveriam ter restringido os transportes. Quanto mais precoces os cuidados, mais eficazes são os efeitos. O Rio saiu na frente neste sentido, mas o erro foi a redução da malha de ônibus. Você restringe a mobilidade das pessoas, mas aquelas que precisam sair de casa têm menos opções e acabam se concentrando. O ideal era que elas pegassem ônibus menos cheios.

A infectologista Denise Bernardes alerta que as restrições ao transporte público são necessárias para conter a disseminação do vírus:

— É o que chamamos de medidas não farmacológicas. A inibição do transporte é necessária, vale a pena inclusive para as cidades com menos casos. No Rio, no último fim de semana, teve pessoas aproveitando a suspensão das aulas para ir à Região dos Lagos. Não pode. A melhor coisa foi proibir esse trânsito, bloquear fronteiras. Não tem como ser de outra forma.

Além dessas medidas, houve recomendação para suspensão de voos internacionais ou domésticos (provenientes de estados com casos confirmados de coronavírus) no Ceará, no Rio, no Paraná e em Goiás. Esses três últimos, além de Santa Catarina, determinaram a suspensão de ônibus interestaduais.

Nesta quarta-feira, o fechamento de shoppings centers foi anunciado em São Paulo — até o fim de abril — e no Distrito Federal pelos governadores João Doria (PSDB) e Ibaneis Rocha (MDB), respectivamente. O prefeito Bruno Covas, de São Paulo, anunciou o fechamento de parte do comércio, com exceção de farmácias e mercados. Todos os estados mais afetados instituíram home office para os servidores públicos que não atuam em áreas essenciais. Apenas Pernambuco não anunciou ainda medidas nesse sentido. Outra ação adotada por todos os governos foi suspender ou reduzir visitas em presídios.

Veja as medidas adotadas nos 13 estados mais afetados