Coronavírus: Hospitais federais do Rio não terão leitos específicos para pacientes de Covid-19 da rede pública

Tatiana Furtado
Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá

RIO - Após quatro horas de reunião, o Ministério da Saúde informou que vai cumprir parcialmente a decisão da Justiça Federal que determinou a disponibilização de leitos dos seis hospitais federais para a rede pública do Rio no combate ao novo coronavírus. Porém, as unidades só trabalharão como retarguarda dos hospitais de referência.

A Defensoria Pública da União visava a diminuir a fila de pacientes à espera de uma vaga de UTI. De acordo com os números de segunda-feira, eram mais de 300 pessoas precisam de terapia intensiva na rede pública. Os seis hospitais federais que vão oferecer leitos são: Hospital Geral de Bonsucesso, Hospital da Lagoa, Hospital de Ipanema, Hospital dos Servidores Federais, Hospital do Andaraí e Hospital Cardoso Fontes.

– Os hospitais cederam os leitos, mas não são serão específicos para a Covid-19. Eles argumentaram que já estão atendendo casos de coronavírus. Ficarão na retarguarda para receber pacientes – disse o defensor público Daniel Macedo, acrescentando. – Se a rede federal tivesse se estruturado no início da pandemia, teria sido mais fácil. Desenha-se o quadro de colapso. E isso quer dizer que não vai adiantar ações na Justiça para conseguir vagas, pois não vão ter.

Dias depois da decisão judicial, no dia 22 de abril, a direção do Hospital Cardoso Fontes, em Jaracarepaguá, enviou um ofício ao núcleo de gestão dos hospitais federais sobre medidas de enfrentamento ao coronavírus. O documento, assinado pela diretora Ana Paula Fernandes, afirma que a unidade não tem condições de ofertar leitos a outras unidades da rede pública devido à demanda de pacientes com Covid-19 e alerta para a transmissão intra-hospitalar.

Num vídeo publicado em rede social, na segunda-feira, a enfermeira Chris Gerardo, do Cardoso Fontes, mostra o corredor da emergência, de dois metros de largura, cheio de macas com pacientes. De acordo com ela, há seis leitos no setor. Mas, no total, 23 pacientes estão sendo atendidos, todos com coronavírus confirmado em testes – alguns intubados. As vagas de CTI também estão majoritariamente ocupadas com casos de Covid-19. No total, são 248 leitos gerais.

O medo dos profissionais de saúde é constante diante da alta taxa de contaminação intra-hospitalar e da falta de equipamentos de proteção. Na emergência, Chris começou a sentir os sintomas do coronavírus há pouco mais de duas semanas. Terminou o plantão e, na consulta médica no dia seguinte, foi afastada por uma semana. Com o teste rápido positivo, fez as duas semanas de quarentena e retornou ao trabalho na semana passada.

– As duas semanas são contadas a partir do início dos sintomas e não é feito um novo teste. Se estou salvando vidas ou infectando mais pessoas e pacientes com outras doenças, não sei. Não houve um controle sanitário eficiente. Não emergência, todos que chegam ficam juntos, não há uma separação dos casos suspeitos de coronavírus – conta a enfermeira, que, em fotos na sua página do Facebook, mostra o capote que deveria ser impermeável deixando a água molhar sua pele.

De acordo com o Núcleo Estadual do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro (NERJ), as recomendações da OMS preveem apenas os 14 dias de quarentena antes de os profissionais da saúde retornarem ao trabalho, sem necessidade de um novo teste.

A enfermeira não é um caso isolado do Cardoso Fontes. No ofício assinado pela direção do hospital, os números impressionam. Todos os setores da unidade tiveram funcionários contaminados. Entre os dia 12 e 18 de abril, foram 197 atendimentos de casos com síndrome gripal. Destes, 180 foram considerados suspeitos e realizaram os testes rápidos; 61 (34%) deram positivo.

Apenas na emergência, que conta com 150 funcionários, houve um aumento de 325% de casos de síndrome respiratória entre 14/03 e 15/04. E 52% de toda a força de trabalho da área se encontravam afastados até semana passada. No total, o hospital chegou a 28% da força de trabalho afastada por licença médica no dia 17 deste mês. Incluindo a diretora e chefes de departamentos.

Dois deles, diretamente ligados à área da saúde, estão internados. Uma técnica de enfermagem está no CTI da própria unidade; um técnico de laboratório foi transferido para o Hospital estadual Zilda Arns, em Volta Redonda, em estado grave.

Entre os técnicos e auxiliares de enfermagem, 39% deles estão sem condições de trabalho. Esses números afetam diretamente o atendimento. Já há casos de transmissão intra-hospitalar entre pacientes na enfermaria do hospital. O impacto dos afastamentos também chega a uma das áreas mais sensíveis da unidade, o CTI. Ali, tem-se trabalhado com déficit de 38% de técnicos de enfermagem; 35% de médicos; e 28% de enfermeiros.

De acordo com nota técnica do Núcleo de Gestão de Hospitais Federais, no dia 16 de abril, o Hospital Cardoso Fontes contava com 374 profissionais da saúde afastados por atestado médico (250) ou por serem grupo de risco (124) por diversos motivos, entre eles, o coronavírus.

– Ainda não tivemos óbitos de funcionários. Mas nossa situação é grave. Temos metade dos funcionários do Hospital Geral de Bonsucesso, que é muito maior, e o mesmo padrão de contaminação. Por causa dos afastamentos, estou trabalhando três vezes mais do que o normal. Só há três enfermeiras na emergência – diz a servidora.

O problema ainda pode aumentar. Segundo o defensor público Daniel Macedo, 4.200 funcionários dos seis hospitais federais do Rio terão seus contratos encerrados no dia 30 de maio.

Outros funcionários denunciaram as condições de trabalho. Ainda no começo da crise foi prometido um curso aos profissionais sobre os protocolos para cada situação, o que não ocorreu. Além disso, a comissão de infecção hospitalar considerou desnecessário o uso de máscaras cirúrgicas e N95 para enfermeiros e técnicos de alguns setores, no início de março. De acordo com o departamento, não se fazia necessário o uso se o protocolo de distanciamento de 1,5m fosse respeitado.

Funcionários, no entanto, apontaram os estreitos corredores hospitalares  e sala de descanso com camas muito próximas como impeditivos para seguir o protocolo.

– Só liberaram no fim de março  o uso de máscara cirúrgica por todos. As pessoas estão com muito medo. Só estão testando quem apresenta sintomas ou tem alguém próximo com sintomas. Mas há funcionário que testou positivo e estava sem sintomas. E continuou trabalhando até o resultado do teste – conta uma enfermeira contratada do hospital, que preferiu não se identificar.

Concomitantemente à crise da Covid-19, o hospital  mantém os tratamentos de oncologia e hemodiálise dos pacientes e cirurgias inadiáveis. Mas, no documento, pretende restringir a emergência a casos laranja e vermelho (graves e muito graves), suspender as consultas ambulatoriais de primeira vez e suspender as visitas aos pacientes. A direção também alerta para um possível esgotamento de insumos por causa da pandemia.