Coronavírus: hospital de campanha em São Paulo deve atingir ocupação máxima esta semana

Ana Letícia Leão, Sérgio Roxo e Célia Costa
Hospital de campanha montado no estádio do Pacaembu tem 142 pessoas internadas e sua capacidade é de recceber 200 pacientes.

SÃO PAULO e RIO - Além do fim de leitos de UTI na rede estadual do Rio, outros estados sofrem com a pressão em seus sistemas de saúde diante do aumento de casos de coronavírus no país.

Em São Paulo, o hospital de campanha do Pacaembu, na Zona Oeste da capital paulista, o primeiro do tipo a receber pacientes vítimas da Covid-19, deve chegar à capacidade máxima de atendimento nesta semana. Segundo o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, o complexo tem hoje 142 pessoas internadas. Entre leitos de UTI e enfermaria, o Pacaembu tem capacidade para receber, ao todo, 200 pacientes.

— Mais 32 pacientes estão previstos para chegar (ao hospital do Pacaembu). Seguramente, teremos uma ocupação máxima até o fim da semana — afirmou o secretário, em coletiva de imprensa nesta segunda, no Palácio dos Bandeirantes.

Segundo o secretário, já foram atendidos no local, desde 6 de março, 462 pacientes infectados por coronavírus. Até então, uma pessoa morreu em decorrência de complicações (um homem de 36 anos, que era portador da doença de Chagas). De acordo com o último boletim da Saúde, dos 132 pacientes internados no Pacaembu, 123 estão em enfermarias e nove em leitos de estabilização, destinados a casos mais graves.

O outro hospital municipal de campanha, o do Anhembi, na Zona Norte, tem 353 pacientes internados com Covid-19, sendo 335 na enfermaria e 18 em leitos de estabilização. O hospital tem capacidade para atender 1.800 pacientes. Questionado se os hospitais de campanha em São Paulo estariam sendo subutilizados, pelo menos no caso do Anhembi, o secretário disse que os complexos servem para "aliviar a pressão nos hospitais comuns":

— Não há subutilização. Eles já cumpriram e ainda vão cumprir seu papel. O pico da doença ainda não chegou a São Paulo.

Em todo o estado, a taxa de ocupação hospitalar de UTIs era de 58,9% no domingo. Já na Grande São Paulo, a situação é mais grave, chegando a 77,3% de ocupação. Na cidade de São Paulo, a taxa de ocupação neste domingo era de 70%, segundo o prefeito Bruno Covas. No Hospital das Clínicas, maior complexo de São Paulo destinado a atender vítimas da Covid-19, a taxa de ocupação da UTI atingiu 95%.

Em Fortaleza, ocupação de leitos chega a 98%

A situação também é preocupante no Ceará. Depois de conseguir contornar a lotação das UTIs com a inauguração de novos leitos, Fortaleza volta a enfrentar o risco de falta de vagas para pessoas com o novo coronavírus. No domingo, o índice de ocupação na capital cearense chegou a 98%. No estado todo, era 77%.

Ceará tem visto uma aumento do número de mortes nos últimos dias. Foram 104 óbitos desde sexta-feira, um aumento de 35% em três dias. O número total de pessoas que perderam a vida por causa da Covid-19 no estado chegou a 397. Já o total de pacientes com coronavírus atingiu 6.783.

Amazonas vive colapso também no sistema funerário

Já o Amazonas, que desde a semana passada enfrenta crises na Saúde e no serviço funerário, tem 3.920 casos confirmados e uma taxa de ocupação de leitos de UTI na casa dos 91%. A técnica em enfermagem Jaina Ribeiro, de 28 anos, sentiu esse desespero na pele: peregrinou por hospitais atrás de um leito para o pai, Marcone Ribeiro, de 53. Com sintomas de Covid-19, que se gravavam a cada dia, ele morreu no sábado, no Hospital Vinte e Oito de Agosto, que serve de apoio para a internação de pacientes com o novo coronavírus. Nesta segunda-feira, o esforço foi para conseguir sepultar o corpo. A doença já matou 320 pessoas no estado.

Na semana passada, quando viu a saúde do pai piorar, Jaina resolveu gravar um apelo desesperado. De joelhos, ela apareceu falando “Pelo amor de Deus, me ajudem a conseguir um leito para o meu pai. Eu imploro a quem puder me ajudar de alguma forma”.

O vídeo, retrato fiel do caos no Amazonas, correu as redes sociais em poucas horas. Marcone, que precisava ser entubado, estava em um serviço de pronto-atendimento sem equipamentos necessários. Após a repercussão das imagens, o homem foi transferido para a UTI do Vinte e Oito de Agosto, mas o quadro já era muito grave.

— Depois de tudo o que passei tentando conseguir atendimento para o meu pai, agora o sofrimento é para dar um sepultamento digno a ele. Ontem (domingo), passamos o dia inteiro para fazer o enterro. Foram 160 sepultamentos no mesmo dia. Não quiseram fazer à noite. Hoje, estou desde cedo. Minha mãe está muito mal com isso tudo. É um sofrimento muito grande — disse Jaina: — Somente no final da tarde liberaram o corpo. Até para o meu pai ser enterrado com dignidade teve muita confusão. Isso parece um pesadelo.

Com a aceleração do número de casos de mortes, o governo do Amazonas criou um Comitê de Crise do Covid-19, que reúne diariamente representantes dos órgãos de governo envolvidos em ações de enfrentamento à pandemia. Entre as medidas anunciadas está a criação de um sistema de identificação de pacientes com uma pulseira padrão, escrita com caneta de marcação permanente, para que seja possível acompanhar o atendimento e, em caso de óbito, facilitar a identificação na liberação do corpo.

Também foi iniciado um processo para a contratação de recursos humanos, principalmente maqueiros, para atuar no manejo de pacientes dentro das unidades, bem como na destinação de corpos antes da liberação para família.

Em São Luís, restam apenas seis vagas de UTI

O colapso também atingiu São Luís, capital do Maranhão: a taxa de ocupação dos leitos de UTI é de 94,64%. Dos 112 leitos disponibilizados, restam apenas seis vagas. A situação no interior do estado, porém, é melhor. Apenas dez leitos dos 81 existentes estão ocupados, o que representa uma utilização de apenas 12,35%. Há 2.410 casos registrados no estado, com 125 mortes.

Em Pernambuco, outro estado do Nordeste com a rede em colapso, a taxa de ocupação é de 98% dos 333 leitos de UTI. Já foram confirmados 4.898 casos e 415 mortes. Em Sergipe, há 85 leitos de UTI em todo o estado exclusivos para Covid-19, incluindo os do SUS e da rede privada. Estão ocupados nove (três pacientes do SUS e seis da rede privada).