Coronavírus: Hospital do Fundão fecha espaço reservado para atendimento médico de funcionários e servidores

Rafael Nascimento de Souza

RIO — Funcionários e servidores do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, mais conhecido como Hospital do Fundão, que é administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram informados nesta quarta-feira que a partir do dia seguinte, ou seja, nesta quinta, o Serviço de Saúde do Trabalhador (Sesat) – que cuida da saúde dos servidores e prestadores de serviço do hospital universitário – não iria mais funcionar. O motivo do fechamento do espaço seria o alto índice de afastamento de profissionais por conta do coronavírus. Servidores e médicos que utilizavam do local estão revoltados com a atitude inesperada da universidade e da direção do hospital.

Em um comunicado interno, distribuído pela assessoria de imprensa da universidade às 13h41m desta terça, a UFRJ afirma que “devido ao alto índice de afastamento de profissionais, principalmente da área de enfermagem (aproximadamente 300) o Sesat – Serviço de Saúde ao Trabalhador – estará fechado para o atendimento médico a partir de amanhã (30)”, dizia parte da notificação.

Ainda de acordo com o documento, “o afastamento desses profissionais é o principal fator impeditivo para a abertura de novos leitos no HUCFF. Por isso a necessidade de remanejamento de pessoal para áreas de assistência de pacientes”.

E para os profissionais do local, o mais grave veio no final do aviso: “os servidores e prestadores de serviço devem buscar a unidade básica de saúde de sua referência, caso necessite de atendimento médico.”

De acordo com uma enfermeira do local que pede anonimato, os profissionais que se sentiam mal durante o trabalho eram medicados no espaço e, que, a direção da unidade já vinha querendo fechar o local, mas não tinha justificativa para tal. Entretanto, segundo ela, o novo vírus foi usado como desculpa para a interrupção definitiva do serviço de saúde dos profissionais.

— Quando tínhamos qualquer problema de saúde recorríamos ao Sesat. Com a desculpa de remanejar profissionais, fecharam. Agora, quando tivermos algum problema (de saúde) teremos que ir para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) – lembra a profissional, que vai além: — Estamos trabalhando acima do limite. Diariamente recebemos notícias de que colegas estão sendo infectados e até morrendo com a Covid-19 e o local que era o nosso apoio, de saúde e psicológico, foi fechado por decisão monocrática. Não pediram a nossa opinião. Só comunicaram do fechamento – relatou.

Um grupo de WhatsApp de servidores do HUCFF, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e funcionários terceirizados estão revoltados. O GLOBO teve acesso a essas mensagens e a indignação é coletiva.

“O Sesat foi fechado para dificultar a procura de profissionais de saúde que estão sentindo algum sintoma (do novo vírus)”, disse uma profissional. Um outro servidor concorda e diz: “Estamos morrendo e sem assistência”, escreveu. Um médico escreveu: “Questionei a (falta de) máscara cirúrgica, porque no meu setor só tem a válida para apenas duas horas, e nada. Estamos usando máscaras já vencidas”, destacou.

Em nota, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Sintufrj) diz que fechamento do setor deixa desprotegido quem está na linha de frente do combate à pandemia. Segundo o texto, o sindicato, questionou o fechamento e propôs que a direção do hospital dividisse o atendimento, concentrando no Sesat o suporte aos trabalhadores que estão na linha de frente, e que a CPST assumisse os demais procedimentos. Segundo a nota, a direção do HUCFF acatou a sugestão e comprometeu-se a organizar uma reunião com o Sesat para garantir os procedimentos de reabertura do setor até a próxima segunda, dia 4 de maio.

Hospital nega falta de EPIs

Em nota, o Hospital Universitário confirmou o fechamento do Sesat e atribuiu à decisão o alto índice de afastamento de profissionais, principalmente da área de enfermagem. Segundo o texto, o objetivo do fechamento é diminuir a sobrecarga e reorganizar o atendimento, uma vez que profissionais que atuam no Serviço foram remanejados para áreas de assistência aos pacientes, a fim de suprir os que estão afastados neste momento.

Ainda de acordo com o hospital, outro fator importante na decisão de fechar o Sesat para atendimento aos funcionários foi a grande fila formada dentro do hospital, o que, segundo o hospital, favorece a contaminação. Por esse motivo, explica a nota, optou-se por encaminhar esta demanda de atendimento dos funcionários do Hospital à Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador (CPST) - PR4/UFRJ. A previsão é de que o Sesat do HUCFF reabra na próxima segunda-feira (04) atendendo a rotina de acidentes biológicos e físicos da unidade, bem como os exames periódicos.

Segundo o HUCFF, de 489 funcionários com sintomas suspeitos, 175 testaram positivo para Covid-19. Destes um óbito foi registrado. Sobre a falta de EPIs, o HUCFF diz que o estoque está em dia. A assessoria destaca também que o Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica do HUCFF está disponível, desde o começo da pandemia, para atendimento aos funcionários.