Coronavírus: Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, tem respiradores parados durante pandemia

Letícia Lopes
Alberto e a esposa, Tânia

RIO — Apesar do receio que sente em estar em hospitais, o aposentado Alberto Maurício Romeiro, de 90 anos, cedeu ao pedido dos filhos e procurou atendimento nesta terça-feira em uma unidade de emergência perto de casa, após quatro dias de sintomas da Covid-19. Com falta de ar, ele foi internado na Unidade Municipal de Pronto Atendimento (Umpa) do Pacheco, em São Gonçalo, e desde então aguarda transferência para uma unidade de saúde equipada com respirador: é um dos 378 pacientes com suspeita ou confirmação da doença na fila por um leito de UTI no estado. Apesar da fila longa, em Niterói, cidade vizinha a do aposentado, 16 respiradores estão sem uso no Hospital Universitário Antônio Pedro.

Pai de quatro filhos e avô de três netos, Alberto começou a ter os primeiros sintomas na última sexta-feira, como tosse seca e falta de paladar. O quadro piorou no fim de semana, e a primeira ida a unidade de saúde aconteceu na segunda-feira, quando o médico que o atendeu recomendou que ele voltasse para casa e procurasse atendimento novamente caso o desconforto se agravasse.

— No primeiro atendimento na Umpa ele foi diagnosticado com anemia e pneumonia, ficou um tempo no oxigênio e mandaram de volta para casa. No dia seguinte ele piorou e quando o levamos de volta, já foi internado em isolamento — conta a enteada do idoso, a analista de recursos humanos Tatiana Muenzer, de 43 anos.

Desde a internação imediata, os filhos de Alberto foram informados de que o pai precisaria ser transferido para uma unidade de saúde com respirador. A primeira opção seria o Hospital Municipal Luiz Palmier, mas até a tarde desta quarta-feira, o idoso ainda não havia sido transferido por falta de vagas. De acordo com informações da Secretaria de estado de Saúde, São Gonçalo tem hoje 326 casos confirmados da Covid-19, com 266 internações e 25 óbitos.

— Tudo evoluiu muito rápido. Converso todos os dias com meu padrasto, escuto muito ele. O mais triste foi ter ouvido que ele não estava mais ligando para a vida. Ele é muito forte, ágil, gosta de fazer as coisas, decidir tudo, é um patriarca. Minha mãe está nervosa, muito triste. Eles estavam dormindo juntos todo esse tempo, e ela tem tido tosse e falta de ar. Nunca imaginava viver nada assim. Parece uma contaminação em cadeia na nossa família — diz Tatiana, ao lembrar que o irmão mais novo, que mora no quintal dos pais, também está com os sintomas.

Procurada, a prefeitura de São Gonçalo ainda não se pronunciou sobre o caso.

Respiradores parados em Niterói

Enquanto faltam respiradores e famílias como a do aposentado aguardam que leitos de UTI sejam liberados, na cidade vizinha, Niterói, dezesseis respiradores estão parados no Hospital Universitário Antônio Pedro, como mostrou o "RJ2", da TV Globo.

Em nota, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), estatal que administra a unidade de saúde da Universidade Federal Fluminense, informou que o hospital conta com 66 respiradores — 50 fazem parte de leitos distribuídos nas diferentes áreas da instituição, e outros 16 "estão obsoletos e são inadequados para uso em respiração invasiva em adultos com graves doenças pulmonares, como por exemplo a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), apresentada em alguns casos na infecção por Covid-19".

A empresa informou ainda que os aparelhos têm sido utilizados "eventualmente para reposição de outros respiradores" e ainda não foram descontinuados pelo uso em ventilação não invasiva em recém-nascidos e lactantes. "Seu propósito é somente o uso em caso de extrema necessidade, e somente nas situações citadas, na ausência de outros respiradores em condições mais adequadas", diz o texto.