Coronavírus leva clube sensação do Ceará a rescindir com todo o elenco

Marcello Neves

O Guarany de Sobral tinha tudo para viver um ano histórico. Foi o líder da primeira fase do Campeonato Cearense, está praticamente garantido nas semifinais e foi o campeão do interior de forma antecipada. Mas o projeto que poderia surpreender os poderosos Ceará e Fortaleza foi encerrado devido a pandemia do novo coronavírus. Com o torneio suspenso, o clube interrompeu os contratos de todo o elenco.

Os jogadores foram comunicados na última segunda-feira (23) do aviso de rescisão, confirmado pelo presidente Mauro Fuzaro. Até mesmo destaques como os atacantes Ciel e Siloé estão fora dos planos. O 'Jogo Extra' entrou em contato com o departamento jurídico do Guarany, que justificou a decisão por fatores financeiros.

-  A diretoria fez uma reunião virtual e colocamos em pauta quais seriam as dificuldades. O Guarany é um clube que precisa conviver com débitos passados. Temos dividas trabalhistas que vem sendo honradas, mas limitam a nossa capacidade orçamentária. Tínhamos uma previsão de renda para esse ano que ficou aquém do esperado - conta o diretor jurídico Thyago Donatto.

A reportagem apurou que a maior preocupação da diretoria foi a falta de jogos disputados nos próximos meses. Caso a paralisação do Cearense ultrapasse três meses, isso poderia interferir no planejamento financeiro do clube. Além disso, existe incerteza sobre a realização da Série D do Brasileirão e um problema com o patrocinador master, que não repassa uma verba fixa para o clube. A folha salarial do elenco é de R$ 200 mil mensais.

A decisão revoltou atletas, comissão técnica e principalmente os torcedores. Do elenco principal, apenas o técnico Washington Luiz permaneceu. 'Jogo Extra' entrou em contato com o comandante, que preferiu não estender assunto "a pedido do diretor de futebol", mas está tentando ajudar a reverter a situação.

- O que posso lhe falar é que estou conversando e tentando intermediar uma situação para que o posicionamento inicial seja repensado - declarou Washington Luiz. Os jogadores também foram procurados, mas preferiram não se pronunciar.

O futuro também é incerto para o Guarany de Sobral. Sem elenco e classificado para uma competição nacional, o que fazer quando a pandemia for superada? O clube assumirá o risco de remontar o elenco às pressas e trabalha com duas possibilidades: apostar em nomes formados nas categorias de base do clube e contar com o retorno desses mesmos jogadores que tiveram o contrato rescindido.

- Nós esperamos que os atletas aceitem propostas para retornarem caso não venham a estabelecer vínculo com outros clubes. Nós sabemos desse risco. Aqueles que aceitarem a proposta de rescisão e aguardarem, tão logo tenha uma retomada do futebol, para nós o cenário é positivo. Nosso clube fez uma ótima campanha na primeira fase, garantiu uma vaga na Copa do Brasil - comenta Thyago.

Segundo Iara Costa, repórter do 'O povo', existe um parágrafo no regulamento do Campeonato Cearense que diz que "novos atletas só podem ser registrados até 27 de março". Ou seja, caso o torneio retorne, o Guarany não poderia inscrever atletas e nem contar com os que rescindiram. Isso faria o clube ser rebaixado automaticamente, mas a diretoria acredita que esse ponto será modificado.

- Existe essa limitação quanto a data limite para inscrição, mas entendemos que essa data terá que ser flexibilizada. Nós estamos falando de um transtorno mundial, que tem reflexo no esporte e modificou o calendário. Não seremos apenas nós, existem outros clubes em dificuldades. Contamos com o bom senso da organização - completa o diretor jurídico.

Do outro lado da história, os jogadores tentam reverter a decisão através do Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Ceará (SAFECE). A ideia inicial da instituição é estabelecer um diálogo entre os atletas e a diretoria para evitar as rescisões.

- Temos um time (Guarany) muito bom, que jogou de igual pra igual com todo mundo, e um clube que pode chegar num nível de Copa do Nordeste, tá com uma estrutura bacana. Acho que não pode se precipitar. Calma, vamos conversar, sugerir um diálogo com CBF e Federação - declarou presidente do Sindicato, Marcos Gaúcho, em entrevista ao 'O Povo'.

Uma proposta já foi enviada ao Guarany por meio de dois jogadores. A reportagem entrou em contato com o Guarany de sobral, que afirmou "estar aberto ao diálogo".

- O que o Sindicato propôs foi manter o vinculo com os atletas no mês de março e abril e deixar para conversar apenas em maio. Segundo eles, até o mes de abril será possivel saber sobre como ficará o calendario. A proposta foi encaminhada para a diretoria e ainda não temos uma posição - informou o clube.

Para a imprensa cearense, a tendência é que mais clubes sintam dificuldades por conta da paralisação do calendário.

- Clubes do interior do Brasil têm muitas dificuldades para se manterem ao longo de disputas dos campeonatos, imagina quando um para de repente. Aqui no Ceará, em campeonatos estaduais, as equipes literalmente pagam para jogar, uma vez que não consegue ter lucros. Sem futebol não tem receitas e se até clubes de Série A podem ter problemas com isso, times do interior sofrem ainda mais. Não creio que o Guarany vá desfazer o que fez pela dificuldade apresentada - opina o jornalista Gerson Barbisa, do 'O Povo'.