Coronavírus mata mais jovens na periferia de SP do que em bairro rico

WILLIAM CARDOSO
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 24.03.2020 - Movimentação durante o primeiro dia de quarentena no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Bairros da periferia têm uma mortalidade maior entre pessoas abaixo dos 60 anos do que nas regiões mais ricas da capital paulista. Isso é o que mostra levantamento publicado em boletim da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão Bruno Covas (PSDB).

Os números são relativos às mortes ocorridas até o último dia 17 de abril e mostram que subprefeituras como a do Campo Limpo (zona sul), por exemplo, chegaram a ter a maioria das vítimas entre pessoas com menos de 60 anos.

É bem mais do que a média da capital, onde apenas 23,3% estão nesta faixa etária inferior aos 60 anos. Em bairros como Pinheiros (zona oeste), esse número cai para menos de 5%.

"Percebe-se maior proporção de óbitos em faixas etárias inferiores na área mais excluída", afirma o relatório. Segundo o documento, nas regiões com melhores condições sociais, 90,4% das mortes ocorrem nas faixas etárias acima de 60 anos. Nas áreas mais carentes, esse percentual só é alcançado se considerada a população com 40 anos. "Isso se deve, provavelmente, à maior prevalência de condições debilitantes de saúde", aponta relatório.

Segundo especialistas, a pobreza e a dificuldade de acesso aos tratamentos de saúde estão entre as possíveis causas do maior número de mortes entre pessoas mais jovens nos bairros periféricos da capital.

Diretora do Simesp (Sindicato dos Médicos de São Paulo), Denize Ornelas diz que o mapa da desigualdade mostra, todos os anos, que a expectativa de vida e a média de anos vividos nas regiões são menores. "As condições de vida são piores", afirma a profissional.

Denize diz que os mais pobres estão mais expostos ao coronavírus. "Não por acaso, essas são pessoas que não podem fazer quarentena, como motoboys, porteiros, faxineiras", diz. A diretora do Simesp lembra que, também por causa da desigualdade, o novo coronavírus tem matado, proporcionalmente, mais negros do que brancos.

Acesso O infectologista Alexandre Naime afirma que é preciso ter cautela com os dados, mas diz que, de forma geral, populações mais pobre têm mais obstáculos para seguir uma dieta adequada e controlar doenças como diabete, pressão alta e obesidade, que colaboram para piorar do quadro de Covid-19.

Naime também cita a dificuldade de acesso ao tratamento de saúde entre mais pobres. "Quanto mais cedo se chega ao hospital e mais rápido consigo colocar em oxigênio, maior a chance de sobreviver", diz.

Além das questões apontadas pelos demais especialistas, o infectologista Gerson Salvador aponta o desequilíbrio na oferta de equipamentos de saúde. "A gente tem a superlotação de diversos serviços públicos, notadamente na zona leste. Nos privados, uma ociosidade de leitos. É uma distribuição desigual dos recursos", afirma.

Isolamento A prefeitura ainda faz uma relação sobre o isolamento social com o aumento dos casos. "Certamente este desenho da epidemia mostra no presente momento que as políticas de isolamento social podem beneficiar a todas as regiões e conseguir que os sinais alarmantes vistos em parte da cidade não se reproduzam em regiões ainda pouco afetadas por ela, como visto nesta análise da mortalidade", diz o relatório.

Torcedora da Gaviões da Fiel, atendente morreu aos 43 anos Atendente do setor administrativo do Hospital Geral de Guaianases, Patrícia Almeida Ribeiro morreu no último dia 15 por causa do coronavírus. Aos 43 anos, ela era moradora da Vila Curuçá (zona leste), na subprefeitura do Itaim Paulista, uma das três regiões com maior percentual de vítimas entre os menos idosos.

Filha de Patrícia, a auxiliar administrativo Sindy Ribeiro da Silva, 25, conta que a mãe estava bastante apreensiva com quantidade de pessoas com sintomas de Covid-19 que chegavam ao hospital. "Eu também trabalhava em hospital. Quando ela falou que estava sentindo o sintomas, passei a dormir fora de casa e conversava com ela só por WhatsApp", diz.

A atendente Patrícia Ribeiro, 43, trabalhava como atendente em um hospital da zona leste Arquivo pessoal A evolução foi rápida, desde a internação no sábado e a morte na quarta-feira. "É muito doloroso perder alguém e não conseguir se despedir", afirma Sindy.

Integrante da Gaviões da Fiel, Patrícia era fanática pelo Timão e se casou na Arena Corinthians em 2015.

O conforto veio também dos companheiros de arquibancada. "Costumo dizer que os gaviões são uma família. Quando perdemos um, é uma parte de todos que se vai. Queria agradecer a torcida pelo apoio", diz Sindy.

No último mês, passaram a ser frequentes fotos com mensagens de adeus às vítimas da Covid-19 no perfil da Gaviões em rede social. São também pessoas relativamente jovens e moradoras da periferia.

Segundo o diretor do departamento social da torcida, Cleber Sobrinho, 41, a Gaviões recebe ligações e mensagens e retira as doações em domicílio, redistribuindo para a população carente. Desde o início da pandemia, foram arrecadadas mais de mil máscaras descartáveis, entre outros itens.