Coronavírus: 'Não recomendamos o fechamento, mas também não vamos recomendar a abertura', diz secretário do Ministério da Saúde sobre comércio

Leandro Prazeres, Renata Mariz e André de Souza
·4 minuto de leitura
Comércio fechado na Tijuca, zona Norte do Rio.
Comércio fechado na Tijuca, zona Norte do Rio.

O Ministério da Saúde vem tentando se equilibrar quando o assunto é isolamento social e restrições ao comércio e à circulação de pessoas, medidas que vêm sendo usadas em vários locais do país para conter o avanço da epidemia do novo coronavírus, que já matou 77 pessoas no Brasil. A pasta diz, por exemplo, que não recomenda fechar o comércio, mas também não critica os estados e prefeituras que impuseram essa medida. E ainda orienta que, uma vez tomada a medida, a reabertura seja feita com cuidado e planejamento.

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Aconselha ainda que todos, independentemente da idade, evitem ao máximo sair de casa e se encontrar com outras pessoas. Mas não diz claramente se o chamado isolamento vertical seria efetivo ou não no combate ao vírus. A medida, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, isola apenas os grupos de risco, como idosos e pessoas com outras doenças, em casa.

— Nós não recomendamos o fechamento [do comércio]. Também não vamos recomendar a abertura. Isso tem que ser tratado pelas secretarias que tomaram medidas mais radicais — disse o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, que é o número dois da pasta, abaixo apenas do ministro Luiz Henrique Mandetta.

Uma vez fechado o comércio, a orientação do ministério é: reabra apenas de acordo com o planejamento feito, uma vez que não adianta nada suspender a medida apenas alguns dias depois de implantada.

— Quanto mais cedo a reabertura for feita, vai ser melhor para todo mundo. Agora esse melhor para todo mundo tem que manter a lógica de como é que fechou, por que fechou, qual era o plano quando fechou, quanto tempo passou? Fechou na terça-feira, não adianta fechar [abrir] na sexta. Óbvio — disse Gabbardo, concluindo: — Qual é esse tempo? Não temos isso muito claro, não temos isso muito definido. Queremos e podemos participar junto com os estados, junto com os secretários nessa decisão.

Indagado sobre a posição do Ministério da Saúde em relação às declarações de governadores sobre a intenção de manter medidas como quarentena a despeito do pedido feito pelo presidente Jair Bolsonaro, Gabbardo criticou a forma como governos como o de São Paulo têm comunicado essas medidas. Segundo ele, o estado deve assumir a responsabilidade por essas medidas sem atribuí-las a recomendações feitas pelo Ministério da Saúde.

— Se o estado de São Paulo resolver tomar as decisões independente do Ministério da Saúde, vamos recomendar que não digam que estão tomando medidas em acordo com o Ministério da Saúde, porque elas não estão em acordo com o Ministério da Saúde — afirmou Gabbardo.

O Ministério da Saúde vinha recomendando que grupos de risco, como idosos e pessoas com outras doenças, fiquem isoladas em casa; e que os demais evitem ao máximo circular na rua. Em um pronunciamento em rede nacional na terça-feira e em entrevista na quarta, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a volta à normalidade, com a reabertura do comércio e das escolas onde foram fechados. E defendeu o isolamento vertical.

Nesta quinta, perguntado se o isolamento vertical funcionaria, Gabbardo não disse nem sim, nem não. Ele afirmou que os jovens têm menos chance de morrer em razão do novo coronavírus, mas podem transmiti-lo para os mais velhos, e que é preciso evitar essa possibilidade. No "mundo ideal", segundo o número dois do Ministério da Saúde, idosos deveriam manter distanciamento de familiares e amigos.

Questionado se o Ministério da Saúde continua recomendando que todos evitem ao máximo circular nas ruas, Gabbardo disse que sim. Ele destacou que é para evitar encontrar outras pessoas, mas não é necessário deixar de andar no parque ou na rua perto de casa. Segundo ele, uma caminhada será saudável, tanto fisicamente como emocionalmente.

— Os idosos devem permanecer em casa. Os pacientes sintomáticos sim devem permanecer em casa. Os contatantes, familiares dos pacientes sintomáticos também devem ficar em casa. Nós consideramos que, se não é necessário sair para a rua, se não é necessário circular, melhor não circular. Agora, a recomendação é no sentido de que não haja aglomeração. Por exemplo: nós não defendemos a tese de que alguém não possa andar, caminhar no parque. Não é uma recomendação do Ministério da Saúde que as pessoas fiquem impedidas de individualmente andar no parque da cidade. Por que as pessoas vão ficar dois, três meses socadas dentro de um apartamento sem ter a mínima possibilidade de dar uma caminhada? — disse Gabbardo.

Mais cedo, Bolsonaro editou um decreto incluindo as atividades religiosas na lista de setores essenciais durante o estado de calamidade. Segundo o decreto, o funcionamento das igrejas ou comunidades religiosas fica regulado pelas normas editadas pelo Ministério da Saúde. Assim, as atividades religiosas têm assegurado o direito de funcionamento, ainda de que maneira restrita para evitar a disseminação do novo coronavírus.

No último sábado, Gabbardo já havia dito ser contra a realização de cultos e missas, como forma de diminuir o risco de contágio. Por outro lado, disse que elas poderiam ficar abertas caso alguém quisesse ir até lá rezar. Nesta quinta-feira, questionado sobre o decreto, Gabbardo voltou a repetir a orientação.

— Nossa orientação continua a mesma, o ministro já disse isso duas ou três vezes. Nós não recomendamos o fechamento das igrejas, o que nós recomendamos sim é que não se faça aglomeração — disse o secretário-executivo.