Coronavírus: 'Não tenho onde ficar', diz brasileira de 78 anos retida no Marrocos após rei suspender voos

Rodrigo de Souza
Eunice Caldas, de 78 anos, aguarda a ajuda do Itamaraty para retornar ao Brasil.

RIO — Eunice Caldas tem 78 anos e está presa no Marrocos, no Norte da África. A pandemia de Covid-19 levou o rei do país, Maomé VI, a suspender todos os embarques e desembarques dos aeroportos — e deixou a senhora desamparada, em um país a 7 mil quilômetros de distância de sua terra-natal.

— Nossa reserva acaba amanhã ao meio-dia, e o hotel quer fechar. Depois de sairmos daqui, não temos onde ficar — diz a desembargadora aposentada. — A princípio, a embaixada (brasileira em Rabat) disse que embarcaríamos para o Brasil hoje. Mas acabei de receber a notícia de que isso não vai acontecer mais. Estou com a mala feita desde cedo.

Hospedada em um hotel em Marraquexe, quarta maior cidade do país, Eunice está acompanhada de outras sete senhoras com quem desembarcou no Marrocos no dia 7 de março, para uma excursão em grupo. As passagens para o voo de retorno, que aconteceria no dia 22, foram canceladas pela companhia aérea Royal Air Maroc após a ordem do rei. Desde então, a agente turística encarregada do grupo, Andreia Oliveira, está em contato com as autoridades para tentar um voo de volta.

— Tenho problema de pressão alta e sou pré-diabética, preciso de medicamentos. O problema dos medicamentos é que você leva alguns imaginando que vai ficar um determinado tempo. Os meus vão acabar daqui a três dias — conta Eunice. E completa: — O lugar de se medicar é a sua casa, onde você está bem e segura. Uma amiga nossa nos desperta uma preocupação especial porque sofre de uma doença que não me parece leve, e seu remédio só vai até amanhã.

Em Marrocos, segundo a aposentada, o movimento nas ruas foi drasticamente suprimido por determinação do rei. Os restaurantes estão fechados, e o hotel de Eunice não oferece alimentação.

— Já gastei uns 100 euros extras pedindo comida por delivery. A comida está ficando escassa e temos que desembolsar com alimentação. Algumas de nós estão ficando sem dinheiro, estamos fazendo os gastos estritamente necessários — informa Eunice.

Sem perspectiva e aturdidas com a disputa pelas passagens, Eunice e suas amigas, com a assistência da agente Andreia Oliveira, gravaram um vídeo para divulgar a situação do grupo pela internet. Apesar da incerteza, Eunice se diz esperançosa.

— Temos esperança, porque, apesar da nossa idade, somos otimistas. Mas a coisa vai ficando enervante, estamos ficando preocupadas.

'Fui expulsa do hotel'

A história de Eunice ilustra o sofrimento pelo qual cerca de 170 brasileiros retidos no Marrocos têm de enfrentar.

Fernanda Abreu, de 36 anos, passou as férias no país, acompanhada da mãe. Na última segunda-feira, foi surpreendida com a restrição dos transportes internacionais determinado por Maomé VI. Nesta quarta-feira, o rei decretou que todos os estabelecimentos, incluindo hotéis, fossem fechados. O hotel de Fernanda acatou a decisão.

— Tivemos que deixá-lo, ficando à mercê de nossa própria sorte — desabafa a agente de transportes internacionais.

Desamparada, pediu socorro à embaixada do Brasil em Rabat. A resposta não a agradou.

— Enviamos os dados via e-mail, conforme solicitado. Recebemos uma resposta evasiva, disseram que devíamos buscar as companhias aéreas comerciais. Isso me enche de indignação. Sou uma cidadã contribuinte e não julgo que esse tratamento é adequado à gravidade da minha situação, nem a de todos os outros cidadãos brasileiros que se encontram no Marrocos. Países que honram seus filhos os repatriam. Eu gostaria de um melhor atendimento do consulado que representa o Brasil no Marrocos — diz ela. E completa: — Muitos turistas no Marrocos passam o dia inteiro no aeroporto, comendo pouco e mal, deitados no chão sem o mínimo de conforto, ansiosos para voltar para suas famílias.

Fernanda conta que “sua salvação” foi seu guia turístico no Marrocos, Hamid. Ele alugou uma casa para todo o grupo de 12 pessoas do qual Fernanda fazia parte e, depois que os supermercados do país também foram interditados, abasteceu a casa com água e comida por conta própria. Todo dia, conta Fernanda, Hamid levou os turistas brasileiros ao aeroporto para procurar voo.

— Compramos passagens, mas elas foram canceladas pelos países que estão repatriando seu povo — diz ela.

Nesta quarta-feira, com a ajuda de Hamid e da embaixada portuguesa, Fernanda conseguiu embarcar para Lisboa, com mais nove brasileiros.

— Mas ainda temos cerca de 170 brasileiros presos no Marrocos sem assistência, pouco recurso e sem lugar para ficar neste momento. Agora estou voando para Guarulhos com a minha mãe, aliviada por termos conseguido. Mas com o coração na mão pelos 170 que ficaram para trás.

Resposta do Itamaraty

Sobre a situação dos brasileiros retidos no exterior, o Itamaraty informou ao GLOBO, em nota, que "está trabalhando com total prioridade para viabilizar, em coordenação com outros governos e, quando necessário, com as companhias aéreas, o retorno ao Brasil dos viajantes brasileiros que enfrentam dificuldades em países estrangeiros por restrições ligadas ao coronavírus".

As Relações Exteriores também disseram que estão disponíveis para receber demandas de brasileiros que se encontram retidos em outros países. "Ressalta-se que nenhuma Embaixada ou Consulado brasileiros encontra-se fechado. No entanto, por conta das restrições impostas pelas autoridades locais, muitas vezes foi necessário adaptar o regime de trabalho, com horários especiais de atendimento ou teletrabalho. Recomenda-se aos cidadãos brasileiros checar qual o regime de trabalho de cada repartição por meio da página de Embaixadas e Consulados na internet", diz o comunicado.

A pasta não soube informar o número total de cidadãos presos em outros países, "por conta das restrições de circulação determinadas pela pandemia do novo coronavírus".