Coronavírus: número de casos confirmados mais que dobra em dois dias na cidade do Rio

Rafael Galdo
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Fila para vacinação contra influenza, medida para evitar o colapso da saúde em meio à pandemia de coronavírus

O avanço do coronavírus acelerou nos últimos dias na capital. De sábado até ontem, o número de casos confirmados mais que dobrou: saltou de 103 para 214. Se considerado o período desde a terça-feira da semana passada, quando eram 60 pessoas infectadas, o crescimento foi de 256% em uma semana. Além disso, ontem foi registrado o primeiro óbito do município do Rio causado pela Covid-19: uma mulher de 58 anos com problemas cardíacos, pulmonares e renais, que estava internada num hospital particular no Humaitá. A situação atual, segundo médicos, corrobora as medidas restritivas adotadas, reforça a necessidade de cooperação da população e aponta que, se a velocidade da disseminação da doença não for reduzida, ações ainda mais rígidas poderão ser impostas. A capital registra 90% dos 233 casos do Estado do Rio.

Segundo o último boletim da Secretaria municipal de Saúde, até as 19h de ontem eram 36 bairros com confirmações da doença, sendo Barra da Tijuca (35), Leblon (29) e Ipanema (24) os que concentravam mais casos. Eram 24 pacientes internados (13 deles na UTI), a maioria deles na Zona Sul, Barra e adjacências, mais de 40% deles com idades entre 60 e 90 anos. Entre os infectados, havia duas crianças e quatro adolescentes.

 

São aguardados ainda os resultados de exames sobre outros 162 casos suspeitos, que se espalham por uma quantidade maior de bairros: 48 no total, chegando a regiões ainda sem a doença detectada, como Santa Cruz, Maré, Pavuna e áreas do subúrbio da Leopoldina. Só em Copacabana, com sua grande concentração de idosos, eram 16 suspeitas. Apesar disso, por volta do meio-dia de ontem, as ruas internas do bairro pareciam estar livres das recomendações de isolamento social — cenário bem diferente do registrado em Ipanema e Leblon, muito mais vazios.

— Em Copacabana, 30% dos moradores estão acima de 60 anos. Só que muitos idosos vivem sozinhos, com hábito de comer na rua, e alguns deles têm essa dificuldade de aceitar mudanças — opina Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana.

 

Isolamento

Nesse sentido, de acordo com o prefeito Marcelo Crivella, a curva de expansão do coronavírus motivou que, junto com autoridades sanitárias, fosse definido o fechamento obrigatório do comércio da cidade a partir do primeiro minuto de hoje. O decreto deixa de fora estabelecimentos como farmácias, supermercados, padarias, postos de gasolina e bancos. No entanto, afirmou o mandatário, dependendo da evolução dos próximos dias, pode ser determinado que outros setores fechem as portas, como o de serviços e, em seguida, a indústria.

O infectologista Edimilson Migowski, da UFRJ, ressalta que é preciso esperar de três a cinco dias para identificar se essas novas medidas surtirão efeito para desacelerar o avanço da Covid-19:

— De nada adiantarão iniciativas, no entanto, se a população não fizer a parte dela. Essa inclinação da curva de contágio na cidade do Rio é assustadora. Mostra que as determinações são corretas, providenciais e, na minha opinião, indiscutíveis. Mas, se as pessoas não mantiverem a quarentena, pode ser que cheguemos ao ponto de adotar ações mais rígidas para evitar o colapso dos hospitais.

Segundo o especialista, além do limite físico de leitos nas unidades e da quantidade de respiradores para pacientes mais graves, causa angústia a possibilidade de adoecimentos dos profissionais de saúde, assim como a chegada do vírus às áreas mais pobres do Rio:

— Em doenças como a tuberculose, a média no Rio é de no máximo 60 novos casos por cem mil habitantes ao ano. Na Rocinha, essa média chega a 300 e, entre a população carcerária, a três mil. Conforme pioram as condições socioeconômicas, aumenta a incidência dessas doenças. E essa é nossa preocupação quanto ao coronavírus. Até o isolamento social nessas regiões é muito mais comprometido, porque são casas às vezes com poucos cômodos, sem ventilação e úmidas.

Já há uma confirmação da doença na Cidade de Deus e 63 suspeitas em 16 favelas diferentes. Dezenove apenas na própria Cidade de Deus, dez em Rio das Pedras, oito em Manguinhos e sete no Jacarezinho. Para o pesquisador Eduardo Melo, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), se atualmente a maioria dos casos está em bairros de classes média e alta da cidade, a tendência é que o panorama mude nos próximos dias ou semanas.

— Por si só, o vírus é um problema. Quando chega a comunidades de pessoas pobres, com dificuldades de renda, acesso e até deslocamento, é uma combinação fatal. Nesse caso, é fundamental o papel do programa de saúde da família do município. Os agentes e os médicos da atenção básica é que podem identificar as pessoas mais fragilizadas. A questão é que esses serviços sofreram um desmonte nos últimos anos, com redução das equipes e atraso dos salários — afirma Melo, defendendo que os governos criem planos para a distribuição de renda mínima, kits de higiene e cestas básicas nessas áreas.

O temor do pesquisador é parecido com o de Regina Fernandes Flauzino, especialista em Saúde Coletiva e Epidemiologia das Doenças Transmissíveis da UFF. Ela lembra que o setor da saúde básica sofreu baixas, o que pode ter reflexos neste momento de expansão do coronavírus. Esse é só um dos muitos obstáculos, ressalta ela, que a população mais pobre enfrenta.

— Muitos não têm nem água em casa. Numa família com um idoso, por exemplo, pode ser grande a dificuldade para levá-lo a um hospital. A orientação geral é que, em caso de sintomas mais graves, as pessoas se dirijam à unidade de saúde com máscara. Mas, em situações mais extremas, cadê o dinheiro para essa máscara? — questiona ela.