Coronavírus: Na tentativa de conter subnotificações, SP investiga 20 mortes fora da lista oficial

Laboratorio de Técnicas Especiais do Hospital Albert Einstein: instituição tem 45 pacientes internados pelo novo coronavírus

Ao mesmo tempo em que a transmissão do novo coronavírus faz evoluir os números oficiais de mortes no país, autoridades têm se deparado com a dificuldade em manter atualizadas as estatísticas. Em São Paulo, onde pelo menos 20 mortes de pacientes possivelmente vítimas da Covid-19 ainda estão sendo investigadas, há confirmação de cinco diagnósticos da doença obtidos apenas depois do registro das mortes.  O avanço da doença tem aumentado a preocupação com possível subnotificação dos casos.

- Se alguém apresenta síndrome respiratória aguda (SARA) deve ser identificado como suspeito para a Covid-19. Mas isso nem sempre é feito. Tem um delay (demora) e às vezes os hospitais não fazem a notificação. Isso porque eles se preocupam primeiro em tratar os pacientes. Mas estamos trabalhando intensamente para não ter subnotificação - afirma o coordenador de Controle de Doenças do governo paulista, Paulo Menezes.

Para acelerar o processo de identificação das vítimas, o estado de São Paulo, segundo ele, trabalha para reduzir a sobrecarga de exames de diagnóstico no Instituto Adolfo Lutz, onde a fila atualmente é de cerca de 8 mil amostras para análise. Segundo Menezes, as coletas de secreção são feitas em doentes internados e também em pacientes após a morte. Menezes garante que, apesar do processo acelerado da doença, "o estado tem controle da situação". 

- Existe um alarmismo, como se a gente não tivesse o controle da situação. Mas posso afirmar que trabalhamos com transparência no estado, na prefeitura e no SUS. Não posso admitir que digam que escondemos dados e que a subnotificação atrapalhe o nosso planejamento - diz Menezes.

Ainda assim, o debate sobre a subnotificação dos casos de Covid-19 está aberto no país. Não por acaso, há casos de municípios que registraram mortes de pacientes com síndrome respiratória aguda e que até hoje não têm diagnóstico confirmado ou descartado pelo Instituto Adolfo Lutz.

É o caso de Itapevi, município a 39 quilômetros de São Paulo. Há uma semana a prefeitura da cidade aguarda a confirmação do teste de coronavírus de uma empregada doméstica de 60 anos, morta no último dia 19, após ficar internada três dias antes no Pronto Socorro Central do município com insuficiência respiratória aguda.

No atestado de óbito consta o termo "suspeito de covid-19". Pessoas próximas acreditam que a empregada doméstica foi  infectada na casa de seus patrões que são argentinos e que teriam viajado para o exterior recentemente.O caso da doméstica pode ser mais um exemplo nas estatísticas de subnotificação para o coronavírus no país.

Itapevi tem ainda outras duas mortes da doença que aguardam resultados de exames do Instituto Adolfo Lutz. Trata-se de uma mulher de 47 anos que apresentou sintomas em comum com a primeira paciente, como insuficiência respiratória aguda. Ela deu entrada no pronto socorro na tarde do último dia 20, acabou sendo entubada e morreu na madrugada do dia seguinte -  18 horas depois de chegar à unidade.

 A paciente tinha fatores de comorbidade para a doença, como hipertensão e obesidade. Há ainda um terceiro óbito de um homem de 39 anos morador do bairro de Sapopemba, em São Paulo, e que foi encaminhado pelo plano de saúde para hospital particular instalado em Itapevi.

Não há no país uma conta geral sobre os casos eventualmente subnotificados. No entanto, estudo recente do Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido, estima que apenas 11% dos casos da doença foram diagnosticados no Brasil.

No último boletim nesta quarta-feira, o Ministério da Saúde informou 2433 casos confirmados de coronavírus no país, sendo um total de 57 mortes. Na coletiva à imprensa, técnicos do Ministério da Saúde reconheceram que nem todos os casos são registrados em seu sistema.
Ao contrário de Itapevi, a maior parte dos estados e capitais não informam o número de casos  de mortes investigadas. Há exceções, porém. Na segunda-feira, o secretário estadual de Saúde de Minas Gerais, Carlos Eduardo Amaral Ferreira, afirmou que investiga 20 mortes por suspeitas da doença, embora não haja ainda nenhum caso confirmado naquele estado.

Virologista e pesquisador da plataforma científica da Universidade de São Paulo Pasteur-USP Luiz Gustavo Bentim Góes, demonstra preocupação com a subnotificação dos casos.

- A subnotificação é grande, mas não é exclusiva do Brasil. Se você não sabe quem está se infectando e não detecta isso, não é possível quebrar a cadeia de transmissão do vírus na população. Outro problema é que sem os dados corretos, as autoridades não conseguem fazer uma previsão de leitos e insumos para os infectados de quadro crítico e severo. Se não houver equipamentos como respiradores e leitos de UTI bem dimensionados, esses pacientes  acabam indo a óbito - diz Goés. - Foi o que ocorreu na Itália, onde o número de casos aumentou rápido e a estrutura de saúde entrou em colapso.

Para o virologista, o Brasil só poderia evitar esse quadro de subnotificação por meio de testes em massa na população, conforme preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele também cita o exemplo da Coréia do Sul, que tem adotado essa medida e cujos registros de novos casos da doença estão sob controle.

Foi exatamente uma acusação de subnotificação de covid-19 que levou o plano de saúde Prevent Senior a ser investigado pela prefeitura de São Paulo. A família de uma idosa de 63 anos morta num dos hospitais da rede disse que o atestado de óbito traz como causa da morte suspeita de covid-19. No entanto, acusou o plano de saúde de não revelar o resultado mesmo uma semana depois do falecimento. A empresa registrou pelo menos cinco mortes de pacientes com o diagnóstico da doença e nega as acusações.