Coronavírus: o que se sabe sobre os casos sem sintomas, como o da adolescente de SP que foi infectada

Rafael Barifouse - Da BBC News Brasil em São Paulo
Mulher usando máscara no aeroporto de Congonhas

O Ministério da Saúde informou nesta quinta-feira (5/3) que uma adolescente de 13 anos de São Paulo está entre os oito casos confirmados de infecção pelo Sars-Cov-2 no Brasil. O que diferencia essa paciente dos outros até agora é o fato de ela ter sido diagnosticada sem apresentar sintomas da Covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus.

A adolescente voltou da Europa no domingo. Ela passou por Portugal e pela Itália — o país do continente onde a epidemia é mais grave e no qual ela fez uma cirurgia, após sofrer uma lesão de ligamento enquanto viajava.

A adolescente procurou na segunda-feira o Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para fazer exames para o novo coronavírus porque havia estado no norte da Itália, onde estão sendo registrados diversos casos, segundo o Ministério da Saúde. O resultado positivo foi depois confirmado em uma contraprova feita no Instituto Adolfo Lutz.

A princípio, a paciente não foi contabilizada pelo Ministério da Saúde como um caso confirmado por não apresentar sintomas da doença. Mas a pasta voltou atrás na decisão após se reunir com especialistas.

A decisão se baseou em quatro critérios: os resultados positivos dos exames; ter estado em um local provável de infecção; a possibilidade de a adolescente ter usado medicamentos após a cirurgia que contiveram os sintomas; e o fato de que o vírus poderia estar no estágio de incubação e ainda poder causar sintomas.

Mas o que se sabe até agora sobre casos assintomáticos como este? Entenda a seguir.

O novo coronavírus sempre provoca sintomas?

Nem sempre.

Até o momento, foi observado que uma proporção substancial de crianças e adolescentes infectados não chegam a apresentar sintomas. Esses casos chegam a ser 25% do total nestas faixas etárias, de acordo com o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira.

"Ainda não se sabe porque isso ocorre, é apenas uma constatação com base nas evidências epidemiológicas", diz Kleber Luz, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Porém, não ter sinais da doença no momento do diagnóstico não significa que os sintomas não aparecerão em algum momento.

Após uma infecção, um vírus passa por um período de incubação no organismo, ou seja, há um período entre o contágio e o surgimento dos primeiros sintomas.

Esse tempo pode ser de até 14 dias, no caso do novo coronavírus, mas, de acordo com diversos estudos, a média é de 5 dias.

No entanto, de acordo com o mais amplo estudo já feito até agora sobre o vírus, realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, 80% dos pacientes terão apenas sintomas leves.

"Em um grupo de pessoas expostas a um vírus, não vai acontecer nada com algumas, outras vão ser infectadas sem adoecer, outras vão ter sintomas leves e outras vão ter uma doença grave. Isso depende das características genéticas de uma pessoa, sua idade, se ela tem outras doenças, entre outros fatores", diz Luz.

Quão frequentes são os casos assintomáticos?

Não é possível saber no momento.

A pesquisa feita pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China com base em 72.314 casos notificados até 11 de fevereiro apontou que 889 (1,2%) eram assintomáticos.

No entanto, esse estudo foi feito apenas entre aqueles que foram consideradas sob risco de contágio, como parentes e pessoas que tiveram contato próximo com pacientes infectados, diz Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Imagem do coronavírus

"É difícil calcular esse índice, porque isso depende de uma investigação científica mais ampla. Não é algo rotineiro na vigilância sanitária testar pessoas que não apresentam sintomas", afirma Spilki.

O especialista explica que, entre as vírus que já circulam entre humanos, o número de casos assintomáticos é frequentemente muito maior do que os que apresentam sintomas.

"Com dengue e zika, por exemplo, entre 20% e 30% dos indivíduos infectados apresentam sintomas — o restante tem uma imunidade pregressa ou seu sistema imunológico consegue dar conta do vírus por conta própria e não acontece nada", afirma Spilki.

Uma pessoa sem sintomas pode transmitir o novo coronavírus?

Há evidências científicas de que sim.

Um estudo feito por cientistas chineses e publicado em 21 de fevereiro mostrou que uma mulher de 20 anos de Wuhan, na China, não estava doente quando transmitiu o novo coronavírus para cinco familiares.

"Estudos feitos sobre as cadeias de transmissão nos Estados Unidos e na Alemanha, onde houve pequenos surtos sem haver um caso sintomático prévio, identificaram que o vírus havia se espalhado a partir de casos assintomáticos", diz Spilki.

O Sars-Cov-2 é transmitido por meio de "gotículas respiratórias", quando uma pessoa infectada fala, tosse ou espirra, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Essas gotículas se espalham pelo ar e podem chegar à boca ou ao nariz de outra pessoa, ou ficar depositadas em superfícies próximas, onde podem sobreviver por um período, embora não se saiba precisamente quanto tempo. Uma pessoa pode ser infectada ao tocar nessa superfície contaminada e depois em sua boca, nariz ou olhos.

No caso da adolescente de São Paulo, o Ministério da Saúde informou que ela apresenta uma carga viral muito baixa e não representa um risco de transmissão — por isso, não está em isolamento domiciliar.

O que isso significa para a epidemia?

Fernando Spilki diz que casos assintomáticos representam uma boa e uma má noticia sobre este vírus.

"O lado bom é que está ocorrendo o que vínhamos dizendo que era esperado. Diferentemente do que o público tende a pensar, não basta ter a infecção para alguém ficar doente. É preciso ter outras caracteríscas, como a idade ou ter outra doença associada, por exemplo", afirma.

Mas esse tipo de caso representa um desafio para a contenção do Sars-Cov-2, porque ele tende a não ser identificado pela rede de saúde pública e privada.

"Os mecanismos de contenção estão baseados na detecção de indivíduos que tenham uma doença aparente, mas, diante de um contigente de pacientes assintomáticos, a tendência é o vírus se espalhar mais."

Por sua vez, Kleber Luz afirma que, do ponto de vista epidemiológico, os casos assintomáticos "tem pouco valor".

"A transmissão da doença ocorre de forma mais intensa a partir de pacientes com sintomas, em que a contagem de partículas virais é alta. Entre os assintomáticos, essa contagem é baixa, o que significa que seu potencial de contaminar outras pessoas é pequeno", afirma o infectologista.

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