Coronavírus: Os desafios do isolamento do Rio

Carolina Callegari, Ludmilla de Lima, Rafael Galdo, Thaís Sousa e Vera Araújo
Diminuição da circulação de pessoas afeta trabalhadores informais, que, segundo o IBGE, são 6,5 milhões no estado. População na extrema pobreza (652 mil pessoas) também preocupa

RIO - Além de fiscalizar as medidas de restrição que isolam o Rio — a circulação do BRT Transoeste, por exemplo, foi suspensa nos fins de semana —, a próxima etapa do combate ao avanço do coronavírus no estado será dar suporte à população mais pobre e a trabalhadores informais. O estado tem, segundo o IBGE, 652 mil pessoas — ou 3,7% de seus habitantes — em situação de extrema pobreza, além de 6,5 milhões (37,5%) com empregos informais. A expectativa é que sejam fortemente impactadas pelas regras que fecharam praias e equipamentos turísticos.

Nesta sexta-feira, as ruas da capital ficaram mais vazias. A queda na circulação de pessoas terá consequências econômicas que ainda não foram avaliadas. O governo estadual planeja distribuir 2 milhões de cestas básicas, como antecipou a colunista do GLOBO Bela Megale em seu blog, mas ainda tenta viabilizar uma logística que não aumente os riscos de contágio.

Entidades religiosas poderão ser utilizadas para fazer a distribuição das cestas, e restaurantes populares deverão oferecer quentinhas para idosos. Um dos critérios para a entrega dos alimentos será o cadastramento em algum programa social municipal, estadual ou federal. Ainda não se sabe como contemplar ambulantes e moradores de rua — com prioridade para gestantes — que não têm esse tipo de registro.

Na véspera de entrar em vigor o decreto estadual que proíbe a visitação a todas as praias do Rio, o movimento na orla da Zona Sul, nesta sexta, oscilava entre praias quase desertas, como a do Leblon, e trechos com dezenas de banhistas, como no Arpoador, em Ipanema e em Copacabana. No Leme, porém, não havia uma única barraca ou guarda-sol. Ali, por volta do meio-dia, era possível contar quantas pessoas estavam na areia ou no mar: 21. Apesar disso, Robson Ximenes mantinha seu quiosque aberto, calçadão. Ele disse que planeja fechá-lo neste sábado.

— Nos últimos dias, os únicos clientes eram turistas. Alguns não conseguiram ir embora do Rio. A ocupação dos hotéis está baixíssima. E o carioca parece que entendeu a necessidade da quarentena — disse Ximenes, acrescentando não saber como vai pagar suas contas.

Alguns turistas também marcaram presença no Mirante do Leblon. Pela manhã, um grupo utilizava máscaras enquanto fotografava a paisagem. À tarde, ainda era grande o número de pessoas que faziam exercícios na orla do bairro.

Casos chegam a 109

Nesta sexta, o Estado do Rio já contabilizava 109 casos da Convid-19, sendo 91 na capital (o número de mortos seguia o mesmo, dois). Neste sábado e domingo, por determinação da prefeitura do Rio, o BRT Transoeste não vai circular. Na segunda-feira, o serviço será retomado, mas parcialmente. O transporte de trens é outro afetado: a partir deste sábado, oito estações da SuperVia na Baixada Fluminense estarão fechadas — Olinda e Presidente Juscelino, do ramal de Japeri; Coelho da Rocha, Agostinho Porto e Vila Rosali, do ramal de Belford Roxo; e Campos Elísios, Corte Oito e Jardim Primavera, do ramal de Saracuruna.

As ligações pela Baía de Guanabara também foram atingidas, com as linhas Praça Quinze-Cocotá e Praça Quinze-Charitas suspensas pela CCR Barcas. E haverá controle de embarque na estação da Praça Arariboia, em Niterói, cujo acesso ficará restrito a profissionais dos setores considerados essenciais (assim como em 14 estações ferroviárias). A princípio, a fiscalização será feita por meio da carteira de trabalho e do crachá.

O Metrô Rio vai passar a controlar o embarque nas estações Pavuna, Rubens Paiva e Acari — as três da linha 2 —, limitando também o acesso a setores considerados essenciais. Em relação ao transporte por aplicativos, Witzel determinou sua suspensão entre a cidade do Rio e a Região Metropolitana, num decreto que endurece o isolamento a partir deste sábado. Vans e carros que fazem lotada serão impedidos de seguir viagem em bloqueios, e as rodovias contarão com equipes da PM, numa operação conjunta com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro) para dificultar ainda mais a chegada e a saída da capital.

Para quem não acredita no cumprimento do decreto estadual, fica o alerta: foi anunciado pelo governo que integrantes de forças de segurança poderão fotografar e filmar quem desrespeitar as regras. As provas serão enviadas ao Ministério Público, com o objetivo que o órgão instaure procedimento contra os infratores.