Coronavírus: por que a Alemanha poderia ser primeiro país da Europa a achatar a curva?

Jessica Bateman, The Independent

RIO —As ruas da hedonista cidade de Berlim estão assustadoramente vazias. À medida que a noite se aproxima, bares e restaurantes são fechados, e os bairros ficam desertos. Até os traficantes de drogas, ainda rondando o famoso parque Görlitzer, usam luvas descartáveis.

Diferentemente do Reino Unido, Itália, França e Espanha, a Alemanha desistiu de pedir um isolamento nacional, optando por medidas estritas de distanciamento social, incluindo a proibição de reuniões de mais de duas pessoas. Somente na região da Bavaria, onde os primeiros casos foram detectados em janeiro, o governo alemão anunciou uma quarentena total.

Até agora, a Alemanha evitou os níveis catastróficos de infecção que devastaram a Espanha e a Itália: na quarta-feira, 181 pessoas haviam morrido de Covid-19 com 35.714 casos confirmados.

Em comparação, mais de 6.800 pessoas morreram na Itália e mais de 3.400 na Espanha. Os casos passam de 69 mil e 47 mil, respectivamente.

A baixa taxa de mortalidade da Alemanha intrigou os especialistas. Existe uma teoria que diz que pode ser devido à propagação da doença entre uma faixa etária mais jovem. De acordo com o Robert Koch Institute (RKI), a principal agência de controle de doenças da Alemanha, a idade média das pessoas que testaram positivo para coronavírus é de 47 anos. Na Itália, onde a taxa de mortalidade é de 9%, a idade média dos pacientes é de 63 anos.

Especialistas acreditam que os principais surtos da Alemanha surgiram em virtude das celebrações de carnaval e de jovens retornando da Itália e da Áustria. Os cidadãos idosos também têm menor probabilidade de viver com membros da família mais jovens do que os do sul da Europa.

A Alemanha também analisou a crise em desenvolvimento em outros países e garantiu que seu sistema de saúde estivesse pronto.

"Estamos em alerta desde janeiro, quando os primeiros casos foram detectados. Tivemos tempo para nos preparar", diz a professora Marilyn Addo, chefe de doenças infecciosas do University Medical Center Hamburg-Eppendorf. Ela acrescenta que a Alemanha aprendeu com outros países, e está estocando kits de teste e respiradores. O alto nível de preparação significa que a Alemanha ainda tem capacidade para receber vários pacientes italianos gravemente doentes - seis chegaram ao aeroporto de Leipzig, no estado oriental da Saxônia, na manhã de terça-feira.

O país também possui um dos sistemas de saúde pública mais robustos do mundo, gastando US$ 5.182 per capita em assistência médica, em comparação com os US$ 3.377 do Reino Unido. No entanto, há preocupações de que a Alemanha ainda não consiga lidar com um surto do tamanho da Itália.

"Acho que nos preparamos da melhor maneira possível", diz Addo. "Em nosso hospital, temos sete pacientes com Covid-19 em terapia intensiva e temos espaço suficiente na enfermaria para muitos outros”.

"Todo mundo está prendendo a respiração agora e vendo o que vai acontecer a seguir", conclui ela, acrescentando que, se as internações subirem para 20 por dia ou mais em seu hospital, eles poderão "começar a ter que lutar”.

Especialistas também sugeriram que os altos níveis de testagem da Alemanha significam casos mais leves que não são detectados em outros lugares. A associação de médicos alemães estima que mais de 200 mil testes de coronavírus tenham sido realizados nas últimas semanas. Em contraste, apenas 64 mil pessoas haviam sido testadas na Grã-Bretanha até 18 de março.

"A RKI recomendou testes amplos muito cedo, a fim de detectar casos o mais rápido possível e diminuir a propagação", diz o porta-voz Marieke Degen. "É provavelmente por isso que começamos a ver casos muito cedo, bem como casos leves, que, em outras circunstâncias, poderiam ter sido perdidos”.

De acordo com a Associação Nacional de Médicos Estatutários de Seguro de Saúde, a Alemanha tem capacidade para cerca de 12 mil testes de Covid-19 por dia. No entanto, Addo diz que obter acesso aos exames ainda é um problema em muitos lugares e pode piorar se as taxas de infecção aumentarem. "Precisamos de mais unidades móveis de teste", explica ela, acrescentando que as pessoas estão inundando as salas de emergência.

Christian Drosten, virologista do hospital de Charité, em Berlim, que é assessora o Ministério da Saúde da Alemanha, disse ao jornal Die Zeit que a taxa de mortalidade provavelmente aumentará se os testes não atenderem à demanda e a doença se espalhar entre a população idosa. "Parece que o vírus se tornou mais perigoso, mas isso será um artefato estatístico, uma distorção", explicou ele.

Em Berlim, os moradores dizem que estão tendo problemas para acessar os testes, mesmo depois de entrar em contato reportando sintomas conhecidos. Johannes Koch, que mora no distrito de Neukölln, disse ao The Independent que ainda está esperando uma resposta das autoridades de Berlim depois de participar de uma festa com casos da Covid-19, há duas semanas.

Foi divulgado um comunicado pedindo que qualquer pessoa que tenha visitado a boate Kater Blau entre as 4h e as 21h do dia 7 de março entre em contato depois que uma pessoa testou positivo para a doença. "Eu só fiquei lá por uma hora até as cinco da manhã, mas achei que ainda deveria entrar em contato com eles", diz Koch, que afirma ter enviado vários e-mails sem resposta. "Toda vez que eu tentava ligar para a linha estava ocupado.”

Koch acabou tendo um resultado negativo para a doença depois de visitar uma clínica nos arredores de Berlim, mas diz que os amigos com quem ele compareceu à festa ainda não tiveram uma resposta.

Os profissionais médicos alertam que é muito cedo para dizer como as taxas de infecção e mortalidade podem mudar nas próximas semanas. "É muito importante lembrar que, na Alemanha, estamos no início da epidemia", diz Degen. "Estamos vendo mais e mais mortes e não sabemos como tudo se desenvolverá.