Coronavírus: por que número de casos quase dobrou em uma semana em Blumenau?

Rafael Barifouse - Da BBC News Brasil em São Paulo
Desde o dia 13 de abril, Blumenau começou a afrouxar as medidas de isolamento social

A chef de cozinha Aderlani Furlanetto, de 43 anos, diz que sempre foi a favor das medidas de isolamento social adotadas em Santa Catarina, mas que muita gente não compartilhava da mesma opinião em Blumenau, onde mora.

"Havia muita pressão dos comerciantes, das empresas, das indústrias e de pessoas que queriam trabalhar. Logo no início do isolamento, teve muitas demissões, e todo mundo estava com medo de perder o emprego, do impacto sobre a economia", diz Aderlani.

Ela acredita que este foi um dos principais fatores que levou o governo estadual a afrouxar as medidas que estavam em vigor desde 18 de março para conter a propagação do coronavírus.

Primeiro, foi liberado o funcionamento de hotéis, pousadas, restaurantes, cafés, bares, lanchonetes e lojas de rua, em 13 de abril. Depois, foi a vez de shoppings centers, academias e restaurantes, no dia 22.

"Quando eu vi isso, eu pensei: 'Agora, vai todo mundo se contaminar', porque todo mundo vai voltar pra rua", diz Aderlani.

Duas semanas depois, os dados da epidemia em Blumenau, a segunda cidade com o maior número de casos de Santa Catarina, mostram que seu receio não era infundado.

Desde a reabertura do comércio na cidade, o total de casos confirmados deu um salto de 174%. O aumento mais expressivo se deu na última semana, entre 23 e 29 de abril, quando esse número passou de 100 para os 195 atuais, um crescimento de 95%.

Explosão de casos após reabertura do comércio 'não é coincidência'

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que essa disparada está diretamente ligada à reabertura do comércio.

O epidemiologista Lúcio Botelho, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vem acompanhando a evolução da epidemia no Estado e diz que houve, nos últimos dias, um aumento muito grande em alguns municípios catarinenses, Blumenau entre eles.

De 20 de março, quando foram confirmados os primeiros dois casos na cidade, até 24 de abril, a curva de contágio local vinha se elevando gradualmente, com um acréscimo diário de novos casos na casa de um dígito.

Mas, em 25 de abril, foram confirmados, de uma só vez, 25 casos em Blumenau, um aumento de 23,8% em relação ao dia anterior. Em 26 de abril, houve um salto ainda maior, de 28,5%, quando o total passou para 167.

No dia seguinte, houve apenas mais um novo caso. Mas, em 28 de abril, foram confirmados 26 novos casos, um aumento de 15,5%.

"Sem dúvida, isso está relacionado à diminuição do isolamento social", diz Botelho.

Disparada de casos em Blumenau. Total aumentou 95% na última semana. .

A disparada teve início 12 dias após o comércio começar a reabrir na cidade. Para o virologista Aguinaldo Pinto, isso "não é uma coincidência", porque os sintomas da covid-19 surgem, em média, até 14 dias depois da infecção.

"Como caiu o distanciamento social, as pessoas estão se aproximando mais, e isso permite que elas transmitam mais o vírus", diz Pinto, que é professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC.

"Esse período de 12 dias até o surgimento desses números mais expressivos é um dado importante, porque está dentro do esperado do tempo entre uma pessoa se infectar e começar a ter sintomas mais graves."

A Secretaria de Saúde de Santa Catarina disse em nota enviada à BBC News Brasil que "ainda é cedo para uma análise dos impactos da retomada do comércio e outros setores" da economia.

A Secretaria Municipal de Saúde de Blumenau não respondeu ao pedido de entrevista feito pela BBC News Brasil até a publicação desta reportagem.

Governo aponta aumento da testagem elevou total de casos

O governo estadual afirma que o aumento do número de testes de covid-19 feitos no Estado levou ao aumento do número de casos confirmados.

Botelho concorda que a maior testagem influenciou neste aumento, mas o epidemiologista destaca que não é possível saber exatamente qual é o impacto que isso teve no crescimento súbito do número de casos em Blumenau, porque o governo estadual não informa quantos testes são feitos em cada cidade catarinense.

Além disso, os dados oficiais disponíveis apontam que o aumento proporcional do total de casos no Estado — e em Blumenau — foi maior do que o de testes realizados.

Cidade é a segunda do Estado com maior número de casos

Entre 14 e 28 de abril, os exames para covid-19 feitos em Santa Catarina somados passaram de 5.231 para 11.459, um crescimento de 119%. No mesmo período, o total de casos confirmados no Estado subiu 133%. Em Blumenau, esse aumento foi ainda maior, de 155%.

O governo catarinense avalia ainda que "a retomada gradual de atividades está sendo feita de forma responsável e calculada".

O governo estabeleceu normas para a reabertura dos estabelecimentos, como limitar a lotação dos hotéis, lojas e shoppings em 50% da capacidade, e tornou obrigatório o uso de máscaras nesses locais e a oferta de álcool 70% para os clientes.

A fiscalização fica a cargo da vigilância sanitária e equipes da segurança pública.

Reabertura de shopping causou aglomeração

Mas nem sempre estas regras são cumpridas à risca, como ficou claro na reabertura do shopping Neumarkt, em Blumenau.

No último dia 22, após mais de um mês fechado, o centro comercial recebeu os clientes com um músico que tocava saxofone e gerou aglomerações.

Isso violou as regras do governo, que exigem um distanciamento mínimo de 1,5 metro entre as pessoas que circulam no local e proíbem eventos que podem atrair muita gente, como apresentações musicais.

Em nota, o shopping disse que cumpriu as determinações do poder público e que o movimento naquele dia ficou dentro dos padrões estabelecidos.

Reabertura de shopping em Blumenau gerou aglomeração

No entanto, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina concluiu que o Neumarkt violou as normas do governo, em uma ação movida pela Defensoria Pública do Estado. A decisão prevê que o shopping pode ser multado em até R$ 500 mil se voltar a descumprir as regras.

O defensor público Jorge Calil diz que a ação tinha um propósito educativo. "Nossa preocupação é que as pessoas percam a consciência da importância do isolamento social. A gente vê agora um aumento muito grande do número de casos na cidade, e o governo diz que foi por causa do aumento do número de testes, mas não mostra os dados", diz Calil.

Kelvin Akira, de 25 anos, esteve no Neumarkt dois dias depois da reabertura para comprar um mouse, depois que o seu quebrou. Ele trabalha com técnico de TI e explica que precisava fazer isso para continuar a trabalhar de casa.

"O shopping estava bem vazio. Eu fui barrado na entrada, porque estava sem máscara, e tive que comprar numa farmácia ali perto para poder entrar. Mas vi que lá dentro muita gente tirava a máscara ou ficava com ela pendurada no pescoço", conta Kelvin.

Ele diz que é contra a imposição de medidas de distanciamento social pelo governo e defende que os empresários tenham o direito de escolher se vão abrir ou não os seus negócios, e o público, de sair ou não às ruas.

"As pessoas têm que ser livres para fazer o que acham melhor e arcar com as consequências disso. Se aumentou o número de casos agora, acho que provavelmente têm ligação com essa reabertura do comércio, e as pessoas deveriam ter mais consciência e sair menos de casa", afirma Kelvin.

Menor adesão ao isolamento social

O epidemiologista Lúcio Botelho acredita que outro fator pode ter influenciado o aumento do número de casos: a defesa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que é preciso afrouxar as medidas de isolamento para reduzir os impactos sobre a economia.

Bolsonaro teve um grande apoio da população da cidade nas eleições de 2018, quando recebeu ali 71,59% dos votos no primeiro turno e 83,95% no segundo turno.

"Quando ele fala que o vírus não é nada e que as pessoas não precisam se isolar, obviamente muitas pessoas vão seguir isso", afirma o epidemiologista.

Para conscientizar a população, Prefeitura de Blumenau colocou máscaras em monumentos

De fato, a média da adesão ao isolamento social em Blumenau vem caindo constantemente no último mês, segundo dados da empresa In Loco, que criou um índice baseado nos dados de geolocalização de celulares.

Na primeira semana de vigência do decreto de isolamento em Santa Catarina, o índice foi de 57,1% na cidade e atingiu seu pico, de 59,7%, na semana seguinte.

Uma semana depois, caiu para 50,9%. Foi de 47,1% e 46,4% nas duas semanas seguintes e chegou ao seu menor patamar na última semana, quando atingiu 42%.

Esses índices se refletem na experiência da chef de cozinha Aderlani. "No começo todo mundo ficou em casa, mas, com o passar do tempo, isso deixou de ser seguido. Mesmo com o comércio fechado, a gente via muita gente na rua caminhando e o mercado cheio de gente", diz ela.

Aderlani conta que a população também não tem respeitado o decreto da Prefeitura que tornou obrigatório o uso de máscara na rua a partir do último dia 20. "Você sai na rua e vê muita gente sem ou com a máscara abaixada, com o nariz para fora", diz Aderlani.

Para Botelho, o caso da cidade é preocupante e tem que ser acompanhado de perto. "Provavelmente, vai ter que ocorrer ali o mesmo que em vários outros lugares do Brasil: voltar à quarentena e de maneira ainda mais intensa."

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