Coronavírus: de Bolsonaro a Merkel, como os brasileiros avaliam nas redes as respostas dos líderes à pandemia

Letícia Mori - Da BBC News Brasil em São Paulo
Enquanto os líderes Macron, da França, e Merkel, da Alemanha, tiveram suas respostas à pandemia elogiadas, Trump gerou polarização

Enquanto as respostas de líderes europeus como Emmanuel Macron e Angela Merkel à pandemia do novo coronavírus têm sido altamente elogiadas por brasileiros nas redes sociais, as atitudes tomadas por Donald Trump e Jair Bolsonaro têm gerado polarização, com grupos se dividindo entre elogios e fortes críticas.

É o que aponta um monitoramento de mais de 142 mil postagens no Twitter desde sexta-feira (13/03) sobre como as autoridades no mundo têm lidado com a pandemia.

A análise foi feita pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo Marco Aurelio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da FGV, o coronavírus tem sido um tema forte das redes há algumas semanas, mas passou a dominar definitivamente o debate público na semana passada, depois das notícias do quão grave está a crise pelo mundo.

"Foi uma sucessão de notícias que fez as pessoas se atentarem de vez para a gravidade do problema", diz Ruediger.

"Afetou também a ação dos governadores, que começaram a tomar a iniciativa de combate, e as notícias de que pessoas na comitiva presidencial estavam com coronavírus, o que colocou em dúvida a narrativa de que a epidemia não era tudo isso e ampliou o debate", afirma.

Ruediger também explica que o número de memes e piadas diminuiu muito, com uma ampliação na divulgação de formas de prevenção e discussões sérias sobre respostas das autoridades à crise.

Trump

O estudo detectou que o presidente americano é o político estrangeiro com mais impacto na internet brasileira, com mais de 99 mil menções desde o dia 13.

Segundo a FGV, Trump tem gerado uma forte polarização no país, com dois grupos principais orientando a discussão.

No Brasil, os críticos da postura do presidente americano diante da pandemia do coronavírus são maioria na rede social — e também produzem mais conteúdo, diz a análise.

Entre as principais críticas estão a postura reticente do americano em relação a vacinas ao longo dos anos: embora não seja abertamente contrário, Trump já questionou o calendário de vacinação, por exemplo.

Além disso, críticos citam falas do americano percebidas como uma minimização dos efeitos do coronavírus, os alto custos de exames e tratamentos no país e a falta de um sistema de saúde público nos EUA.

Do outro lado da polarização, há um grupo que apoia o presidente americano, elogiando a parceria ideológica entre Bolsonaro e Trump e o encontro entre os dois líderes nos EUA — Bolsonaro esteve em viagem oficial à Flórida neste mês e, após a viagem, diversos integrantes da comitiva tiveram diagnóstico positivo para o coronavírus.

Segundo a FGV, grupo que elogia Trump é o mesmo grupo que apoia o presidente Bolsonaro no Brasil.

Bolsonaro

Bolsonaro também gera enorme polarização na rede, tendo sido mencionado milhões de vezes no Brasil em associação ao coronavírus. Grupos que o apoiam elogiam, entre outros, o fato de o presidente ter aparecido nos protestos do dia 15 de março, alguns dias depois de desestimular os protestos publicamente e do Ministro da Saúde ter dito que aglomerações não são aconselhadas.

Os grupos que o criticam e questionam suas ações, no entanto, são majoritários no Twitter e em geral estão ao centro e à esquerda no espectro político, segundo a análise.

Segundo Ruediger, da FGV, no entanto, "os defensores incondicionais do presidente têm ficado cada vez mais isolados."

"Há um crescente isolamento do bolsonarismo mais raiz, mais acirrado", diz Ruediger. "As pessoas estão menos preocupadas com a questão ideológica e mais preocupadas com a própria sobrevivência."

Por isso, afirma, "a estrutura de polarização tem se desmanchado um pouco".

"A esquerda continua crítica ao presidente. Mas agora segmentos grandes de centro e até de direita têm sido críticos da sua postura."

"Principalmente o negacionismo (quanto à gravidade da situação) tem assustado uma parte da direita e do centro", afirma.

As críticas têm sido focadas na postura do presidente, e não na administração como um todo, diz a FGV.

Segundo Ruediger, a atuação do ministro da Saúde e da estrutura da administração pública de saúde são os pontos que atenuam as críticas sendo feitas no momento ao governo Bolsonaro.

"Essa resposta da estrutura estatal aumentou a percepção das pessoas nas redes sobre que o Estado tem importância para estruturar soluções coletivas neste tipo de situação", diz ele.

Merkel e Macron

Enquanto Trump e Bolsonaro polarizam a discussão, a resposta de líderes de países como França e Alemanha à pandemia é vista de forma majoritariamente positiva, de acordo com as postagens analisadas.

O presidente da França, Emmanuel Macron, tem centralizado os elogios. Seu pronunciamento na segunda-feira recebeu muitos comentários positivos: foram mais de 17 mil citações elogiosas.

No discurso o presidente anunciou quarentena nacional, suspensão da cobrança de débitos, aluguéis, contas e ajuda financeira para os cidadãos do país.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também tem sido vista de maneira muito positiva por brasileiros no Twitter. Em mais 14 mil menções à líder alemã, destacam-se "mensagens positivas sobre o baixo número de fatalidades na Alemanha, sobre a posição de liderança de Merkel e dos alemães para a atenuação do surto na Europa e sobre a posição 'firme' da estadista ao evitar mensagens xenofóbicas ou que descartem a importância do vírus", diz a análise da FGV.

Pronunciamento de Macron na televisão francesa foi visto como positivo pelos brasileiros na internet

Quando Merkel anunciou a possibilidade de que dois terços dos alemãos sejam infectados, houve um pico no debate positivo sobre a líder alemã — brasileiros elogiaram o que foi percebido como realismo e honestidade diante da crise.

Já o líder italiano, o primeiro-ministro Giuseppe Conte, foi muito pouco lembrado pelos brasileiros, apesar da Itália ser hoje o principal foco da doença no mundo. Conte teve apenas 600 menções.

Fora da Europa, a resposta das autoridades argentinas foi a mais lembrada, com 21 mil menções, e também foi vista como positiva. Houve "volume amplo de elogios às iniciativas drásticas tomadas pelo governo local para coibir a movimentação de pessoas e constantes comparativos com o presidente Bolsonaro, inclusive por perfis da imprensa brasileira", diz a análise da FGV.

Outros líderes de governo, como o chinês Xi Jinping e o canadense Justin Trudeau — que está em quarentena após sua esposa ter sido diagnosticada com covid-19 — foram menos lembrados.

Poucos robôs

Segundo Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da FGV, diferentemente do período eleitoral, as discussões sobre coronavírus não têm sido dominadas por robôs.

"A gente tem visto pouco robô. Isso não que dizer que não tenha, mas a gente percebe que as conversas são mais orgânicas", diz Ruediger.

Ele explica que robôs têm padrões muito observáveis, como a velocidade de reprodução de notícias, perfis claramente são falsos, operando em quantidade, ao mesmo tempo, divulgando a mesma coisa.

Mais sobre o coronavírus
Banner

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=hxZpWYwNo5M

https://www.youtube.com/watch?v=i1fmJbOhFc4

https://www.youtube.com/watch?v=Ya59JcvPVZo