Coronavírus: praias têm menos banhistas, mas pandemia é ignorada por muitos

Gustavo Goulart
Praia de Ipanema, na altura do posto 6, neste domingo mais vazia do que o comum

Aos 82 anos, a musicista Irene Mutonen não deu bola para as orientações da filha nem do governador Wilson Witzel para que a população evitasse as praias e foi dar um mergulho na Praia de Ipanema na manhã deste domingo de sol, o último do verão 2020. Cercada de cuidados, com um pequeno frasco de álcool gel e papéis toalha na bolsa, Irene deixou seu apartamento no bairro e foi até a orla, assim como tantos outros. Barraqueiros e banhistas calcularam uma quantidade de pessoas menor do que num domingo habitual. Mas quem foi não estava muito preocupado com a transmissão do coronavírus.

— Minha filha me ligou cedo orientando que ficasse em casa e evitasse as ruas e a praia. Eu disse a ela que ficar em casa causa depressão, que confinamento não era uma boa ideia. Mas estou tomando cuidados. Por causa de todas essas orientações, dei apenas um mergulho no mar e já estou indo embora. Carrego na bolsa um frasco com álcool gel e papéis para abrir a porta do elevador do meu prédio — relatou Irene, aposentada que participou da banda da cantora Bibi Ferreira.

Roberto da Silva, de 40 anos, dono da Barraca do Beto, no Arpoador, calculou que metade das pessoas que habitualmente vão à praia no domingo estavam lá, por volta das 11h.

— O movimento está bem menor. A esta hora no domingo normal já tinha alugado as 30 barracas que tenho. Até agora só aluguei 15. E das 60 cadeiras, só 35 estão sendo usadas — calculou Roberto medindo a temperatura do efeito da circulação do vírus.

A vendedora Sheily Rodrigues Paiva, de 37 anos, curtiu a Praia do Arpoador ontem com os dois filhos, um menino de 14 anos e uma menina de 10. Dizendo que estava ao ar livre com os filhos e amigos, ela criticou a decisão da rede de ensino de suspender as aulas:

— De que adianta suspender as aulas e manter as crianças dentro de casa confinados se os pais precisam sair para trabalhar e entrar em veículos de transporte coletivo lotados de pessoas? Moro em Copacabana e utilizo o metrô para ir trabalhar e costumo voltar de ônibus. De certa forma a gente acaba ficando vulnerável podendo até transmitir vírus para nossas crianças dentro de casa na volta do trabalho — disse Sheily.

Os amigos gaúchos Gilberto Iroppo, de 68 anos, e Gustavo Dill, de 39 anos, foram até Ipanema na manhã deste domingo com o amigo inglês John Roadnigh, de 70 anos. Eles estão a passeio no Rio e disseram que não vão seguir as orientações para não sair às ruas. John, que é advogado, já deveria ter viajado de volta, mas disse estar evitando o retorno para a Inglaterra por causa do coronavírus.

— A situação é de muito pânico na Europa. É melhor esperar acalmar para então voltar — comentou.

Por sua vez, Gilberto disse que não vê problema no fato de famílias inteiras estarem reunidas nas praias.

— Estamos no verão e este é um vírus de inverno. A gente não sabe tudo, mas entendo que família vindo a praia junta não significa problema. Mesmo porque ficam juntos dentro de casa — opinou.