Coronavírus: profissionais de saúde se 'isolam' da própria família para minimizar riscos de contágio

Carol Knoploch
Daniele Bunier, dona do hotel Plaza Spania, em Botafogo, destinou o espaço para atender exclusivamente os profissionais de saúde.

RIO - Andreia Bessa, professora aposentada, de 52 anos, sente falta dos beijos e abraços do marido, Lamarck, 62, e dos quatro filhos, Lamarck, 27, Matheus e Lorena, gêmeos de 25, e Gustavo, de 20. Em tratamento contra um câncer de mama, ela tem de fazer quimioterapia toda a semana, e, por isso, precisa deixar o isolamento domiciliar para ir ao hospital.

Mesmo sensível e com medo de contrair o coronavírus, ela não troca mais carinho com ninguém dentro da própria casa. A família, que não tem plano médico, mora toda junta.

E lembra-se com dor da despedida da filha, recém formada em medicina e atualmente na linha de frente no combate à Covid-19 em um posto de saúde Brasília.

— Faltou o abraço de despedida, o beijo, o toque. Fui para o meu quarto enquanto ela fazia as malas — conta a professora. — Ela está preparada, eu é que não... Mas meu medo não é por mim. Seja o que Deus quiser. É por ela, que se formou em dezembro e já encara uma crise sanitária mundial. Choro todos os dias preocupada.

Uma situação que vem se tornando cada vez mais comum: profissionais da saúde que, para minimizar o risco de contágio, estão se isolando do convívio familiar. Em alguns casos sem nem ter para onde ir.

— Vou para onde? O negócio é tomar todos os cuidados aqui em casa mesmo. Temos a facilidade de dormir em quartos separados, e o apartamento ter dois banheiros — diz ela que só sai do quarto para ir ao banheiro e para pegar a comida que pede de delivery. — Coloco máscara e limpo onde toco com álcool gel. Fico o mínimo possível na sala, e não divido o mesmo ambiente com a minha amiga.

Ela conta que a amiga, que continua trabalhando, usa o banheiro de serviço, já tira toda a roupa quando chega e coloca na máquina de lavar. A médica comentou que outras duas pessoas do seu trabalho também estão afastadas com suspeita de Covid-19. Uma delas, com cargo de chefia, fez o teste e deu negativo. Vai repetir porque está internada com quadro de pneumonia.

Em hotel e na serra

A enfermeira Fátima Muiño, de 53 anos, que trabalha no Hospital Pró Cardíaco, diz que "estava ficando paranoica", pensando em cada passo que tinha de dar, antes de fazer qualquer coisa dentro da sua casa, pós-expediente. Pudera, ela mora e cuida dos pais, Domingo, 86, e Estrella, 78.

Ele tem mal de Alzheimer, pneumonia de repetição, diabetes, coronariopatia e é hipertenso. Ela também tem um quadro para hipertensão, diabetes e coronariopatia. Fazem parte do grupo de risco para a Covid-2019. Mesmo temendo colocar em risco sua família, Fátima diz que não pode abandonar o pronto socorro.

— Se ele (o pai) pega isso, não aguenta. Tinha medo de fazer uma besteira sem querer, descuidar de algo e contaminá-los. Estava ficando paranoica, com uma neurose muito ruim, para dar conta de tudo. Até conduzia de uma forma adequada quando as coisas estavam mais lentas, mas, agora que está ficando mais grave, tenho medo. Chegava em casa, e tinha de tomar conta de tudo, do sapato, roupas, mãos, de não ter contato com os meus pais antes de tomar banho e me higienizar. Estava até andando de máscara em casa porque não sei se estou contaminada. Não aguentava mais. Estava muito arriscado.

Assim, ela resolveu procurar uma conhecida, Daniele Bunier, dona do hotel Plaza Spania, em Botafogo, perto de onde mora. Sem rodeios, pediu para ficar lá durante este período crítico. Diz que, assim como ela, outros colegas não têm para onde ir, temem pelos familiares, e estão optando por saída semelhante.

Bunier topou na hora e resolveu fechar o hotel para profissionais da saúde. Cobra um pequeno valor de diária para manter os custos. Com isso, contou ela, pode manter o hotel funcionando sem dispensar ou reduzir salários de seus funcionários.

— Estava muito ansiosa, sem saber como fazer para não deixar na mão as famílias que dependem da gente também — falou Danielle, que, em menos de 15 minutos, após a divulgação desta ação, foi inundada de pedidos de reserva. — Estou repassando para colegas de outros hotéis para poder atender a demanda. É muita gente.

Hugo Tristão, de 40 anos, cirurgião vascular, teve mais facilidade. Pai de dois filhos, um de 7 e outro de 10 anos, combinou com a ex-mulher de levá-los para a casa de parentes, em Teresópolis. Hugo ficou isolado em sua casa, em Copacabana.

Ele admitiu que, pela primeira vez na carreira, está com medo. Contou que nos dois hospitais em que trabalha, Miguel Couto, na Gávea, e no Estadual Adão Pereira Nunes, no bairro Jardim Primavera, há casos suspeitos de Covid-19. Um colega, com quem teve contato recentemente, está em quarentena esperando o resultado.

— Nossa vida é como a de um soldado na Guerra do Iraque. Ainda não fui recrutado para a linha de frente, mas serei — comparou o médico, que continua trabalhando, mas que conseguiu se isolar da família. — Médicos estão morrendo também, e, sim, estou com medo. Tenho medo do que está por vir.

Ele conta que comprou a própria máscara e que, mesmo isolado da família, redobrou os cuidados na sua casa. Por sorte, havia encomendado estoque de álcool 70 para seu consultório particular.

— Não sabemos quando isso vai terminar, e morro de saudades dos meus filhos. Quando vejo pessoas nas ruas, e muitos idosos aqui em Copacabana, não entendo como não pensam na gente.