Coronavírus: Recursos da saúde estão distribuídos de forma muito desigual no estado, conclui estudo da Fiocruz

Selma Schmidt

RIO - Estudo feito pela Fiocruz constata que os recursos da saúde, fundamentais para o tratamento de pacientes com Covid-19, estão distribuídos de forma bastante desigual no Estado do Rio. A grande concentração deles está na região Metropolitana 1 (capital e Baixada), que, no entanto, tem um grau elevado de dependência da rede privada e, proporcionalmente ao tamanho da sua população, possui leitos clínicos e cirúrgicos abaixo da médias nacional e do Sudeste. Já a Baía da Ilha Grande (Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty) é a região com mais carência de leitos de UTIs, equipamentos e profissionais.

O levantamento foi feito pela equipe do Projeto Avaliação do Desempenho do Sistema de Saúde (Proadess), do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict) da Fiocruz, com base na disponibilidade, em cada um dos 92 municípios fluminenses – agrupados em nove regiões definidas pela Secretaria estadual de Saúde – de oito indicadores básicos tanto no Sistema Único de Saúde (SUS), quanto na rede de saúde privada. São eles: leitos de internação (clínicos e cirúrgicos, excluídos os pediátricos, obstétricos, psiquiátricos, para pacientes crônicos e hospital dia); leitos de UTI; respiradores/ventiladores; tomógrafos computadorizados; médicos intensivistas; total de médicos; enfermeiros intensivistas; e total de enfermeiros.

A base de dados é o Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Datasus, de fevereiro deste ano. Os leitos dos hospitais de campanha não foram considerados.

A capital e a Baixada concentram pelo menos 45% de todos os recursos da saúde estaduais. Mas a região tem uma das menores quantidades de tomógrafos computadorizados do SUS em relação à população acima dos 20 anos de idade: apenas 1,12 para cada 100 mil habitantes, o segundo menor indicador regional, maior apenas que o da área que inclui Niterói, São Gonçalo e outros municípios vizinhos que formam a região Metropolitana II (1,09/100 mil habitantes).

– A região Metropolitana 1 tem um total (SUS e privados) de 11.256 leitos clínicos e cirúrgicos, uma média de 1,49 para cada mil pessoas de 20 anos ou mais. A média nacional e do Sudeste é de 2,2 leitos. Do total, na região Metropolitana 1, pouco mais da metade são leitos do SUS – explica o pesquisador Ricardo Dantas, coordenador da pesquisa.

Quanto a leitos de terapia intensiva no estado, 61% ficam no Rio e na Baixada. Mas, de um total de 2.573 leitos de UTI na região, só 22,5 % (579) são públicos.

– Existe uma concentração desses leitos na rede privada. Na região, há 0,77 leitos do SUS para cada dez mil habitantes, um pouco acima da média nacional (0,73) e abaixo do Sudeste (0,81), num período normal. Só que estamos numa pandemia – analisa Dantas.

Entre as áreas com grandes carências, Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty têm número bem reduzido de leitos de UTI (apenas oito do total de 1.185 de todo o estado) e não contam com nenhum enfermeiro intensivista. Outras duas regiões, Serrana (Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e mais 13 municípios)e Centro-Sul (Vassouras, Miguel Pereira, Três Rios, Mendes e mais sete municípios) também não têm enfermeiros intensivistas.

Há ainda poucos médicos intensivistas no Noroeste (Itaperuna, Miracema, Laje de Muriaé e mais 11 municípios); no Centro-Sul do estado (Vassouras, Miguel Pereira, Três Rios, Mendes e mais sete municípios), na Região dos Lagos (Baixada Litorânea) e no Médio Paraíba (Volta Redonda, Barra Mansa, Resende, Valença e mais oito municípios).

– Quanto mais se interioriza, maior a falta de recursos. Um dos desafios para enfrentar a pandemia é criar estratégias para o deslocamento de pacientes para áreas com mais recursos. Outro é formar uma regulação conjunta de leitos públicos e privados – conclui o pesquisador da Fiocruz.