Coronavírus: Reportagem mostra que sete milhões de crianças ficaram sem alimentação escolar

Ana Claudia Oliveira com seus quatro filhos

RIO - Garantido pela Constituição, o direito à alimentação escolar tem sido colocado em risco durante a pandemia do novo coronavírus. Neste domingo, O GLOBO trouxe um mapeamento inédito revelando que sete milhões de crianças perderam esse direito. A reportagem mostra ainda iniciativas adotadas nas capitais e nos estados para atenuar o problema e também os casos de omissão. Para a tarefa, foram envolvidos quatro repórteres das sucursais de Rio, São Paulo e Brasília.

Na última semana, os jornalistas Bruno Alfano, Paula Ferreira, Renata Mariz e Thiago Herdy conversaram com dezenas de secretarias de Educação de todo o país, professores, pais de alunos, integrantes de conselhos de Alimentação Escolar, da Defensoria Pública e do Ministério Público para trazer um retrato do problema.

— É cruel constatar que o recurso para a alimentação escolar existe, mas a comida não chega às crianças por uma série de falhas e omissões do poder público, especialmente em um momento de pandemia, em que a renda das famílias diminuiu ou deixou de existir — afirma Renata Mariz, da sucursal de Brasília.

Embora gestores tenham assegurado, na maior parte do Brasil, acesso a alimentos a jovens em situação mais vulnerável, que pertencem a famílias cadastradas nos programas sociais do governo, o acesso universal, como previsto em lei, não está garantido para muitos.

— É muito duro ouvir de uma mãe que não ela consegue dar o básico de alimentação para seus filhos, por conta da demora do Estado — afirma Bruno Alfano, repórter no Rio.

Já Paula Ferreira, da sucursal de Brasília, aponta a falta de coordenação efetiva do MEC com gestores municipais e estaduais como uma das causas centrais da crise.

— Isso ficou muito nítido durante a apuração da reportagem, e o resultado dessa falta de articulação é a fragilidade do cumprimento desse dever do Estado — diz ela.

O repórter Thiago Herdy, de São Paulo, chama atenção para o risco de retrocessos:

— Imagine se um dia o leitor fosse demitido e, ao buscar seus direitos, descobrisse que seu chefe havia decidido não pagar nada, ignorando os direitos adquiridos. Guardadas as proporções, milhões de crianças e adolescentes de todo o país estão vivendo situação parecida depois da suspensão das aulas por causa da pandemia da Covid-19, e não têm a quem recorrer — explica Herdy.