Coronavírus: restaurantes no Rio resolvem fechar por tempo indeterminado

Bruno Calixto e Luciana Fróes

Para conter o avanço do coronavírus, o governador Wilson Witzel decidiu, na segunda-feira (16), restringir o funcionamento de bares e restaurantes em todo o estado. No dia seguinte, alguns chefs e empresários optaram por fechar as portas, muitos por tempo indeterminado. Caso de Claude Troisgros, que anunciou nesta terça (17), numa rede social, a decisão de fechar seus cinco restaurantes (e mais o Olympe, tocado pelo filho Thomas).

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"Nosso desejo é que este momento seja breve e passageiro, e que possamos voltar às nossas rotinas de forma segura o mais rápido possível", postou o chef, que criou um serviço de entregas de comida através dos telefones dos restaurantes. Ele informa que vai criar um menu especial para o delivery.

Para Claude, ficar aberto com 30% da capacidade, conforme determinado pelo governo estadual, não faz sentido.

— Não funciona para mim. Quem mais sofre são os garçons, que têm quase 40% dos salários em comissão. É duro demais. No momento vamos pensar numa coletividade, o mundo está num momento muito difícil, abrir sem cliente não faz sentido. É preciso preservar não só os clientes mas os funcionários também. Financeiramente falando vai ser dramático. Espero que o governo ajude — diz.

Rafa Costa e Silva, do Lasai (uma estrela Michelin), também foi para a rede social avisar do fechamento. Ele fez o comunicado em um vídeo.

"A gente ainda vai decidir o que vai fazer, a prioridade agora é cuidar dos nossos funcionários e colaboradores. Preservar a família Lasai, que justamente hoje (terça) faria seis anos e a festa seria amanhã (quarta). É muito triste, o sonho de muitas pessoas", relatou.

A Casa Camolese, no Jockey, também encerrou as atividades no salão e vai operar apenas com delivery e entrega de comida via drive thru (você retira a comida de dentro do carro), no estacionamento.

— Tudo com os devidos cuidados de higienização e ainda 20% de desconto. Uma forma de preservar o funcionário (que não depende do transporte público) e o cliente — garante Cello Camolese Macedo, que também é sócio do novo Mitsubá, que abriria no Leblon esta sexta-feira (20), não fosse a pandemia.

— Estamos com o novo restaurante 100% pronto, a inauguração era prevista para sexta agora, dia 20, mas diante do atual cenário, vamos ter que adiar. Mesmo com equipe toda montada, aluguel do espaço pago e os gastos com a obra. É a primeira vez em 30 anos de carreira que vivo algo assim. Mas estamos no grupo dos contentores, de não disseminação do vírus — informa Cello.

Recém-inaugurado em Botafogo, a Lanchonete também fechou as portas e só funciona para entregas e retirada no balcão. Dos mesmos donos, o bar Quartinho fechou completamente.

— A gente deixou de descanso remunerado os funcionários que moram longe, e portanto dependem do transporte público, e só estão trabalhando os que têm moto ou moram perto e podem vir a pé — comenta o sócio Eduardo Araújo.

O Malta Beef Club, especializado em carnes nobres, decidiu suspender as atividades por tempo indeterminado. Os 82 funcionários das unidades ficarão em casa, sem prejuízo da remuneração salarial, mas também sem receber comissões.

— O sacrifício é grande e envolve empresários do setor, funcionários e fornecedores. É uma situação nova que requer o bom senso e a colaboração de todos para que possamos enfrentar esse período da melhor maneira. Nosso maior objetivo ao tomar essa decisão foi frear a disseminação do vírus para voltarmos às atividades o quanto antes — afirma o sócio Sergio Malta.

O gastrobar Nosso, em Ipanema, também encerrou a operação temporariamente. Segundo o sócio Rodrigo Vasconcellos, a medida de precaução é válida até o dia 4 de abril, quando, acredita, será possível fazer uma nova avaliação do cenário.

— Nossa preocupação maior é com a saúde e bem-estar dos funcionários e nossos colaboradores. Sendo assim, parte da equipe está de férias e parte em licença remunerada em casa. Nossa prioridade é passar segurança em todos os sentidos — declara Vasconcellos. — Percebi que os funcionários receberam a decisão com alívio, apesar de toda a apreensão do que virá pela frente.

O empresário ainda não decidiu se vai adotar ou não o serviço de entrega.

— Pensamos em implementar o delivery, mas achamos mais prudente não expor a equipe a uma possível contaminação, já que a maioria depende de transporte coletivo, assim como os entregadores.

Futuro incerto e possível falência

O presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), Fernando Blower, garante que muitas destes bares e restaurantes deverão ir à falência.

— Este futuro, de três a quatro meses, está muito distante, todo mundo ainda está olhando para o presente e tentando entender, tomando decisões mais sensatas. Este impacto é tão expressivo que nada o que a gente fizer vai ser suficiente para reverter totalmente. O que posso garantir é que muitas casas vão quebrar, infelizmente, outras vão conseguir ressurgir com novos sócios, investimentos, empréstimos — lamenta Blower.

Claude Troisgros diz que prefere não fazer previsões.

— Dá para quebrar em dois meses? Dá. Mas prefiro não antecipar catástrofes. Vou hibernar, fase urso, e economizar energias. Os diretores da nossa empresa abriram mão de 25% dos salários, em solidariedade — conta Claude.

Chefs e sócios de mais de 300 restaurantes do Rio criaram um grupo numa rede social (Coletivo Gastronomia RJ) para discutir os rumos da gastronomia carioca frente à pandemia do coronavírus. Uma das idealizadoras é a sócia do Proa, na Gávea, a chef Joana Carvalho. Um tanto menos otimista, ela define "um cenário de guerra".

— Vamos aguardar para ver o que acontece. Estamos pensando se lançamos serviço de entrega ou retirada no balcão, inclusive uma saída seria fornecer, junto com receitas na internet, os insumos que temos nos restaurantes para as pessoas fazerem nossas receitas em casa, eu por exemplo comprei 400kg de camarão fresco, estocados a vácuo, com total segurança — sugere.