Coronavírus: a rotina de quem exerce função essencial em meio à pandemia

Stephanie Tondo
Profissionais falaram sobre o sentimento de propósito e dever cívico que os move neste momento.

RIO - Para que o isolamento social funcione, muitos profissionais precisam ir trabalhar todos os dias para garantir que estabelecimentos de serviços essenciais, como supermercados, farmácias e postos de gasolina, atendam à população. O GLOBO conversou com alguns desses trabalhadores, que contaram como sua rotina foi afetada pela pandemia do novo coronavírus e falaram sobre o sentimento de propósito e dever cívico que os move neste momento.

Expostos ao risco de contágio todos os dias, esses profissionais também alertam para a importância de manter a maior parte da população em casa. Com o transporte coletivo e as ruas mais vazias, as chances de contaminação pela Covid-19 são menores para quem não pode ficar isolado.

Além do medo de contrair o vírus, esses trabalhadores também têm enfrentado dificuldades, como a redução na frequência dos ônibus, o que aumenta o tempo de espera pelo transporte, assim como a diminuição do número de profissionais nas equipes.

Presidente da Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), Fábio Queiróz afirma que os estabelecimentos estão operando com até 20% menos colaboradores em relação ao habitual:

— Afastamos todos os profissionais do grupo de risco ou que apresentaram qualquer sintoma. E a restrição do transporte intermunicipal também nos custou alguns funcionários. Quem está nas lojas são heróis. Estão trabalhando pelos colegas que não estão com eles, mas gostariam, e em nome de uma missão que é abastecer a cidade.

Para driblar o problema do transporte e evitar também a contaminação em ônibus e metrô, muitos profissionais têm ido trabalhar com seu próprio carro ou de carona. Alguns fazem rodízios, em que cada dia uma pessoa é responsável por buscar e levar os colegas. Algumas empresas também têm oferecido transporte. É o caso da Light, por exemplo, que contratou vans para atender aos técnicos que precisam ir a campo.

— Alugamos vans que pegam os profissionais em casa e deixam nos locais de trabalho. Alguns preferem usar o seu próprio carro, e temos ainda os veículos da empresa, que também foram disponibilizados para o transporte dos funcionários. A preocupação existe, mas a própria equipe de campo reforçou com as famílias a importância de estar a serviço da sociedade agora — conta a superintendente de recursos humanos da companhia, Jacqueline Carrijo.

Com economistas prevendo uma explosão nos índices de desemprego após o surto de coronavírus no país, profissionais de setores essenciais também afirmam que preferem ir trabalhar a correr o risco de perder o emprego ou até mesmo ter o contrato de trabalho suspenso, conforme permite a Medida Provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro na última quarta-feira. Para muitos deles, cujos parceiros ou familiares estão sem renda neste momento, manter o salário é fundamental.

Casado e com uma filha, o técnico de operações da Light Bruno Santana, de 32 anos, conta que tem adotado um cuidado redobrado com a higiene, para preservar a saúde da família. Em razão da natureza do seu trabalho, ele precisa estar na rua diariamente para possibilitar que qualquer problema no fornecimento de energia elétrica seja resolvido.

— Vou a campo todos os dias e preciso ter alguns cuidados agora. Algumas pessoas, por exemplo, vêm automaticamente apertar a minha mão, e aí eu não posso cumprimentar, explico que é por razões de segurança, que a gente precisa manter uma certa distância. Também busco lavar as mãos toda hora e usar álcool gel, inclusive na higienização da viatura — conta.

Quando chega em casa, Santana recebe logo a orientação da mulher para ir aos fundos lavar as mãos e tomar banho para evitar que os resíduos da rua contaminem a casa. Apesar da preocupação, o técnico diz que o trabalho tem trazido a sensação de satisfação por contribuir com a sociedade neste momento.

— Minha mulher fica preocupada que eu esteja trabalhando fora, eu fico também, mas ao mesmo tempo dá uma satisfação no fim do dia, saber que estamos prestando um serviço essencial para a população.

Gerente do Supermarket da Avenida Abelardo Bueno, na Barra da Tijuca, Adilson Batista, que mora em Nova Iguaçu, tem ido trabalhar de carro todos os dias para evitar uma exposição maior ao vírus no transporte público. A rotina de higiene também foi intensificada.

— Tenho uma mulher e filhos, não quero levar o vírus para eles. Quando chego em casa, o cuidado é redobrado. Coloco os sapatos do lado de fora, uso álcool para desinfetar. Também tiro a roupa e coloco numa sacola separada e vou direto para o banho. No carro tenho álcool para limpar o volante e o câmbio quando entro depois do trabalho e quando chego em casa. Com todos esses cuidados a gente acaba ficando meio preocupado, passa o dia todo em estado de alerta — desabafa.

Mas Adilson enxerga também pontos positivos no trabalho em meio ao surto de coronavírus. Segundo ele, este momento fez com que muitos profissionais passassem a valorizar mais suas funções:

— Tem muitas pessoas que são dependentes do nosso atendimento. Senhoras que ligam porque não conseguem comprar por aplicativo. Eu sempre tive essa noção da responsabilidade, mas vi que muitos passaram a perceber agora o quanto são importantes na vida das pessoas.

A farmacêutica Raphaela Mattos, de 25 anos, pega o metrô todos os dias para ir trabalhar na drogaria Venâncio, no Flamengo, Zona Sul do Rio. No trajeto, ela evita ao máximo o contato com outras pessoas e com superfícies. Isso inclui, muitas vezes, equilibrar-se nos vagões para não precisar se apoiar nas barras de ferro ou nos assentos.

— Também evito sentar ao lado de outras pessoas e uso sempre o álcool gel — conta a jovem, que encontrou na profissão uma forma de ajudar o próximo neste momento difícil.

Raphaela Mattos explica que recebeu da empresa treinamentos de prevenção ao coronavírus, assim como de identificação dos sintomas e sobre as maneiras corretas de fazer a higienização. Com isso, ela consegue ajudar os clientes que chegam à f armácia todos os dias cheios de dúvidas:

— Tem gente que teve uma tosse e aí já acha que está com coronavírus. Para não ir até um hospital ou posto de saúde, essas pessoas buscam informações nas farmácias. É gratificante poder ajudar a orientar e acalmar os nossos clientes, que acabam sendo um pouco nossos pacientes também neste momento. Também explicamos como lavar as mãos e utilizar o álcool gel. É um trabalho muito importante.

Frentista há duas décadas, Valdenir Gomes Dias, de 49 anos, nunca passou por uma situação como esta pandemia de coronavírus. Ele conta que neste momento percebeu o quanto sua profissão, que é também a de seu filho, é importante para a população do Rio.

— Aqui não tem o serviço de self-service, como tem em postos de outros países. Se a gente não viesse trabalhar, como as pessoas fariam para abastecer? Além disso, ajudamos a calibrar os pneus, trocar óleo. Soldado no quartel quer trabalho, e precisamos levar o sustento para a casa — afirma.

Apesar de estar satisfeito em ir trabalhar, Dias reconhece que a situação exige alguns cuidados.Morador de Belford Roxo, ele pega todos os dias dois ônibus e um trem para chegar ao trabalho, e afirma que o fato de muitas pessoas estarem em casa dá mais tranquilidade para que ele possa sair.

— Quando chego ao trabalho faço toda a higienização e coloco o uniforme limpo. Cada frentista tem quatro ou cinco uniformes, que a empresa manda lavar. Também passo álcool gel em todas as maquininhas de cartão, antes e depois de o cliente usar. Quando chego em casa tiro os sapatos na varanda e coloco a roupa para lavar. Dá trabalho, mas é o que a gente tem que fazer.

Chef de cozinha do restaurante South Ferro, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, Lucas Baião, de 23 anos, conta que o coronavírus trouxe diversas mudanças para o negócio. A principal delas foi passar a atender exclusivamente em esquema de delivery, tanto com entregas próprias quanto com aplicativos, como iFood e Rappi.

Houve mudanças ainda na escala de trabalho dos funcionários, uma vez que o restaurante que só abria para jantar passou a funcionar também para o almoço.

Para Lucas Baião, porém, os sacrifícios têm valido à pena pela sensação de contribuir com o bem-estar dos clientes durante esse período de isolamento.

— Tenho medo de sair de casa e me contaminar, mas ao mesmo tempo acredito na importância que a gente tem como restaurante. A gente faz tudo o que pode, dentro de todo o cuidado que devemos ter, para levar conforto para as pessoas em casa. Tanto nas mensagens que escrevemos na embalagem quanto no tipo de comida que servimos.

Ele sente que as pessoas estão tentando se conectar até mesmo com os atendentes do delivery e vê nisso um papel social do empreendimento:

— Tem muita gente que está sozinha, e sentimos que as pessoas buscam essa aproximação.