Coronavírus tira IBGE das ruas e deixa economia andando no escuro

Cássia Almeida

Durante um período ainda incerto, o Brasil vai perder um dos principais indicadores econômicos, a taxa de desemprego, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc). E o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve de referência para o sistema de metas de inflação do governo, vai ser calculado somente com os preços do comércio eletrônico. Ambos os índices exigem coleta nos locais de venda ou nas casas. Com essa medida, abre-se uma lacuna de dados exatamente no momento em que informação é fundamental para se tomar as medidas necessárias para combater os efeitos econômicos do coronavírus. Dados da inflação bem calibrados são necessários para o Banco Central decidir sobre a taxa básica de juros, por exemplo.

Além disso, o IPCA é usado na correção de contratos, títulos públicos indexados à inflação, salários, benefícios assistenciais. Mesmo sem coleta de preços nos pontos de venda, o IBGE vai manter a divulgação dos indicadores pesquisando na internet, mas a variação de preços de alimentação fora de casa deve repetir valores do mês anterior. E não sabemos por quanto tempo essa situação vai perdurar, comprometendo a precisão do índice.

O cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) exige os indicadores de emprego, que reúnem variação de renda e ocupação, para ver o desempenho da economia. O fim do primeiro trimestre e o segundo serão os momentos de maior retração do PIB, na opinião de analistas que projetam queda forte da atividade entre abril e junho, em consequência da paralisação cada vez maior das cidades. O Censo Demográfico foi adiado para o ano que vem, mas essas pesquisas não podem ser adiadas. Os números simplesmente deixam de existir.

É como andar no escuro. As medidas tomadas pelo IBGE são necessárias para reduzir o contágio, mas vão cobrar seu preço mais adiante, quando a pandemia passar. Não teremos a exata noção do baque econômico que a quarentena provocou na economia. Como disse o demógrafo José Eustáquio Alves, ao comentar a suspensão das pesquisas, “a pandemia está matando pessoas e estatísticas”.

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