Coronavírus: UPAs superlotadas dificultam atendimento a pacientes com suspeitas de Covid-19 no Rio

Gustavo Goulart
Entrada da UPA de Campo Grande, na Estrada do Mendanha, Campo Grande

RIO — O drama de pacientes com suspeita de contaminação pelo coronavírus ou com a doença já confirmada prossegue nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da cidade, muitas delas já superlotadas. A UPA da Ilha do Governador, tem hoje seus três leitos da sala vermelha ocupados com pacientes que necessitam de atenção especial. A sala amarela, no entanto, tem 567% de sobrecarga. Com capacidade para 12 pacientes, o setor, por exemplo, tem, hoje, 68, de acordo com o boletim divulgado nesta terça-feira com base no Sistema de Regulação de Leitos (Sisreg). Os pacientes estão ajustados de forma precária, já que não há leitos suficientes.

— O estado de saúde do meu pai está piorando. E ele está na sala amarela. não há nenhuma expectativa de transferência para algum hospital. Está sentado numa cadeira recebendo atendimento da forma como os profissionais de saúde tem condições. Estou orando para que não aconteça o pior com ele — desabafou a filha de um paciente, que preferiu não ser identificada.

O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Alexandre Telles, ressaltou que a superlotação de pacientes atinge também as UPAs da Vila Kennedy e da Penha, além de coordenadorias de emergências regionais.

— Estamos constatando a superlotação em várias unidades de saúde, além de profissionais sem os equipamentos de proteção individual adequados. As UPAs da Vila Kennedy e da Penha são exemplos de superlotação. Além das UPAs, há problemas em coordenadorias de emergências regionais (CERs), como a da Ilha do Governador, que tem capacidade para 22 pacientes e há 70 internados com Covid-19. Quando estivemos lá recentemente, havia 25 pacientes na sala amarela e cinco na sala vermelha. E nesse espaço só havia um médico para tratar dos cinco pacientes. Na sala de hidratação, as pessoas precisam ficar sentadas em cadeiras. Havia cerca de 30 pessoas nessa situação — relatou o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Alexandre Telles.

Hoje, a UPA da Penha tem sua sala vermelha ocupada em sua total capacidade, com dois pacientes. Porém, a sala vermelha tem 170% de superlotação. A capacidade é para dez pacientes e há, no momento, 17, segundo o boletim do Sisreg.

A UPA de Manguinhos, considerada impedida de receber mais pacientes no boletim divulgado na terça-feira, é uma exceção: a unidade tinha um paciente a mais do que a sua capacidade na sala vermelha, ou seja, três internados. E 200% de sobrecarga na sala amarela: a capacidade é de 12 pacientes eu tinha 24. Nesta quarta-feira, segundo a coordenadora da UPA, a enfermeira Daniele Tarta, há dois pacientes na sala vermelha, que é a capacidade do local. E 15 paciente na sala amarela, cuja capacidade é de 17.

— A situação dos pacientes da sala vermelha é grave e o nosso problema maior é o Sistema de Regulação de Leitos. Se os casos se agravarem mais os pacientes precisaram ser transferidos mas isso tem sido uma dificuldade — frisou.

Afastamento de profissionais agrava situação

Vice-presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio, Líbia Bellusci, informou que hoje há 1800 profissionais de Saúde entre técnicos em enfermeiros afastados no Rio de Janeiro por contaminação pelo novo coronavirus ou por pertencerem ao grupo de risco.

— Além disso, já temos mais de 20 mortos. Precisamos de profissionais. A conta não fecha — comentou.

Segundo ela, o problema aumentou na UPA da Maré por que o governo do estado proibiu o trabalho de profissionais no sistema RPA.

— Por isso, de quatro enfermeiros por plantão de 12 horas agora só tem três e que estão reclamando muito da sobrecarga — disse Líbia.

Diretor-tesoureiro do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), o médico Flávio Antônio de Sá Ribeiro acusa a omissão do poder público durante 40 anos por ser responsável pela atual situação da rede pública de saúde.

— Que Deus nos proteja! A situação é caótica mas não é de agora. O caos na rede pública de saúde tem 40 anos em todas as esferas. E não tem fórmula mágica. O que a população vai sofrer agora é consequência da negligência e incapacidade de gestão e da falta de investimentos na área da saúde durante todo esse tempo. Pelo menos 5% da população do Rio, o que representa 200 mil pessoas, sofreram com o coronavirus. Na América Latina não existem 200 mil leitos — criticou.

O Cremerj apresenta outros números de afastamento de profissionais de saúde revelados oficialmente pela Secretaria estadual de Saúde e pela Secretaria municipal de Saúde no dia 27 de abril. Segundo o estado, há atualmente 1.169 profissionais de saúde afastados do trabalho por suspeita ou confirmação de coronavirus. Já a prefeitura informa que, atualmente, 1.040 profissionais estão de licença por estarem com suspeita ou confirmação de Covid-19. E que outros 277 estão afastados por terem 60 anos ou mais.

Por meio de nota, a prefeitura informou que aponta como uma possível solução para o problema a inauguração dos hospitais de campanha.

"Nesta quarta-feira em toda rede municipal de saúde do Rio, há 431 pessoas internadas com suspeita de infecção pelo novo coronavírus, sendo 129 em UTI. Em toda a rede SUS, que inclui leitos de unidades municipais, estaduais e federais na cidade, são 1.216 pacientes internados com suspeita de covid, sendo 360 em UTI. A taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid-19 na rede SUS é de 97%. Já a taxa de ocupação nos leitos de enfermaria para pacientes com suspeita de Covid é de 93%. Na manhã desta quarta-feira, 317 pacientes estavam na fila aguardando transferência para CTI".

Entre as várias medidas adotadas pela Prefeitura do Rio, a principal delas é o início do funcionamento do Hospital de Campanha do RioCentro, na próxima sexta-feira, dia 1º de maio. O hospital abre com 100 leitos, sendo 80 de enfermaria e 20 de UTI, equipados com os 20 respiradores, diz um trecho da nota.

Já a Secretaria estadual de Saúde informou que ao todo há 2.307 pacientes internados na rede estadual e que 333 pacientes suspeitos são confirmados de infecção pelo novo coronavirus aguardam transferência para UTIs, "que podem ser regulados para as diferentes redes, seja ela municipal, estadual ou federal".

Por meio de nota, a secretaria informou também "que, até o momento, 724 novos leitos para tratamento de pacientes suspeitos ou confirmados da Covid foram abertos em todo o estado do Rio de Janeiro. Desse total, 572 são em hospitais de referência para o tratamento de coronavírus, sendo 287 UTIs e 285 enfermarias. Além dessas unidades destinadas, há ainda 152 leitos para o tratamento da Covid em áreas isoladas de outras unidades estaduais", diz a secretaria.

O órgão informa ainda que, "atualmente, a taxa de ocupação considerando toda as unidades da rede estadual é de 74% em leitos de enfermaria e 85% em leitos de UTI". E que também aposta no início do funcionamento do hospital de campanha do Maracanã.

"O próximo hospital de campanha a ser inaugurado deverá ser o do Maracanã, que terá 400 leitos, 80 deles de UTI, nos primeiros dias de maio. Os demais 1.400 leitos em outros sete hospitais de campanha e uma estrutura modular serão inaugurados de forma gradativa no ao longo do mês de maio, de acordo com a evolução da pandemia.