Coronavírus: Veja o relato dramático de médicos de CTI na luta para salvar vidas

Janaina Figueiredo
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Paciente de Covid-19 chega ao Hospital de Campanha do Parque dos Atletas, no Rio de Janeiro.

Jornadas intermináveis de trabalho que já os levaram a um nível nunca antes sentido de exaustão física e, principalmente, emocional. Com o sistema de saúde público colapsado e o privado saturado, já registrando demoras no processo de internação, médicos intensivistas que estão na linha de frente do combate à pandemia temem que a baixa adesão ao isolamento social em estados como o Rio possa provocar uma crise sanitária.

As imagens de pessoas caminhando nas ruas, em muitos casos aglomeradas, são hoje um de seus principais motivos de angústia, conforme contaram ao EXTRA. Dentro dos hospitais onde trabalham, afirmam nunca terem cuidado de tantos pacientes em estado tão grave, e ao mesmo tempo. Diante de uma doença para a qual não existe cura definitiva, afirmam estar “trocando pneus com os carros andando”.

Alguns casos provocam baques profundos, sobretudo quando devem entubar algum médico conhecido ou até mesmo um amigo. Num Brasil que hoje já é o sexto país mais afetado do mundo pelo novo coronavírus, com 188 mil contágios e 13.149 mortes, os intensivistas sentem que o pico alcançado pode acabar virando um platô pelo afrouxamento das medidas de distanciamento social. No estado, já são 18.728 infectados e 2.050 óbitos. Confira os depoimentos:

“Tive de intubar um residente meu de 29 anos, foi muito duro’’

Dr. Rodolfo Espinoza, do Inca e do Copa Star

“O Dia das Mães foi a primeira vez que não pisei num hospital em três meses. No Inca, por falta de recursos humanos, passei a dar assistência no plantão. Estamos organizando nosso trabalho diariamente, tomando decisões à medida que as situações vão aparecendo. Nos hospitais particulares do Rio já falta vaga, sobretudo na Zona Sul. Em muitos momentos temos 100% de ocupação na rede privada. Sou intensivista há 20 anos, nunca vivi nada parecido. Coordeno CTI na rede privada e estamos ampliando os leitos permanentemente, lidando com falta de médicos, contratando profissionais, dando ânimo à equipe. Quem fica doente volta da quarentena muito engajado, querendo ajudar. Isso é bonito. Mas também é verdade que existe medo. Na semana passada, tive de intubar um residente meu de 29 anos, foi muito duro. Temos colegas internados, muitos com respirador e em estado grave. Muitas pessoas estão morrendo nos hospitais públicos e privados. A mortalidade é maior do que está sendo apresentada e me parece impressionante que algumas pessoas ainda neguem essa realidade. O que mais nos derruba é o cansaço mental. Não desligamos nunca, muitos médicos têm problemas para dormir. No Inca, a Covid-19 está tomando conta de todos os leitos. O grande dilema é se tratamos as doenças que são tempo dependentes, as que precisam de cirurgia ou quimioterapia ou evitamos expor nossos pacientes ao coronavírus. Sou casado e tenho três filhos, os dois mais velhos moram com minha primeira mulher, vejo pouco. O pequeno, de 2 anos, me vê saindo de casa cedo e voltando tarde. Sabemos que será assim por muito tempo”.

“Vejo muita gente que está desligada da realidade’’

Dra. Roberta Lima, do Hospital da UFF e do Copa D’or

“Fiquei viúva há dois anos e tenho uma filha de 8 anos que se chama Clara. Todas as noites ela me espera para brincar de amarelinha. Trabalho muitas horas, alguns dias chego meia-noite e minha filha está me esperando. Sou asmática, ainda não me contagiei e espero continuar assim. Estamos todos preocupados pela saturação dos hospitais. Ainda temos espaço para crescer, abrir novos leitos de CTI, mas nosso grau de elasticidade tem um limite. Já redistribuímos vários setores do hospital e hoje vários andares são CTIs de Covid. Por isso o isolamento social é tão importante. Hoje temos medo de um pico maior pelo afrouxamento. Algumas pessoas preferem não enxergar o que está acontecendo, querem manter a vida como sempre foi. Mas nossa capacidade de atender a demanda depende do isolamento. Também temos dificuldades com o estresse. Tratamos doentes muito graves e isso vai exigindo um trabalho braçal enorme. São muitas horas, a máscara machuca nossos rostos, tudo vai gerando uma angústia muito grande. No sistema público é pior e já soubemos de casos de enfermeiras que tiveram “burn out”, arrancaram tudo no meio de um plantão e foram embora. Tive um homem que faleceu e seu filho não quis entrar para reconhecer o corpo, tinha medo de se contagiar. Não quis sequer dar o celular para tirar uma foto. Acabei tirando com o meu. As jornadas têm muitas horas, emagrecemos, apesar de tentarmos nos alimentar bem. Tentamos manter um equilíbrio. Faço meditação, escrevo, tento canalizar o estresse e esclarecer porque vejo muita gente que está desligada da realidade, até pessoas próximas”.

“O ambiente é propício para o esgotamento”

Dr. Luiz Simvoulidis, do Hospital da Unimed, na Barra da Tijuca

“No domingo do Dia das Mães, eu me vi chorando copiosamente quando perdi uma paciente que tinha 70 anos e também três filhos. Eu tive que informar essa família que ela não tinha conseguido sobreviver. Eu a conheci lá no hospital mesmo, e ainda estava lúcida. Rapidamente apresentou uma piora importante, foi levada para o Centro de Terapia Intensiva com falta de ar e em menos de 24 horas já estava entubada. Na véspera da sua morte, quando vi que o caso estava ficando muito grave, ofereci aos filhos que enviassem uma mensagem pelo telefone celular. Foi uma angústia muito grande, uma sensação de impotência. Não temos muito o que fazer, esta é uma doença nova sobre a qual sabemos muito pouco. Estamos trocando pneus com os carros andando. Essa mulher era uma pessoa saudável, a sua morte foi um baque. Hoje temos 54 pacientes, quase o dobro do que costumávamos ter em nosso CTI, e a demanda está aumentando. Nosso maior limite são os recursos humanos porque precisamos de atendimentos especializados e você não consegue formar intensivistas em todas as especialidades. O ambiente é propício para casos de esgotamento físico e mental. Precisaríamos dar folgas para que as pessoas fizessem uma higiene mental, mas muitas vezes não podemos porque ficamos sem esses profissionais. O que mais nos dá alento é ver os pacientes que se recuperam, isso nos mostra que os esforço vale a pena. Hoje o que nos salva é o isolamento. Se ele afrouxar, chegaremos ao nosso limite. Sem isolamento, já estaríamos num ponto de ruptura”.

“Não há leitos, é necessário o isolamento”

Dr. David Sulfiate, do Centro Hospitalar da Fiocruz, Clementino Fraga e Copa Star

Desde que a pandemia do novo coronavírus começou, minhas jornadas de trabalho se ampliaram de forma expressiva. Estou trabalhando 130 horas por semana, bem acima das 90 de costume. Gostaria que todos pensassem mais no outro porque a Covid-19 afeta todos, qualquer pessoa pode adoecer. Eu não falaria em colapso do sistema privado agora, mas sim em saturação. Em muitos hospitais públicos já não se consegue vaga, sobretudo nas unidades que chamamos de portas abertas, essas são as que estão em estado mais crítico. Vemos casos graves em todos os hospitais, esta doença diminui as distâncias sociais, temos pacientes em estado muito delicado nos hospitais públicos e privados, e perdemos pacientes em todas as redes. Nosso trabalho é incansável e o que mais nos desgasta é o contato com os pacientes porque não somos apenas médicos, acabamos sendo também psicólogos, ajudamos a conter a angústia que eles sentem. Lidamos com desfechos desfavoráveis todos os dias, é uma situação que exige demais da gente. Exige, por exemplo, estabilidade emocional em dias em que, no meu caso, cheguei a perder sete pacientes em 24 horas. Os doentes estão assustados, ficam sozinhos, é muito difícil. Vemos colegas morrendo, professores de faculdade, amigos. Perdi um professor que tinha 41 anos. Estamos num pico, mas no Brasil esse pico será um platô por nossa dinâmica social. As aglomerações continuam e, assim, os doentes continuarão chegando. Para a curva que se espera, não há leitos suficientes, por isso é tão necessário o isolamento.