CoronaVac é segura e gera boa resposta imune em crianças, confirma estudo

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SÃO PAULO - A CoronaVac é uma vacina segura e gera boa resposta imune em crianças e adolescentes, aponta um estudo publicado pela revista médica Lancet Infectious Diseases. O sucesso inicial do imunizante contra Covid-19 no público entre 3 e 17 anos já havia sido anunciado pela empresa Sinovac, e agora foi atestado por revisores independentes selecionados pela publicação científica, o que ajuda a qualificar o produto para pedidos de uso emergencial.

A pesquisa, um estudo de fases 1 e 2, foi conduzida em um grupo de 480 crianças na província de Hebei, na China. O trabalho concluiu que apenas um quarto delas apresentou algum tipo de reação à aplicação, mas sempre sintomas leves, como dor e inchaço no braço após aplicação. A imunogenicidade da vacina (capacidade de geração de anticorpos para combater o vírus) foi boa, com 96% das crianças e adolescentes tendo níveis detectáveis de atividade imune um mês após a segunda dose ter sido administrada.

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O teste foi conduzido em parceria entre a Sinovac e o Centro de Controle e Transmissão de Doenças de Hebei. Os autores do estudo defendem que o uso da CoronaVac em menores de idade siga o mesmo regime de aplicação dos adultos: duas doses de 3 microgramas do princípio ativo da vacina num intervalo de 28 dias.

A Sinovac havia anunciado o sucesso do estudo em março num comunicado público, e abriu dados num estudo preliminar publicado em abril, ainda sem revisão independente. Agora, depois da publicação formal num periódico científico após revisão por pares. Com alterações mínimas em relação ao original, o trabalho é considerado oficialmente válido em termos acadêmicos, aquilo que conta para agências reguladoras.

Segundo a pediatra Monica Levi, presidente da comissão de revisão dos calendários de vacinação da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a validação do teste de fase 2 da CoronaVac em crianças na China torna mais madura a discussão sobre a possível liberação da vacina para essa faixa etária no Brasil.

— Esse já é um assunto entre a comunidade médica e os órgãos reguladores — afirma a médica.

— A CoronaVac teve dados muito bons de segurança e de imunogenicidade, e por ser uma vacina de vírus inativado, uma plataforma já bastante conhecida e estudada, eu não acredito que exista um risco significativo de um problema não observado em adultos emergir entre as crianças.

A única vacina de Covid-19 aprovada até agora para uso em adolescentes no Brasil (acima de 12 anos) é a da Pfizer, que tem tecnologia ainda nova, o RNA. Para idades abaixo desta ainda não há nenhuma alternativa.

Risco pessoal e coletivo

Segundo os pediatras, uma preocupação com a atual falta de opções é deixar expostas ao vírus as crianças pequenas imunocomprometidas ou portadoras de comorbidades. Outro dado que preocupa os médicos é a incidência no país da síndrome multiinflamatória multissistêmica induzida pelo coronavírus, que pode levar à morte.

— Embora a doença inflamatória multissistêmica não seja muito frequente em termos relativos, ela já provocou mais de 1.500 mortes no Brasil. Em números absolutos isso é mais do que o que mata a meningite — diz Levi. — Durante uma pandemia você tem que raciocinar de modo muito diferente e colocar na balança os riscos e os benefícios.

Junto do novo estudo, o Lancet publicou um artigo de comentário de Bin Cao, cientista do Hospital da Amizade Sino-Japonesa de Pequim. Segundo ele, o cenário atual da pandemia cria uma pressão para que crianças sejam vacinadas mais rápido e contribuam para a imunidade coletiva das populações dos países.

"A maioria das estimativas indica um limiar de 65% a 70% para isso, mas novas variantes do vírus em circulação e uma maior hesitação vacinal tornam esse limiar difícil de alcançar", escreveu o cientista Cao, em comunicado à imprensa. "Esse cálculo, portanto, precisa ser revisado para cima, e as crianças precisam ser cobertas nas campanhas de imunização."

Antes mesmo da publicação internacional dos resultados, a China anunciou que vai começar em crianças (avaliação de eficácia) e já aprovou o uso emergencial da vacina fora do contexto de teste clínico.

No Brasil, o representante oficial da CoronaVac é o Instituto Butantan. Interpelada pelo GLOBO nesta manhã, a instituição ainda não se pronunciou sobre se buscará incluir crianças brasileiras no teste de fase 3 nem se encaminhará pedido de uso emergencial da vacina à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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