Coronavac: 'É impossível o evento ter relação com a vacina', diz diretor do Butantan

João Conrado Kneipp
·3 minuto de leitura
The director of the Butantan Institute, Dimas Covas, speaks during a press conference at Butantan's headquarters in Sao Paulo, Brazil, on November 10, 2020 amid the COVID-19 novel coronavirus pandemic. - The National Health Surveillance Agency (ANVISA) suspended clinical studies involving the vaccine against COVID-19 CoronaVac, which has been tested by the Butantan Institute in partnership with the Chinese pharmaceutical company Sinovac. The immunizer is at the centre of a political dispute between President Jair Bolsonaro and the governor of Sao Paulo, Joao Doria. (Photo by Nelson ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
A avaliação das autoridades paulistas é de que houve um “lapso de informação” entre Anvisa e governo de São Paulo. (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)

O governo de São Paulo afirmou nesta terça-feira (10) que é “impossível que o evento adverso grave” ocorrido com um voluntário do estudo clínico da CoronaVac tenha relação com a aplicação da vacina contra o novo coronavírus. A avaliação das autoridades paulistas é de que houve um “lapso de informação” entre Anvisa e governo de São Paulo.

A ocorrência do “evento adverso grave” foi a justificativa da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para paralisar os testes da vacina, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceira com a empresa chinesa Sinovac Biotech.

“É impossível que esse evento tenha relação com a vacina”, disse, por mais de uma vez, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. Ele espera que a Anivsa retome os testes da CoronaVac no máximo até quarta-feira (11).

“Espero que seja (retomado) entre hoje (terça-feira) e amanhã (quarta). Não tem porque protelarmos mais essa situação”, reforçou Covas, em entrevista coletiva concedida no fim da manhã desta terça, na sede do Instituto Butantan.

Leia também

Alegando motivos éticos, o governo de São Paulo não divulgou detalhes sobre o que seria esse “evento adverso grave” citado. A única particularidade do episódio passada por Dimas Covas foi de que o voluntário estava sendo monitorado pelo centro de estudos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de São Paulo, criticou a forma como o órgão tomou a atitude e reiterou a segurança da vacina. "Esta vacina é segura. Estamos a favor da vida, da verdade e da transparência”. “Sequer tivéssemos tido a possibilidade de fazer uma análise conjunta e clara sobre os fatos.”, complementou Gorinchteyn.

O diretor do Butantan pediu ainda que o órgão nacional de vigilância sanitária esclareça os motivos da interrupção o mais rápido possível para evitar que pairem dúvidas sobre o estudo e sobre a eficácia da vacina.

“É fundamental que a Anvisa esclareça todos esses pontos e que permita que o estudo continue. Não podemos deixar pairar nenhuma dúvida sobre lisura e sobre transparência do estudo, e segurança da vacina. Essa vacina é a mais segura das que estão em estudo no momento, e não apresentou reação adversa grave”, completou Dimas Covas.

BOLSONARO CELEBRA PARALISAÇÃO

O anúncio foi comemorado pelo presidente Jair Bolsonaro, que trava com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Na manhã desta terça-feira (10), o presidente compartilhou a notícia de suspensão pela Anvisa dos testes da vacina Coronavac e disse ter “ganhado” do tucano.

Há tempos, Doria e Bolsonaro travam uma espécie de “guerra das vacinas”, com o tucano defendendo a aplicação obrigatória do imunizante enquanto o presidente comanda um movimento anti-vacinas.

Na avaliação de aliados do presidente, Doria estaria tentando ganhar “capital político” ao encampar a produção de uma vacina contra a Covid-19 e chegaria municiado neste tema em uma eventual disputa pela presidência em 2022 contra Bolsonaro.

Com a paralisação dos testes, nenhum novo voluntário poderá receber a vacina. A ação ocorreu no mesmo dia em que Doria anunciou que 120 mil doses da CoronaVac chegarão ao estado ainda no mês de novembro.

A suspensão do teste clínico pegou próprio governo de João Doria (PSDB) de surpresa. A gestão do tucano diz não ter sido avisado pela Anvisa e aliados de Doria questionaram a divulgação da informação por meio de nota, em horário nobre de noticiários de televisão.