CoronaVac: falta de comunicação com Butantan chamou atenção de ex-dirigentes da Anvisa em episódio da vacina

Raphaela Ramos*
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Agência O Globo
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RIO — Ex-dirigentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avaliam que a decisão do órgão em suspender os testes da vacina CoronaVac, produzida pela empresa chinesa SinoVac BioNtech em parceria com o Instituto Butantan, foi correta. Na segunda-feira (9) a agência anunciou que os estudos seriam paralisados após "evento adverso grave" durante a fase de testes, mas a retomada foi autorizada nesta quarta-feira (11).

No entanto, antigos gestores afirmam que houve falha na comunicação entre Anvisa e Butantan. Dois deles destacam que a fala de Jair Bolsonaro sobre a suspensão provocou repercussão negativa e questionamentos sobre a atuação da agência. O presidente da república comemorou a paralisação e publicou em uma rede social: "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha". A CoronaVac está no centro de uma disputa política entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Na avaliação de Gonzalo Vecina Neto, sanitarista da USP e fundador da Anvisa, a decisão da agência de suspender dos testes da CoronaVac foi correta, e ele agiria da mesma forma.

— Assim que soube de um evento adverso grave, foi correto suspender os testes e descobrir o que tinha acontecido. Como era um evento envolvendo esfera criminal, é uma questão mais complicada, porque o IML tem uma velocidade de polícia, não de saúde pública — afirma, mas faz a ressalva: — A única coisa que faria diferente seria conversar com o Butantan antes, eles não conversaram porque estão em clima de guerra.

Cláudio Maierovitch, médico sanitarista da Fiocruz Brasília, que dirigiu a Anvisa entre 2003 e 2005, também avalia que a precariedade da comunicação entre a agência e o Instituto Butantan foi o que chamou mais atenção no episódio. Para ele, é difícil ter uma avaliação precisa sobre a decisão a partir das informações divulgadas.

— Um assunto dessa relevância não podia ser tratado como rotineiro. Não sei se foi problema apenas da Anvisa ou do Butantan também. Mas, antes de ir para a imprensa, os dirigentes e o corpo técnico das duas instituições tinham que ter conversado, para entender bem o que estava acontecendo, e dar satisfação para o público com base em informações objetivas — avalia.

Para Maierovitch, se houve ou não politização na atuação da agência regulatória é "uma incógnita". Mas destaca que a Anvisa vem sendo pressionada pelo presidente da república durante a pandemia da Covid-19.

— Espero que ela mantenha sua independência, um dos pilares que lhe dá credibilidade. Sem dúvida ficou muito claro que, desde que se passou a falar em vacina no Brasil, tem havido um tipo de pressão externa do governo, mas não tenho como afirmar que a Anvisa cedeu ou não — diz o médico.

William Dib, médico pela Unesp, que dirigiu a Anvisa entre 2018 e 2019, afirma que o episódio deve ser analisado sob duas óticas. Do ponto de vista técnico, a decisão de suspender a pesquisa clínica ao ser notificada de um evento adverso, enquanto não fosse explicado, está correta e de acordo com as regras estabelecidas. No entanto, a declaração do presidente da república levantou dúvidas sobre ela.

— Ver o presidente publicizar uma vitória política com a morte de alguém colocou em jogo se a Anvisa estava fazendo jogo político ou cumprindo rigor técnico. Mas, ao dizer que a agência teve o contato suspenso por ataque de hacker, justificou-se que o técnico que precisava da informação sobre o evento não conseguiu recebê-la, então havia explicação razoável para suspensão. — afirma, e completa: — Confio muito que a área técnica da Anvisa não se presta a fazer parte de briga política.

Para Vecina, as duas instituições, Anvisa e Butantan, "estão de salto alto". Mas não acredita que uma ou outra possa ser responsabilizada.

— As instituições jogaram seu papel, isso implicou na suspensão dos testes, que agora foram restabelecidos porque a Anvisa recebeu as informações e o comitê internacional de segurança enviou dados recomendando a continuidade. É difícil falar que foi politizado: quem politizou, o presidente da república ou o governador do estado de São Paulo? — questiona, e completa: — Vamos deixar as instituições fora disso.

Credibilidade

Maierovitch afirma que sempre que a Anvisa é levada para o centro de uma polêmica de natureza política isso pode arranhar sua credibilidade.

— Espero que seja superficial e cicatrize logo. Mas, se esse tipo de coisa for repetitivo, o arranhão vai ser mais fundo, infeccionar e podemos ter consequências graves — alerta.

Dib, por sua vez, espera que a Anvisa seja maior que essa situação.

— Ela tem uma história respeitada no mundo inteiro como uma das melhores agências regulatórias do mundo, podemos ter orgulho disso. Agora afetou, mas a explicação encontrada deu uma apaziguada na imagem — avalia.

Ele afirma não se recordar de outros episódios como esse nas duas décadas desde que a agência foi criada. O único caso mencionado envolveu a cannabis medicinal, e ocorreu durante sua gestão, em 2019, no governo de Michel Temer.

— Houve pressão do governo para que não houvesse liberação. A Anvisa, usando sua autonomia, liberou o uso medicinal, mas não conseguiu aprovar a autorização para plantio — diz Dib — Não lembro de mais episódios, até porque os outros governos, que eu me lembre, não fizeram nenhum tipo de pressão sobre a agência.

Vecina menciona episódios de disputa entre a Anvisa e ministros da Saúde durante o governo Temer, em relação a registro de produtos, e em sua gestão, no governo de Fernando Henrique Cardoso, envolvendo a liberação de medicamentos genéricos.

— Volta e meia acontecem essas coisas — afirma.

Maierovitch, por sua vez, diz que as ações mais fortes da agência sempre despertaram algum tipo de reação. Mas não lembra de episódios em que houvesse suspeita de que uma posição do presidente da república pudesse ter mudado os rumos de uma decisão da Anvisa.

— Acho que isso é inédito. Mas a agência já esteve envolvida em momentos polêmicos, porque já cuidou de diversos assuntos graves — explica.

Ele destaca que estamos em um momento trágico de pandemia, e isso "não está sendo tratado com a devida seriedade pelo governo".

— O episódio da vacina apenas ilustra que o Brasil não tem plano de combate à epidemia a aparentemente só tem havido algum tipo de movimentação por parte do governo federal quando há interesse político envolvido — afirma Maierovitch.