Coronavírus gera queda de 26% no volume de cargas de caminhões no Brasil

Gervásio Batista/Agência Brasil

O Brasil registrou uma queda de 26% no volume de cargas transportadas por caminhões nos dias 23 e 24 em relação ao movimento normal antes das medidas contra o novo coronavírus, que determinaram o fechamento de várias empresas e serviços não essenciais, de acordo com pesquisa realizada pela Associação de empresas de transporte NTC&Logística.

A pesquisa, com quase 600 empresas transportadoras, mostrou ainda queda de 29,8% no transporte de cargas fracionadas, que atendem distribuidores, lojas e supermercados; e redução de 22,9% em cargas lotação, que ocupam toda a capacidade dos veículos, demonstrando desaceleração de setores do agronegócio, do comércio geral e de grande parte da indústria.

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Considerando apenas o agronegócio, a queda na demanda por transporte é de 11,5%, pressionada mais por produtos perecíveis, como flores e hortaliças, uma vez que o escoamento da safra de soja tem garantido firmeza na procura por caminhões que transportam grãos, disse à Reuters o responsável pela pesquisa, Lauro Valdivia.

"Esse número inclui todos os produtos do agronegócio, não é só grãos. Inclui flores, que parou. Mas a gente sabe que o agronegócio, o transporte de grãos não parou", afirmou.

Isolamento pode atrapalhar safra de milho

O armazenamento da safra de milho no Centro-Oeste pode ter problemas devido ao isolamento provocado pela pandemia do novo coronavírus no país. A afirmação é da Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso), que também aponta problemas como dificuldades para embarcar produtos e ausência de assistência no campo.

Em maio, terá início a colheita da segunda safra de milho, que deve ser forte no estado, mas que não terá onde ser armazenada se as medidas de isolamento persistirem nas próximas semanas, segundo o presidente da associação, Antonio Galvan.

"É simples, não teremos espaço para armazenar milho caso não retire essa soja que está dentro dos armazéns hoje. E a movimentação de caminhões nas rodovias está muito pequena, tudo atrapalha. Não sei se o total de caminhões nas rodovias chega a 25%", afirmou.

A avaliação da Aprosoja é a de que, por segurança, seria necessário ter armazenamento equivalente a 120% da produção, mas os armazéns disponíveis cobrem apenas 60% do total.

Dois caminhoneiros ouvidos pela reportagem disseram estimar que o fluxo de veículos no trecho entre Cuiabá e Sinop está 70% abaixo do normal."Temos 60 dias para colher o milho. A procura é imensa, há escassez no mundo. Quando dá o ponto de colheita, de umidade, o produtor vai colher, ele tem de colher, não pode segurar", disse.

Outro problema para o milho é que a safra que foi plantada há pouco mais de um mês depende de trato cultural e, se o produtor precisar de defensivos agrícolas, pode não conseguir devido à situação provocada pelo coronavírus. "Um dente da engrenagem está quebrado, que é o isolamento. Se isso não se resolver, atrapalha tudo."

No estado, o isolamento tem atrapalhado ainda embarques, assistência técnica e mecânica, além de empresas que têm alegado que atrasarão pagamentos por não conseguirem retirar produtos de armazéns. Houve casos no estado de o município proibir por meio de decreto o transporte de produtos agrícolas para fora da cidade, como o de Canarana, para conter a disseminação do coronavírus.

O setor reclamou da medida e se reuniu com a prefeitura em busca de reverter a decisão, que poderia interromper o fluxo de mercadorias e operações de tradings que atuam no região. "Isso foi um absurdo. Na prática, o município estava proibido de fazer a colheita", disse.

Com REUTERS e FOLHAPRESS