Duas guerras do Paraguai: o saldo brasileiro na luta contra o coronavírus

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A man runs past the one hundred graves which were dug by activists of the NGO Rio de Paz on Copacabana beach symbolising the dead from the coronavirus disease (COVID-19), in Rio de Janeiro, Brazil, June 11, 2020. REUTERS/Pilar Olivares     TPX IMAGES OF THE DAY - RC207H9HAK1Z
Protesto da ONG Rio de Paz na Praia de Copacabana faz homenagem aos mortos por coronavírus no Brasil. Foto: Pilar Olivares/Reuters

A guerra era contra o vírus, mas antes mesmo da primeira centena de mortos o presidente da República, Jair Bolsonaro, resolveu mirar a testa de quem decidiu se confinar para evitar a circulação da doença por um ou no máximo dois meses de esforços conjuntos. Na época falar em achatar a curva ainda não era utopia.

A guerra era contra o vírus, mas as armas se voltaram, em forma de portaria que ampliou o acesso a munições, contra governadores e prefeitos orientados a evitar o morticínio.

O saldo é epidemia sem controle uma quarentena meia-boca sem data para acabar.

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A guerra era contra o vírus, mas candidatos a ministros, empresários sem escrúpulos e formadores de opinião sem vergonha de lamber botas decidiram se municiar contra os fatos num falso dilema entre salvar vidas e salvar a economia, como se a economia fosse feita de índices, não de pessoas.

A guerra era contra o vírus, mas quem foi alvejado foi o ministro da Saúde que ousou fazer a lição de casa, teimou em não acreditar em remédios milagrosos e manter um mínimo de respeito pela ciência e a medicina.

O resultado é um governo desfigurado, com três ministros da Saúde, uma gestão interina há três meses, dois terços dos investimentos previstos parados e sem projeto para testagem em massa até agora.

A guerra era contra o vírus, mas lá no dia 22 de abril alguém decidiu quis aproveitar as atenções na pandemia e abrir a artilharia contra as regras ambientais e, consequentemente, os povos originários da floresta.

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Os índices recordes de desmatamento e contaminação nas tribos da amazônia são o saldo do avanço da boiada.

A guerra era contra o vírus, mas alguém achou que era hora de desviar a rota do cometa produzido pelo Ministério Público do Rio e mudar o comando da Polícia Federal.

O resultado foi uma guerra interna com o ministro da Justiça que de aliado estratégico virou o inimigo a ser eliminado do jogo.

A guerra era contra o vírus, mas o procurador-geral da República, escolhido a dedo fora da lista tríplice, entendeu que era uma boa hora para atacar as forças-tarefas da Lava Jato num grande acordo nacional jamais visto.

A guerra era contra o vírus mas os aliados mais belicosos resolveram acampar na Praça dos Três Poderes em Brasília para pregar o golpe contra o Congresso e estourar rojões no Supremo.

O resultado é o avanço de inquéritos das fake news e dos atos atos democráticos que alimentam agora uma batalha jurídica entre Judiciário e plataformas digitais em torno da liberdade de expressão e da censura prévia.

A guerra era contra o vírus, mas o Ministério da Justiça decidiu monitorar e criar dossiês contra “inimigos” instalados no serviço público e que se intitulavam anti-fascistas.

A guerra era contra o vírus, mas a tradicional família brasileira decidiu bombardear com mentiras o youtuber mais influente do país porque ele ousou a contar lá fora o que acontecia por aqui.

A guerra era contra o vírus, mas professores, servidores e pais ajuizados precisarem construir trincheiras contra a irresponsabilidade para dizer o óbvio: sem vacina, sem dilema sobre aulas presenciais.

A guerra era contra o vírus, mas o que não faltam são caneladas entre quem defende e quem não defende a volta precoce do futebol.

A guerra era contra o vírus, mas um comentarista de rádio decidiu transformar um jogador expulso em inimigo da nação e usar sua pele negra para vislumbrar seu retorno à senzala e jogar sobre ele todos os traumas da história que deveria ser alvo hoje de reflexão, não chacota ou punição.

A guerra era contra o vírus, mas há quem prefira se indignar contra a tal “cultura do cancelamento” que, onde já se viu, que horror, reagiu em tempo real a manifestações do tipo racistas que vestem de “vacilo”, “vocês entenderam mal”.

A guerra era contra o vírus, mas é o vírus quem passa pelo portão arrebentado das brigas intestinas de quem aproveitou o momento para reforçar poderes e privilégios. As vítimas da pandemia são as vítimas de sempre de um sistema já suficientemente desigual.

Até a próxima semana o Brasil deve atingir a vergonhosa marca de 100 mil mortos por coronavírus, só nas contas oficiais. Será o dobro de brasileiros vitimados na guerra do Paraguai, a mais sangrenta da nossa história.

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