Coronavírus: 'parece férias', diz funcionária sobre forte movimento em mercado de SP

João Conrado Kneipp
·5 minuto de leitura
BELO HORIZONTE, BRAZIL - MARCH 31: People wearing protective masks queue for food packages at a local market on March 31, 2020 in Belo Horizonte, Brazil. Belo Horizonte city council started to distribute food packages to families of students enrolled in municipal schools. The initiative was developed to replace school meals, since classes are suspended due to the coronavirus (COVID-19). The distribution will last as long as classes are suspended, and each family will receive one package per month. (Photo by Pedro Vilela/Getty Images)
Movimento intenso em supermercado de Belo Horizonte, registrado no dia 31 de março. (Foto: Pedro Vilela/Getty Images)

Se o efeito das medidas restritivas de combate à pandemia do novo coronavírus é visível na redução do número de pessoas e veículos nas ruas, o mesmo não se pode dizer do movimento dentro dos supermercados da capital.

Os últimos balanços divulgados pela Apas (Associação Paulista de Supermercados) mostram que o ritmo das vendas tem retornado aos patamares normais após um frenesi nas compras registrado há 2 semanas, quando a população passou a superlotar os mercados atrás de mantimentos para estocarem em casa.

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Operadora de caixa de um mercado atacadista localizado na Zona Leste de São Paulo, Sirlei Dias*, de 40 anos, afirma que, para quem acompanha a pandemia “de dentro supermercado”, parece que está tudo normal “lá fora”.

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“PARECE FÉRIAS”, DIZ FUNCIONÁRIA

“As pessoas parecem que estão de férias. A gente vê famílias inteiras, com pai, mãe e crianças, fazendo compras todo mundo junto no supermercado. O governo pede para que quem puder ficar em casa, fique, e você vê um grupo indo fazer compras. Quando conversamos entre nós, os funcionários, falamos que parece que não está acontecendo nada grave do lado de fora do mercado. As pessoas estão saindo, passeando e fazendo compras, até itens de churrasco”. Sirlei Dias

Inclusive os mais idosos, que integram o grupo de risco da Covid-19, têm ignorado as recomendações do distanciamento social. “Você idosos todos os dias, indo diariamente lá. A preocupação é com a aglomeração de pessoas”, completa ela. Desde o início da pandemia, os funcionário recebem EPIs (equipamentos de proteção individual) para trabalharem.

Com o movimento equivalente ao de dias normais, a rede atacadista começou a restringir, desde o início desta semana, o número de pessoas circulando pelo interior do mercado. Até então, era feito apenas o controle do número de veículos no estacionamento. “As filas na porta ficam enormes”, diz a funcionária.

Além do barramento da entrada, a rede também decidiu liberar os funcionários que façam parte do grupo de risco da Covid-19. Trabalhadores acima de 60 anos, com hipertensão, diabetes ou que sejam portadores de outras doenças crônicas ou imunossupressoras estão sendo orientados a ficarem em casa.

“Mas mesmo assim, muitos funcionários estão com medo de irem até o RH e se identificarem como integrantes do grupo de risco temendo que sejam demitidos depois”, finaliza ela.

BRASILIA, BRAZIL - MARCH 20:  Local supermarket employee checks the temperature of her colleagues as the coronavirus (COVID-19) continues to Spread in Brazil, on March 20, 2020 in Brasilia, Brazil. According to the Ministry of Health, Brazil has over 600 confirmed cases of coronavirus (COVID-19) and at least 8 recorded fatalities. (Photo by Andre Coelho/Getty Images)
Funcionário de supermercado em Brasília tem a temperatura checada antes de voltar ao trabalho. (Foto: Andre Coelho/Getty Images)

ASSOCIAÇÃO VÊ MOVIMENTO NORMAL

As vendas nas lojas dos supermercados paulistas continuam relativamente em ritmo normal, somente abaixo do movimento do começo do mês de março, segundo a Associação Paulista de Supermercados.

Em seu balanço divulgado nesta quarta-feira (1º), a Apas apontou que as vendas foram 2,9% menores na segunda-feira (30), em comparação com o dia 2 de março - também uma segunda-feira. No entanto, o percentual representou um aumento no movimento do último fim de semana (27, 28 e 29), quando as vendas tinham caído cerca de 7,7%.

Apesar da queda, os dois índices seguem a linha da normalidade do movimento esperado para o mês. Entre os dias 13 e 26 de março, a busca por mantimentos nos supermercados da capital se manteve muito acima da média, com superávits nas vendas oscilando entre 8,5% e 48,5%, pico máximo do período, ocorrido no dia 19.

As vendas online subiram para 107% na semana de 23 a 29 de março, sendo que na semana anterior, de 16 a 22, o aumento foi de 74%.

“Nosso receio é agora o começo do mês, quando muitas pessoas voltam a receber o salário. Com certeza o movimento vai aumentar”, projeta a funcionária do atacadista.

OMS ALERTA PARA CRISE ALIMENTAR NO MUNDO

Em declaração conjunta incomum, os líderes de três organizações multilaterais de alimentação, comércio e saúde - FAO, OMC e OMS - alertaram para o risco de uma crise alimentar causada pela pandemia de coronavírus.

Existe o risco de "escassez de alimentos" no mercado mundial, devido a perturbações derivadas da COVID-19 no comércio internacional e nas cadeias de suprimentos, declararam neste comunicado o chinês Qu Dongyu, que chefia a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), e o brasileiro Roberto Azevêdo, líder da Organização Mundial do Comércio (OMC).

"As incertezas geradas sobre a disponibilidade de alimentos podem desencadear uma onda de restrições à exportação", o que, por sua vez, causaria uma "escassez no mercado mundial", afirmam. Para essas três organizações multilaterais, é "importante" garantir o comércio, "principalmente para evitar a escassez de alimentos", especialmente nos países mais pobres.

As três organizações também destacam a necessidade de "proteção" dos trabalhadores no campo, a fim de "minimizar a propagação do vírus no setor" e "manter as cadeias de suprimento de alimentos".

"Ao proteger a saúde e o bem-estar dos cidadãos, os países devem garantir que todas as medidas comerciais não perturbem a cadeia de suprimento de alimentos", acrescentaram os responsáveis da FAO, OMS e OMC.

"Em períodos como este, a cooperação internacional é essencial", acrescentam. "Devemos garantir que nossa resposta à pandemia da COVID-19 não crie, inadvertidamente, escassez injustificada de produtos essenciais e exacerba a fome e a desnutrição", concluem.

com informações da Agência Reuters