Coronavírus: por que o Brasil passou a China em número de mortes?

João Conrado Kneipp
·7 minuto de leitura
29 April 2020, Brazil, Manaus: Cemetery workers, followed by relatives of the dead wearing face masks against the spread of Covid-19, drive coffins to a mass grave. In view of the increasing number of corona infections, the health service in Manaus is at its limit. A refrigerated container for storing corpses was set up in front of a hospital, mass graves were dug. The number of Covid-19 related deaths in the country rose to 5017 - surpassing China, which officially registered 4643 deaths. The ultra-right-wing President Bolsonaro plays down the virus. Photo: Chico Batata/dpa (Photo by Chico Batata/picture alliance via Getty Images)
Brasil chegou, nesta semana, ao patamar de 5 mil mortes, enquanto a China estagnou em 4,6 mil óbitos pela Covid-19. (Foto: Chico Batata / via Getty Images)

O Brasil ultrapassou, nesta semana, a China em número de mortos pelo novo coronavírus. Até esta quarta-feira (29), o país onde a Covid-19 se originou tinha 4.637 óbitos confirmados, enquanto o Brasil já havia superado a casa dos 5 mil, com 5.466 vítimas fatais. Especialistas consultados pelo Yahoo Notícias apontam dois fatores fundamentais para essa dolorosa vantagem: a falta de testagem em massa, e a quebra do isolamento social.

O primeiro ponto destacado por eles é o baixo percentual da população que está sendo testada para a doença no Brasil, em comparação com o que foi feito no país asiático logo no início da epidemia. A avaliação do médico sanitarista Sergio Zanetta é que o Brasil diagnostica somente 20% dos infectados.

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“O número de pacientes positivamente diagnosticados é daqueles que tem casos graves. Os assintomáticos (que não manifestam sintomas), os oligossintomáticos (que manifestam poucos sintomas) e aqueles que tiverem apenas sintomas brandos e leves não entram nas estatísticas. Se eu estou diagnosticando somente os graves, tenho confirmado apenas cerca de 20% dos reais infectados”, explica o professor de Saúde Pública da Faculdade de Medicina do Centro Universitário São Camilo.

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O total de infectados no Brasil, segundo o próprio Ministério da Saúde divulgou nesta quarta, é de 78.162 pessoas. “Agora experimente multiplicar esses 20% por 5. Aí teremos um resultado mais fiel dos infectados no Brasil”, completa Zanetta.

A conta proposta pelo médico daria uma estimativa aproximada de 390 mil brasileiros infectados pela Covid-19.

QUAL A VANTAGEM DA TESTAGEM EM MASSA?

A prática de “testar, testar e testar”, como recomendou em 16 de março a OMS (Organização Mundial de Saúde), ajuda na criação de um panorama real da doença no país, proporcionando uma possibilidade de controle maior sobre o avanço do vírus.

Essa testagem em massa foi adotada em países como a Coreia do Sul, que chegou a realizar uma média de 15 mil testes por dia, e tem sido comprovadamente bem-sucedida. Com uma população de 51,6 milhões de pessoas, a Coreia do Sul tem só 10,7 mil casos confirmados da Covid-19, além de ter registrado apenas 246 óbitos.

O Ministério da Saúde tem informado que não tem dados fechados a respeito da contabilização nacional sobre o número de testes feitos. Dados compilados pelo site Worldometer, que reúne informações mundiais sobre a Covid-19, indicam que o Brasil tem testado uma média 1,5 mil pessoas a cada milhão de habitantes. A testagem não pode ser ampliada, até o momento, pela dificuldade de aquisição dos testes junto ao mercado global.

Enquanto isso, os Estados Unidos testaram 18,4 mil pessoas a cada milhão de habitantes; a Espanha, 30,2 mil; a Itália, 31,6 mil; e a Alemanha, 30,4 mil. Na América Latina, o Peru testou 8,9 mil pessoas para cada um milhão de habitante; o Equador testou 3,4 mil; o Chile testou 9 mil; e o Uruguai, 5,2 mil por milhão.

“Sem termos como testar e identificar os casos, não temos como tomar nenhuma medida para prevenir que aquele infectado dissemine a doença a partir disso. O correto, o ideal seria identificar um infectado, fazer uma busca ativa para encontrar os outros infectados (que tiveram contato com ele) que podem estar transmitindo a doença e recomendar a eles restrições maiores de circulação”, explica o infectologista Ricardo Vasconcelos, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

BAIXA ADESÃO AO ISOLAMENTO SOCIAL

A recomendação do infectologista da busca ativa e isolamento vai ao encontro justamente do segundo ponto enumerado por ambos do porquê a Covid-19 matou mais no Brasil do que em seu país de origem: o isolamento social adotado por lá frente ao praticado aqui.

No dia 23 de janeiro, quando a China tinha somente 630 casos confirmados e 18 mortes, sete mega-cidades foram colocadas em lockdown total pelo governo chinês: Wuhan - o ponto central da doença no mundo -, Huanggang, Zhijiang, Ezhou, Qianjiang, Chibi, e Xiantao. Somadas, as populações das sete cidades alcançam 23 milhões de pessoas. Posteriormente, esse lockdown foi expandido, chegando a abranger 50 milhões de chineses.

A reação imediata da China, segundo Zanetta, foi fundamental e só ocorreu porque o país tem experiências com outras epidemias de vírus respiratórios, como a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2002, e a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) em 2012.

“E quando falamos do lockdown de lá não é igual ao isolamento que praticamos aqui. É paralisar tudo e colocar em quarentena todo mundo. O resultado prático dele é que a China é o único país que conseguiu controlar a epidemia com 3 meses, parando em pouco menos de 83 mil casos confirmados”, detalhou o sanitarista Zanetta.

O infectologista Vasconcelos alerta que o que há no Brasil é a recomendação de “ficar em casa” e não um lockdown com sanções previstas pelo governo para quem quebrá-lo.

“A partir do momento que a China percebeu que o isolamento social era efetivo para controlar a transmissão e aumento dos novos casos, eles fizeram um lockdown completo, que é o confinamento mesmo, muito muito rígido. Muitíssimo mais rígido do que temos aqui no Brasil. Aqui temos a recomendação que as pessoas fiquem em casa, não é nem de perto um lockdown como foi feito na China ou na Itália”, completa ele.

Vasconcelos acredita que, diferentemente da situação da China onde a Covid-19 foi controlada rapidamente, o cenário no Brasil poderá seguir a sina dos Estados Unidos. “Se você perguntar se vamos ter uma epidemia parecida com a da China, olhando a curva de casos que eles tiveram, ou com a dos Estados Unidos, sem dúvida será com a dos EUA. O que infelizmente é muito pior”, finaliza.

SEM PREVISÃO DO PICO

Nesta quarta, o ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou em audiência virtual no Senado que ninguém sabe quando será o pico de contaminação do novo coronavírus no Brasil uma vez que ainda são necessárias mais informações sobre a doença.

“Não sei e ninguém sabe”, disse Teich em resposta a questionamento de um parlamentar durante a audiência sobre quando será o pico da doença, repetindo o que tem dito nos últimos dias que ainda é preciso obter mais informações.

Segundo ele, as projeções são feitas a partir de suposições com base em modelos, e não é possível elaborar um plano de longo prazo devido às incertezas que cercam a pandemia. Teich também ressaltou que as diferentes regiões do país terão momentos distintos de auge dos casos.

Teich, que assumiu o cargo em 17 de abril no lugar de Luiz Henrique Mandetta, ainda não apresentou um plano de ação abrangente para enfrentar a pandemia. Ele tem insistido na necessidade de se colher dados para definir diretrizes.

“Falta de informação é uma coisa que não te permite enxergar o que está acontecendo”, afirmou, ressaltando, no entanto, que o ministério está trabalhando. “A gente trabalha e tem ação o tempo todo, e ao mesmo tempo continua colhendo informação”.

O ministro foi convidado à sessão remota do Senado desta quarta-feira, por videoconferência, para falar das ações da pasta no combate à crise do coronavírus, incluindo as providências tomadas em relação a Estados e municípios.