“Coronavírus só está expondo um preconceito com pessoas amarelas”, afirma atriz

A família da mãe de Ana Hikari é japonesa, enquanto a do pai tem origens negras - Foto: Fernanda Nakandakari e Rossana Sumie

Antes mesmo de o coronavírus chegar ao Brasil, a atriz Ana Hikari enfrentou um caso de preconceito no pré-carnaval. Ela estava em uma festa, na fila do banheiro quando um homem disse para ela “sair com esse coronavírus”. Tudo que Ana conseguiu responder foi “sai com seu racismo”.

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Antes disso, a mesma pessoa já tinha chamado Ana de “miss filipinas”. “Como se tudo que está no leste asiático fosse igual para as pessoas”, diz.

A atriz viveu Tina em Malhação – Viva a Diferença, que voltou ao ar na última segunda-feira, 23, com a mudança de programação da Globo, dada a interrupção das gravações, por causa do coronavírus. Os avós maternos de Ana são japoneses e a mãe nasceu no Brasil. Já o pai tem origens negras. “Mas se eu chego em um lugar e as pessoas só me veem como chinesa.”

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“Fiquei muito chateada, porque já tinha visto na internet relatos de pessoas que estavam sofrendo discriminação, mas você nunca acha que vai acontecer com você”, desabafa. Na avaliação de Ana, o preconceito com pessoas amarelas não é uma novidade, “o coronavírus só está expondo isso”.

A atriz questiona a utilização de fotos de pessoas asiáticas para ilustrar casos da doença ou novas informações. “Primeiro caso de coronavírus no Brasil era uma pessoa que veio da Itália, não uma pessoa amarela, e alguns lugares usaram mesmo assim”, aponta.

Outro aspecto que levantado por ela são as falas de autoridades, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de usar o termo “vírus chinês”. “As pessoas precisam entender que não dá para reduzir uma doença a uma raça. Isso só vai gerar atitudes violentas e discriminatórias”, reforça.

“Queria de coração que as autoridades estivessem trazendo mais informação de fato, porque um deputado falar que é vírus chinês é uma ignorância”. Ana relembra o fato de o deputado federal Eduardo Bolsonaro ter dito que é normal doenças serem chamadas pelo nome do país de origem, como “a gripe espanhola”.

A informação está incorreta. O nome não foi dado porque a doença começou na Espanha, mas porque a pandemia era amplamente divulgada na mídia do país durante a Primeira Guerra Mundial.

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RACISMO

Ana explica que o que pessoas amarelas sofrem também é racismo. “Não é racismo estrutural como pessoas negras sofrem, que faz com que elas não tenham acesso à educação e saúde de qualidade. É bem diferente de ser amarelo e é ainda mais diferente de você ser branco. O cerne da questão é a hegemonia branca. É isso que gera opressão de pessoas negras.”

A atriz ainda falou sobre a ideia de minoria modelo: “nós, enquanto amarelos, fomos muito usados como ferramenta de opressão de pessoas negras”. Isso é feito à medida que pessoas usam argumentos de que asiáticos são destaque intelectual ou que não há asiáticos em situação de rua para diminuir pessoas negras.

PARA APRENDER

Há diversas atitudes e brincadeiras que brancos fazem com amarelos que podem parecer “inofensivas”, mas, na verdade, ofendem, sim. Ana, por exemplo, não gosta de ser chamada de “japa”.

Para quem quer aprender mais sobre a causa amarela, a atriz recomenda alguns canais no Youtube, como Yo Ban Boo, o canal do youtuber Leo Hwan e também o do Victor Han – que também foi chamado de ‘coronavírus’ na rua.

“Tem muita gente discutindo isso na internet, agora na quarentena a gente pode aproveitar para se informar”, recomenda.