Coronavírus: presente nas periferias, maiores igrejas evangélicas não suspendem cultos

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Pastor ouvido pelo Alma Preta defende que a pandemia requer conscientização das lideranças religiosas para a suspensão dos cultos presenciais e compartilhamento de informações à distância. Foto: Divulgação
Pastor ouvido pelo Alma Preta defende que a pandemia requer conscientização das lideranças religiosas para a suspensão dos cultos presenciais e compartilhamento de informações à distância. Foto: Divulgação

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire

Apesar de o Ministério da Saúde recomendar que as pessoas não saiam de casa em meio à pandemia do Covid-19, o novo coronavírus, as maiores igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais não fecharam as portas. Com forte presença nas periferias, congregações como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus são frequentadas maioritariamente pela população negra.

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As pessoas negras compõem quase 60% do público dessas igrejas, conforme indica um levantamento do Instituto Datafolha, divulgado em janeiro deste ano. Para o teólogo, historiador e defensor dos direitos humanos, Henrique Vieira, pastor da Igreja Batista do Caminho, o momento é de as lideranças religiosas se conscientizarem, suspenderem os cultos presenciais e exercerem o papel de manter a população informada.

“Promover cultos presenciais neste momento de pandemia é faltar com o cuidado da saúde das pessoas. As igrejas não devem se reunir presencialmente, no entanto, devem ser disseminadoras de informação, o que é fundamental agora. Isso pode ser feito pelos mecanismos que as unidades dispõem, como grupos no WhatsApp. O ambiente virtual também é aliado no aconselhamento religioso durante a quarentena”, defende.

Vieira explica que a responsabilidade das igrejas diante da pandemia do novo coronavírus está ligada ao fato de toda igreja ser uma instituição religiosa e social por lidar o tempo todo com questões emocionais das pessoas, especialmente nas periferias. 

“As igrejas crescem nas camadas populares, ou seja, estão nas periferias, na ponta, no dia a dia de quem luta pela sobrevivência, como é o caso da população negra, que enfrenta ainda o racismo estrutural responsável pela violência e vulnerabilidade social”, pontua.

As secretarias estaduais de Saúde divulgaram, até a manhã desta sexta-feira (20), a confirmação de 650 casos de Covid-19 no Brasil. Há ocorrências em 22 estados e no Distrito Federal, com o registro de cinco mortes em São Paulo e duas no Rio de Janeiro.

Quase 80% da população que depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) se autodeclara negra, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Esse segmento populacional, majoritário nas periferias, deve ser o mais prejudicado pela pandemia do novo coronavírus caso o número de contaminados continue a aumentar, conforme alerta o médico, fundador e membro da direção executiva do Instituto Equânime Afro Brasil, Maicon Nunes, em recente entrevista ao Alma Preta. “Se chegarmos a registrar 45 mil casos e precisarmos de Unidades de Tratamento Intensivas (UTIs) para 5%, haverá um colapso no sistema”, disse.

Justiça e suspensão de cultos 

A fim de evitar aglomerações e a disseminação do vírus, na quinta-feira (19) o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) moveu uma ação pública contra o empresário e pastor Silas Malafaia, da Igreja Assembleia de Deus, pedindo a suspensão de cultos ministrados por ele. Malafaia havia afirmado que só deixaria de realizar os cultos mediante decisão judicial.

A Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido feito pelo Ministério Público e manteve a realização dos cultos de Malafaia.  Em sua decisão, o juiz Marcello de Sá Baptista, do Plantão Judicial, defendeu que a suspensão dos cultos deve partir do poder Executivo e não do Judiciário.

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo empresário e bispo Edir Macedo, também não suspendeu suas atividades em todas as regiões com casos confirmados e suspeitos de Covid-19. Em publicação no site da congregação, a igreja informou que suspendeu os cultos presenciais somente nas localidades onde foi decretado o fechamento de todos os templos religiosos.

O Alma Preta procurou as igrejas Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus e questionou sobre quais medidas foram adotadas para proteger os frequentadores da pandemia do novo coronavírus. Até a publicação desta reportagem, nenhuma das igrejas se manifestou.

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