Coronavírus: como ficou São Paulo após 14 dias de quarentena na pandemia

Capital registrou somente um ponto de engarrafamento nesse período. (Foto: Rodrigo Paiva/Getty Images)

As duas primeiras semanas de quarentena devido à pandemia do novo coronavírus trouxeram, literalmente, novos ares à cidade de São Paulo. A redução brusca no fluxo de veículos nas ruas e avenidas da capital fez com que os engarrafamentos diários sumissem do mapa, e a qualidade do ar apresentasse uma significativa melhora em pontos onde a poluição era rotina. Ao mesmo tempo, menos pessoas na rua também indica menos atividade comercial.

Desde o dia 16 de março, quando o governo João Doria anunciou as primeiras medidas restritivas - inicialmente a recomendação de distanciamento, e depois a decretação da quarentena -, São Paulo registrou somente um único engarrafamento.

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Foi no dia 26 de março, na Avenida Salim Farah Maluf, na Zona Leste, quando o helicóptero Águia, da Polícia Militar, precisou pousar na pista para realizar o resgate de uma vítima de acidente de trânsito. A avenida precisou ser fechada, provocando um congestionamento de 3 quilômetros.

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Fora essa ocorrência, nenhum outro engarrafamento foi registrado pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) desde o dia 16 de março até esta sexta-feira (3 de abril) nos mais de 800km de vias da cidade que são monitorados pelo órgão.

Para efeitos de comparação, o trânsito esperado para São Paulo na última terça-feira (31) tinha picos de 83km e 89km de engarrafamentos, às 9h e às 18h30, respectivamente. A estimativa mínima da soma dos engarrafamentos na cidade era de, pelo menos, 25km por volta das 7h.

No gráfico abaixo, fornecido pela CET, a linha vermelha - no zero - representa o volume realmente registrado de congestionamentos no dia 31.

Estimativa do trânsito feita pela CET para São Paulo no dia 31 de março. Em verde, a mínima dos engarrafamentos; em azul, a estimativa máxima. Em vermelho, no zero, os engarrafamentos registrados. (Foto: Reprodução/CET)

QUALIDADE DO AR

Menos veículos nas ruas significa menos emissão de poluentes, principalmente o monóxido de carbono (CO).

Desde 20 deste mês, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) tem registrado em todas as 29 estações de monitoramento da Região Metropolitana de São Paulo qualidade do ar no parâmetro “boa” para os poluentes.

As amostras revelam que os índices de poluentes primários, que são aqueles emitidos diretamente pelas fontes poluidoras (como carros, motos e caminhões, por exemplo), não representam um risco à saúde da população paulistana.

Céu cinzento da cidade de São Paulo em um dia 'comum'. (Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)

As estações que apresentaram as mais expressivas melhoras na qualidade do ar referente ao CO são exatamente às localizadas mais próximo das grandes vias.

Do dia 20 a 30 de março, a concentração máxima de CO registrada pela Cetesb foi de 1 ppm (parte por milhão), na estação de medição da Ponte dos Remédios, na Marginal Tietê. O padrão para essa mesma estação em um dia regular de trânsito, e de emissão de poluentes, seria de 9 ppm.

Na tradução, o ar naquela estação apresentou um índice 8 vezes melhor do que normalmente teria.

A química Maria Lúcia Guardani, gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, explica a importância de um ar mais respirável em meio à pandemia de um vírus que compromete o sistema respiratório. “Qualidade do ar boa significa que não existe risco para a saúde da população. Qualidade do ar é saúde pública e todos nós somos responsáveis. Qualidade boa significa saúde, significa que não corremos risco ao respirar, e é qualidade de vida também”.

Qualidade do ar na região da Ponte dos Remédios ficou 8 vezes melhor do que em um dia regular de trânsito na capital. (Foto: Divulgação/Cetesb)

QUEDA NO COMÉRCIO E ARRECADAÇÃO

Na contramão, a determinação de quarentena também obrigou comerciantes fora da lista dos serviços essenciais a fechar as portas. Um balanço feito pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo) analisou as vendas e atividade comercial durante a segunda quinzena de março - exatamente o período em que as medidas restritivas foram endurecidas.

Nesses dias, as vendas do comércio paulistano registraram queda média de 53,4% na comparação com a segunda quinzena de março de 2019. As vendas a prazo, que incluem bens duráveis como eletrodomésticos, registrou queda de 61,7%. Já as vendas à vista, ou de bens não-duráveis, como vestuários e calçados, desabaram 45%.

Na comparação do mês inteiro, março de 2020 foi 27% abaixo do que o mesmo mês em 2019.

“Começamos o mês com uma conjuntura, mas encerramos com outra”, afirma Alfredo Cotait, presidente da ACSP. “Porém, vale lembrar que esses são dados preliminares do comércio físico, que não incluem o setor supermercadista nem as vendas pela internet, já que muitos que não conseguiram comprar em lojas físicas, acabaram comprando on-line”, completa o presidente.

Comércios fechados por conta da pandemia. (Foto: Igor Do Vale/NurPhoto via Getty Images)

Um levantamento da APAS (Associação Paulista de Supermercados) mostrou que o movimento nos supermercados segue quente. “As pessoas parecem que estão de férias. A gente vê famílias inteiras, com pai, mãe e crianças, fazendo compras todo mundo junto no supermercado”, afirmou uma funcionária ao Yahoo Notícias. Confira a matéria completa sobre o movimento nos supermercados da capital aqui.

A queda de 53,4% nas vendas impactou diretamente na arrecadação de tributos em todo o país e não somente em São Paulo. A estimativa da ACSP é que a arrecadação tributária brasileira poderá cair cerca de 26% em 2020 devido ao novo coronavírus.

No início do ano, a expectativa era arrecadar R$ 2,80 trilhões em impostos, porém novos ajustes no Impostômetro da ACSP, feitos pelo IBPT (Instituto brasileiro de Planejamento e Tributação) fez com que a nova realidade tributária do país caísse para R$ 2,05 trilhões.

O economista da ACSP Ulisses Ruiz de Gamboa afirma que a pandemia do novo coronavírus afeta o comércio em duas frentes. “Primeiro temos o isolamento, que faz com que as pessoas vão menos à rua e consequentemente comprem menos. Aliado a isso, tem o receio de perderem sua renda e emprego. É uma queda fora de comparação. Dificilmente teremos resultado positivo nas vendas do varejo esse ano. Não temos na história moderna do Brasil uma situação como essa. Vai ser uma queda muito forte”.