Coronavírus: alguém ainda acha que vamos sair melhores da pandemia?

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Unable to marshal the right cells and molecules to fight off the invader, the bodies of the infected instead launch an entire arsenal of weapons — a misguided barrage that can wreak havoc on healthy tissues, experts said. (Getty Images)
Foto: Getty Images

Quando a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia do coronavírus, em março de 2020, a humanidade teve a chance de se olhar ao espelho e se questionar como chegamos até aqui.

De Wuhan ao nosso vizinho contaminado, a rapidez com que a doença avançava levou pensadores de áreas diversas a refletir sobre o ritmo e os velhos modelos de um mundo prestes a explodir.

Da enxurrada de (más) notícias que se avolumavam de lá pra cá, algumas previsões se sobressaíam. Uma delas dizia que, devido à restrição de circulação de bens e mercadorias, criaríamos redes locais de abastecimento que fatalmente reforçariam os laços comunitários. Era chegada a hora e a vez do dono do varejão da esquina. Criaríamos, assim, alternativas que diminuiriam a dependência de grandes centros produtores, a maioria localizada na China --o que impactaria também no meio ambiente e na super-dependência de combustíveis fósseis para fazer a mercadoria circular.

Em outras palavras, iríamos consumir menos e deixaríamos de lado o que era acessório.

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Outra previsão era que, durante os dias em que passaríamos trancados em casa, teríamos tempo para nos redescobrir e ressignificar nossas relações familiares. As crianças não teriam mais aula, mas e daí? Longe da pressão para acordar cedo, pegar trânsito e bater cartão longe dali, teríamos um campo infinito de elaborações lúdicas e afetivas com quem até então só víamos nos finais de semana.

Ah, sim: o surgimento de um inimigo comum, diziam as previsões mais otimistas, nos uniria e faria com que deitássemos ao chão as armas das discordâncias, sobretudo políticas, que marcavam nosso convívio pelo menos de 2016 para cá (ou 2013, para os mais precoces). Seriamos mais solidários, ajudaríamos os vizinhos em caso de emergência, nos colocaríamos à disposição para atravessar as áreas conflagradas e altamente contagiosas para buscar mantimentos para o inverno dos mais velhos e aprenderíamos, a duras penas, a valorizar todo canto da casa que, de repente, se transformou em universo.

Aprenderíamos a cozinhar, ficaríamos menos dependentes de fast food e de outras iguarias que nos levavam ao sedentarismo no corre das ruas e das rotinas dos centros urbanos; criaríamos anticorpos e estaríamos, assim, em equilíbrio entre saúde física e mental.

“Os povos levarão ensinamentos desta crise para repensarem suas vidas. Vamos sair melhores, em menor número, claro. Muitos ficam pelo caminho que é duro. Porém, tenho fé: vamos sair melhores”, prometia o Papa Francisco.

Pode até ser que alguém tenha saído melhor e mais fortalecido da crise, mas eu não conheço.

No Brasil, o esforço político em boicotar todas as orientações das autoridades sanitárias nos legou uma guerra permanente que se recicla toda vez que alguém levanta lorotas sobre vermífugos e cloroquina. Não estamos só cansados de ficar em casa. Estamos cansados de briga. Porque nunca ficamos tão longe de um entendimento mínimo sobre regras básicas de convívio (do tipo poder ou não tossir na cara de alguém) quanto agora.

Foi assim para as calendas a história de que estaríamos mais unidos para atravessar momento tão difícil e bla-bla-bla.

Hoje, diante da disputa, mediada por chineladas diplomáticas, para obter insumos dos mesmos polos de produção industrial e insumos farmacêuticos de sempre, parece uma grande fantasia aquela ideia de que a pandemia nos levaria a fortalecer o comércio local e não o modelo insustentável baseado em grandes viagens, grandes deslocamentos, alto consumo de combustíveis e alto impacto ambiental.

A briga a cotoveladas para sair na frente de uma fila mal organizada para receber as primeiras doses da vacina, que só provam nossa dependência dos mercados asiáticos, jogou por terra a ideia de que sairíamos mais solidários da crise. Uma coisa é trazer encomenda do supermercado para o senhorzinho da rua. Outra é vê-lo tomar a dianteira no direito à vacina, o objeto mais desejado desses tempos. Solidariedade tem limite, e nessas horas vale qualquer artifício, entre filhos de prefeito e secretários que se autoproclamam agora profissionais de serviços essenciais.

Antes, flagrantes de festas com aglomeração, carteiradas contra fiscais, sabotagem dos esforços pelo distanciamento social e uso obrigatório de máscaras se proliferaram como vírus em episódios de má cidadania explícita, estimulados pelo próprio presidente da República. Por aqui a ideia de bem coletivo se provou tão firme quanto as cruzes espalhadas na areia de Copacabana em protesto pelas mortes na pandemia --retiradas, uma a uma, por quem teimava em seguir a normalidade e fugir do assunto como quem evita a morte.

Tudo isso faz com que acompanhemos com um suspiro profundo as novas restrições anunciadas pelo governo paulista para evitar o colapso do sistema de saúde local. Para quem imaginava que, a essa altura, “fase vermelha” seria o termo de uma memória longínqua, a sensação de que estamos presos em um ano que não acabou chega com o agravante do cansaço. Com a exceção da vacina, já não temos motivo para olhar com otimismo para o futuro projetado ao fim dos esforços coletivos para a contenção do vírus que deveriam durar um, dois meses, e já chegam a quase um ano.

As notícias sobre os fura-filas da vacina são a pá de cal sobre qualquer esperança na humanidade. Quem esperava, em 2021, um grande carnaval para celebrar a retomada da vida pré-pandemia e hoje clama apenas por oxigênio.

Falhamos.

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