Com medo de coronavírus, população escancara xenofobia e racismo

Coronavírus já matou cerca de 100 pessoas. Foto: Pixabay

O surto de coronavírus já matou cerca de 100 pessoas e já atingiu mais de 15 países. No entanto, a ameaça não está comprovada no Brasil. Mesmo assim, uma combinação de falta de informação com preconceitos enraizados em nossa sociedade faz com que parte da população veja a comunidade chinesa presente no País como uma ameaça.

Segundo especialistas ouvidos pelo Yahoo, esse medo não faz o menor sentido e só mostra que o problema das fake news e do racismo precisam ser controlados com mais entusiasmo do que a própria doença.

De acordo com o professor Cláudio Falcão, diretor do Sistema de Ensino PH, “o verdadeiro vírus é o preconceito”. “Talvez seja mais fácil de combater a doença do que o racismo. Para esse problema, não existe uma vacina ou um remédio que ajude a curar isso a curto prazo. A humanidade luta contra o preconceito racial há muitos anos”, afirma.

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Falcão afirma que, depois da segunda guerra mundial, as pessoas passaram a prestar mais atenção em questões que diziam respeito aos direitos humanos. Porém, ele constata que, em situações em que o medo aparece de forma latente, a humanidade passa a utilizar argumentos racistas para segregar pessoas.

Um exemplo histórico desse tipo de comportamento foi quando, nos anos 80, as pessoas diziam que o vírus da Aids estava diretamente ligado às pessoas homossexuais. Com o tempo, foi comprovado que a doença atingia as pessoas heterossexuais também. No entanto, algumas pessoas continuam usando isso como argumento para atitudes homofóbicas até hoje.

De acordo com o professor Sebastian Fuentes, do Anglo Vestibulares, o problema vai muito além de uma doença específica. “A questão é que as pessoas já tinham preconceitos contra os homossexuais, mas isso não se justificava por absolutamente nada”, diz.

“Então, algumas pessoas enxergaram nisso uma maneira de justificar o preconceito dizendo que a Aids poderia ser contagiosa e que, por isso, não se podia nem encostar em um gay. Mas sabemos que isso é irreal”, afirma.

Falcão concorda com Fuentes e acrescenta que a homofobia, o machismo e o racismo sempre vão enxergar o outro como uma ameaça. Portanto, de acordo com o raciocínio dessas pessoas, o mal só pode vir de alguém que é diferente. “Se eu já não tolero o outro, a doença vem como uma desculpa para o meu preconceito”, explica.

Fuentes também lembra da crise de ebola como um outro episódio que gerou pânico entre a população e fez com que casos de racismo fossem escancarados. “Assim que ele chegou no Brasil, as pessoas viam nas notícias que ele era trazido pelos africanos. O problema de você colocar uma localização na origem dessa doença é que você atrai uma xenofobia”, explica.

“Muitas pessoas pensam que africano é a mesma coisa que negro e que qualquer negro pode estar contaminado com ebola. Muitas pessoas pensam que o branco não pode pegar a doença. Eu me lembro de ouvir falar que ebola era uma coisa de negro, de ex-escravo… eram coisas bem pesadas, mas que estavam no dia a dia”, afirma.

Agora, com o coronavírus, algumas pessoas estão usando a doença como uma desculpa para jogar todo tipo de preconceito contra asiáticos, em especial, contra a comunidade chinesa.

“Eu vi uma reportagem que dizia ‘veja quais são as doenças originárias da China’. Uma pessoa vê uma reportagem como essa e ela começa a achar que a China é um lugar que tem muitas doenças. É um problema de comunicação. Aliado a isso, temos as fake news que são passadas pelo WhatsApp. Isso gera pânico nas pessoas”, diz.

“Também vi um jornal francês que publicou uma reportagem chamando o coronavírus de ‘perigo amarelo’, o que é completamente xenofóbico. Também falaram que o vírus estava em uma sopa de morcego, o que já foi provado que estava errado. E, com essas matérias, apareciam fotos de chineses comendo essa sopa”, afirma.

Isso, segundo ele, traz uma impressão de que essas pessoas são “selvagens”. No entanto, o professor lembra que no Brasil, por exemplo, comemos coração de galinha e tripa, o que também pode ser visto por outros países como algo fora do comum.

Segundo Falcão, é preciso que a população se preocupe mais com as causas desse tipo de doença como o desmatamento, o consumo de carne e a urbanização desenfreada de áreas que pertenciam aos animais. “A globalização favorece o contato com esse vírus. Porém, por outro lado, ela faz com que exista uma maior estratégia de combate e controle a ele”, diz.