Corpo de adolescente morto em operação em São Gonçalo é enterrado com pedidos de “justiça”

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O pai de João, Neilton, debruçado sobre o caixão do filho

Foi enterrado na tarde desta terça-feira, no cemitério São Miguel, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, o corpo do adolescente João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, morto durante uma operação no Complexo do Salgueiro, no mesmo município. Antes da cerimônia, amigos e parentes fizeram um ato na porta do cemitério pedindo justiça. João Pedro morreu após ter sido baleado em uma ação conjunta das polícias Civil e Federal.

O ato e o enterro foram marcados por grande emoção entre amigos e familiares. O pai de João, Neilton Mattos, precisou ser amparado por amigos durante o enterro. Em determinado momento, ele debruçou-se sobre o caixão do filho.

Um dos objetivos da operação que terminou com a morte do adolescente era prender o traficante Ricardo Severo, o Faustão, de 41 anos, acusado de controlar o tráfico de drogas na localidade. Segundo fontes da Polícia Civil, durante a ação, o criminoso e cerca de dez seguranças correram para uma rua que fica atrás da casa de João Pedro, na Praia da Luz, na Ilha de Itaoca.

Três agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) chegaram à via e houve um intenso confronto. Para escapar, os bandidos pularam os muros de várias residências. Na fuga, alguns passaram por dentro do terreno da casa onde a criança estava, atirando e lançando granadas. Os agentes revidaram. Na troca de tiros, João Pedro foi baleado. Ele foi levado por um de seus primos para o local onde o helicóptero da Core havia pousado. O adolescente foi socorrido pela aeronave.

Inicialmente, ele foi levado para a base do Serviço Aeropolicial (SAER) da Core, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. De lá, ele seria levado para o Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, mas foi constatada a sua morte por um médico do Corpo de Bombeiros no momento em que o helicóptero pousou. Ao lado do SAER, funciona uma unidade do Corpo de Bombeiros, o Grupamento de Operações Aéreas (GOA), por isso os agentes da Core fizeram contato com os militares, que disponibilizaram uma ambulância na qual João seria levado ao Miguel Couto.

A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo está apurando as circunstâncias em que João Pedro foi baleado. De acordo com o delegado titular da unidade, Allan Duarte, apenas os policiais da Core participaram do confronto que terminou com a morte do adolescente. As armas de três agentes da coordenadoria foram apreendidas para um possível exame de confronto balístico.

De acordo com fontes ouvidas pelo EXTRA, a operação realizada no Complexo do Salgueiro foi planejada pela Polícia Federal, que possuía informações de inteligência da quadrilha. A Core foi acionada para dar apoio à ação.

O pai de João Pedro, Neilton Mattos, deu um relato emocionado ao RJTV, da TV Globo, no início da tarde desta terça, na porta da 72ªDP (Mútua). Dono de um quiosque na Praia da Luz, próximo ao local onde tudo aconteceu, Neilton disse que estava trabalhando e que ouviu os tiros, mas que não poderia imaginar o que estava acontecendo. Mais de uma vez, afirmou que os sonhos de seu filho foram interrompidos pelos policiais.

– Eu estava bem próximo, trabalhando com a minha cunhada, quando escutamos o barulho do helicóptero dando rasante, bem baixo. Já ficamos preocupados com as crianças que estavam lá (em casa) jogando. Queríamos ir, mas estávamos preocupados com o helicóptero. Resolvemos, então, esperar um pouco. Aí, decidimos ir, e, quando chegamos lá, os policiais da Core e da (Polícia) Federal estavam com os cinco adolescentes sentados, como bandidos, mas não são bandidos, são apenas adolescentes, não traficantes. Estavam ali, na quarentena, juntos jogando, só que percebi que faltava um adolescente, meu filho, João Pedro – contou o pai.

Ele disse que ficou sabendo da morte do filho pelo sobrinho, Natan, que aos prantos, contou o que havia acontecido.

– Quando cheguei, perguntei: cadê o João Pedro? E o primo dele, Natan, chorando, disse que o João Pedro havia sido baleado, um jovem com 14 anos. Um jovem com um futuro brilhante pela frente, um jovem que sabia o que queria para o seu futuro, no 9ºano, já quase terminando seus estudos, querendo ser alguém na vida... mas infelizmente a polícia interrompeu o sonho do meu filho – afirmou, emocionado.

Por fim, Neilton também falou sobre a forma como os policiais chegaram a sua residência. E voltou a afirmar que a polícia matou João Pedro e interrompeu os sonhos do menino.

– A polícia chegou lá de uma maneira tão cruel, atirando, jogando granada, sem ao menos perguntar quem era. E eu entendo que se eles conhecessem a índole do meu filho, quem era meu filho, eles não fariam isso. Porque meu filho é um estudante, o meu filho é um servo de Deus. A vida do meu filho era a casa, igreja, escola e jogo no celular. Era isso. Foi para isso que eu estava criando ele. Mas, infelizmente, interromperam o sonho do meu filho.

O pai de João Pedro mandou um recado para o governador, Wilson Witzel:

- Quero dizer, senhor governador, que a sua polícia não matou só um jovem de 14 anos com sonho, com projetos, querendo ser alguém na vida. A sua polícia matou uma família completa. Matou um pai, uma mãe, matou uma irmã e, principalmente, o João Pedro. Foi isso que a sua polícia fez com a minha vida - afirmou.

No Twitter, Witzel lamentou a morte do adolescente. “Lamento profundamente a morte do adolescente João Pedro. A operação da Polícia Federal, que teve o apoio da Polícia Civil, precisa ser apurada. Vamos investigar até que os culpados sejam responsabilizados. Meus sentimentos à família. Sou pai e entendo essa dor”, escreveu o governador do Rio.