Corpo de Bombeiros não vistoriou nenhum dos carros alegóricos que desfilaram na primeira noite no Sambódromo

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Nenhum dos carros alegóricos das escolas de samba da Série Ouro que desfilaram na primeira noite do carnaval, na Marquês de Sapucaí, foi vistoriado e recebeu autorização do Corpo de Bombeiros para entrar na Avenida. A informação foi dada pela corporação na noite desta quinta-feira, dia 21, menos de 24 horas depois que a menina Raquel Antunes da Silva, de 11 anos, teve as pernas imprensadas num acidente, 300 metros após a dispersão, com uma alegoria da escola Em Cima da Hora. A criança precisou passar por uma cirurgia e teve uma das pernas amputada. Ela está em estado gravíssimo no Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro.

Segundo o Corpo de Bombeiros do Rio informou que, por três vezes, tentou notificar a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Lierj) para informar que nenhuma das escolas do antigo Grupo de Acesso tinham pedido a vistoria para seus carros alegóricos.Por conta disso, de acordo com a corporação, nenhum deles tinham autorização para desfilar.

De acordo com os bombeiros, a última tentativa aconteceu horas antes de os desfiles começarem, na noite de quarta-feira. Para esta quinta-feira, apenas quatro das oito escolas solicitaram a vistoria. Uma das escolas que não solicitaram o pedido para a análise foi a Em Cima da Hora, agremiação de Cavalcanti, na Zona Norte do Rio. No Grupo Especial, todas as escolas já protocolaram seus documentos, que estão sendo analisados.

De acordo com os bombeiros, no dia 12 de abril a corporação "enviou um ofício para a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) informando que nenhuma das agremiações para o Grupo e Acesso (Série Ouro), Grupos B,C e D, que desfilam na Av. Intendente Magalhães, e para o Grupo Especial tinham protocolado junto a Diretoria Geral de Diversões Públicas (DGDP) da corporação requerimento de regularização de seus carros alegóricos".

Ainda de acordo com o Corpo de Bombeiros, "no dia 18.04, o CBMERJ protocolou um novo documento informando à Liesa quais as escolas de samba haviam entrado com o pedido de regularização de seus carros alegóricos". Ontem, segundo a instituição, "no primeiro desfile da Série Ouro, nenhuma delas estava com seus carros regularizados junto ao Corpo de Bombeiros".

De acordo com a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros, o documento enviado à Liesa foi assinado pela Diretoria Geral de Diversões Públicas (DGDP), aonde são tramitadas as liberação para os fogos e para os carros alegóricos".

Questionados sobre as possíveis punições as escolas, o Corpo de Bombeiros informou que "quando não há a regularização, cabe a liberação do desfile a Liga das Escolas e a Liesa. Ao permitirem a entrada dos veículos no desfile, assumem junto com as escolas os riscos de possíveis acidentes".

O ‘Embarque no famoso 33’ — carro alegórico não vistoriado pelos bombeiros da Em Cima da Hora — havia apresentado problemas ainda no desfile: houve dificuldade de movê-lo na concentração e durante o desfile na Sapucaí durante metade da apresentação. Antes de passar pela Avenida, o carro precisou se movimentar ao menos sete vezes até ser posto dentro do sambódromo.

A alegoria era o abre-alas, o primeiro dos três carros que a Azul e Branca de Cavalcanti trouxe para a Avenida, no enredo sobre o trem Japeri-Central. Antes do acidente, quando a escola já completava ao menos 30 minutos de desfile, o ‘Embarque no famoso 33’ ficou parado por alguns minutos, e um clarão se formou bem em frente à segunda cabine de jurados.

Durante a transmissão do desfile, a TV Globo chegou a flagrar empurradores com dificuldade de mover a alegoria. Desfilantes que vinham à frente do abre-alas não perceberam e se distanciaram, abrindo um buraco na Avenida.

O clarão foi aberto próximo a uma das cabines dos jurados e O problema pode custar pontos em evolução — quesito que julga a coesão dos desfiles e pune justamente clarões e correrias. Não está claro se essa dificuldade para mover o carro teve relação com o acidente que vitimou a pequena Raquel.

— A agremiação precisa pedir a vistoria de seus respectivos carros. É preciso que a escola apresente todos os projetos desses veículos. Dependendo do tamanho do automóvel, é preciso ter laudos de engenheiros elétricos, mecânicos e de estrutura. É preciso explicar detalhadamente da estrutura que passará pela Marquês de Sapucaí: o que vai ter em cima da ferragem, a quantidade de integrantes, a carga que esse carro suporta, se ele vai carregar combustível, algum tipo de material inflamável. Só que essas escolas não tiverem responsabilidade e não fizeram esse pedido. Por isso, os bombeiros oficializaram as duas Ligas para elas estarem ciente dos riscos que poderiam acontecer na Avenida. Entre as escolas que não tinham autorização de seus carros para desfilarem estava a Em Cima da Hora -- destacou um oficial que faz parte do Corpo de Bombeiros.

O GLOBO procurou a Liesa e a Liga-RJ. No entanto, ambas ainda não responderam aos questionamentos.

Horas após o acidente, o Ministério Público do Estado (MPRJ) informou que desfile das escolas de samba da Série Ouro que foi realizado na Sapucaí na noite desta quarta-feira violou normas de segurança determinadas pela Justiça. Segundo a promotoria, no mês passado, foi enviada recomendação para os organizadores do desfile que menciona a necessidade de segurança no momento da dispersão dos carros alegóricos.

O MPRJ destacou que vai tomar providências na 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva da Infância e da Juventude da capital pelo descumprimento das determinações por parte dos realizadores do evento. Raquel subiu no carro alegórico depois da dispersão na Rua Frei Caneca, no Estácio. No hospital, a mãe da menina contou que a filha subiu no veículo quando ele estava parado.

Segundo nota do MP, o desfile é um “mega evento de grande repercussão e com presença de várias crianças e adolescentes que podem ficar em situação de vulnerabilidade por fatores diversos tais como: riscos à integridade física pela aglomeração ou práticas delitivas, perderem-se de seus respectivos responsáveis legais; quedas de carros alegóricos ou outros transtornos que os coloquem em situação de risco a ensejar a proteção por parte da ação articulada dos protagonistas do Sistema de Garantias, notadamente, Ministério Público da Infância e Juventude, Juízo da Infância e Juventude, Conselho Tutelar, SMASDH, PMERJ, Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), AESMRIO (Associação das Escolas de Samba Mirim e organizadores do evento)”.

A família estava em uma lanchonete perto da Sapucaí quando a menina se distanciou para ver os carros alegóricos e subiu em um que estava parado. Em cima do carro ficaram os dois chinelos arrebentados que seriam da menina. Além disso, a alegoria ficou destruída no local do acidente. Elementos foram quebrados e parte do forro foi arrancada.

Muitas crianças estavam no local do acidente, o que atrapalhou o guincho do carro alegórico. Uma funcionária da Liga-RJ teve que pedir para elas se afastarem para que outro acidente não acontecesse. Duas pessoas auxiliaram o motorista do guincho a retirar a alegoria.

A assessoria de imprensa da Em Cima da Hora afirmou que ainda não tem um posicionamento oficial e que ao longo do dia emitirá uma nota sobre o acidente. Segundo a escola, "a agremiação está esclarecendo alguns pontos junto à Liga e às autoridades". A assessoria classificou o acidente como “fatalidade” e disse estar “muito consternado e se solidariza com a família”.

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