Corpos gordos lutam por lugar no mundo, contra preconceito e vão à Justiça combater gordofobia

Com mãos trêmulas e o olhar atento, a consultora de imagem Amanda Souza, de 35 anos, esperou pelo momento em que veria, pela primeira vez, o homem por quem se apaixonou às cegas, em um reality show da Netflix. A esperada cena romântica duraria poucos minutos. O script fugiu do controle, o match não aconteceu e a repercussão se eternizou.

— É sempre decepcionante saber que, mesmo no pior cenário imaginado pela outra pessoa, ela nunca espera uma parceira gorda. O preconceito está em todos os lugares, nos olhares e nos “elogios” ofensivos — diz Amanda que, na quinta-feira, revisitou a história em meio ao burburinho da Vila Madalena, em São Paulo, ponto de confluência de uma grande diversidade de corpos.

A gordofobia pode ter sido o muro que se ergueu entre os dois. O noivo pôs fim ao romance porque, mesmo apaixonado, não aguentaria o “rojão”. “Ela não é nada parecida com o que já lidei na minha vida”, disse. A especulação sobre o que o levou a desistir do casamento, acertado às cegas e negado ao vivo, desencadeou uma grande discussão sobre o alcance do preconceito estético, que ganha dimensão política com o surgimento de ONGs voltadas para o tema e bandeiras levantadas até por entidades médicas.

Com um caráter estrutural, assim como racismo, a gordofobia está em relacionamentos, dentro de casa, no trabalho, no lazer ou simplesmente no olhar, às vezes, indisfarçavelmente contrariado do outro para alguém fora dos padrões impostos pela ditadura da magreza. O preconceito disseminado pode ter outras consequências práticas sérias como a exclusão do mercado de trabalho ou mesmo a morte, em casos em que até hospitais não estão preparados para atender pacientes com obesidade.

Ex-profissional do mercado financeiro, Amanda não tem dúvidas de que, pelo menos uma vez, perdeu uma boa oportunidade de carreira por causa de sua aparência. As muitas perdas contabilizadas por pessoas que não se encaixam em modelos estéticos e os ataques, ora velados, ora escrachados, provocaram, nos últimos anos, uma explosão de ações judiciais nunca vista no país.

‘Boom’ de ações na Justiça

De acordo com o Data Lawyer, desde 2014 o Brasil registrou 688 processos não sigilosos envolvendo gordofobia que tramitam em varas federais e trabalhistas. Desse total, 87% foram abertos a partir de 2020. Embora não haja uma lei específica para o tema, alguns tribunais enquadram os casos como injúria e assédio moral.

O problema é gigante e potencialmente pode atingir mais da metade da população brasileira. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas indicam que, em 2021, 57,25% dos brasileiros estavam com o peso acima do considerado ideal pelo Índice de Massa Corporal (IMC). São essas pessoas, sobretudo mulheres, que cada vez mais são acuadas por uma ideia de meritocracia social em que aprendem, desde crianças, que só as meninas magras e que se exercitam são inteligentes, alegres, bonitas e merecem ser respeitadas.

Atitudes gordofóbicas acontecem, em geral, com plateias. Muitas vezes, o assédio vem disfarçado de elogios ou preocupação com bem-estar. Há pesquisas que sugerem, por exemplo, que há nuances nas reações negativas a um corpo gordo e que elas dependem do peso — ou seja, uma pessoa de 90 quilos não provoca tanto espanto quanto uma de 130, o que comprovaria que a preocupação nunca foi com a saúde.

A fotógrafa Flaviane Oliveira, de 37 anos, sucumbe a gatilhos ao lembrar do comentário que a deixou arrasada quando foi se vacinar contra a Covid, no que deveria ter sido um dos dias mais felizes de sua vida. Com comorbidades e sempre sob acompanhamento de médicos e nutricionistas, Flaviane, que usava máscara, ouviu de uma enfermeira que “ela parecia bonita”, mas precisava cuidar da saúde.

— Na hora, eu não tive reação. Quando entrei no Uber, eu desabei — admite.— Como alguém se sente apta a me dar um diagnóstico somente por olhar meu corpo?

Nos anos 1990, a OMS passou a tratar a obesidade como uma epidemia mundial. Mas o alerta passou a ser usado, muitas vezes, para legitimar velhos preconceitos. Uma pesquisa da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) mostra que oito em cada 10 pessoas com sobrepeso já foram vítimas da gordofobia. O estudo ouviu mais de 3,6 mil pessoas. Setenta e dois por cento delas foram alvo preconceito dentro de casa; 65,5% em estabelecimentos comerciais; 63% de amigos; 60,4% em consultas médicas; e 54,7% no ambiente de trabalho.

Episódios como o de Flaviane têm feito médicos repensarem suas abordagens. No país, há 18 milhões de pessoas obesas e, se consideradas todas que estão “acima” do peso, o número salta para 70 milhões. A cada ano, dois milhões de novos casos são registrados. A eventual associação de problemas de saúde à obesidade não dá a médicos e a profissionais de saúde o direito de submeter seus pacientes a julgamentos degradantes ou a usar de adjetivos negativos ao tratar de seus corpos.

— É preciso evitar frases como “você está muito gordo”, “é desleixado”. O ideal é perguntar a pessoa sobre a percepção dela acerca de seu peso e se isso a preocupa — ensina Lúcia Cordeiro, endocrinologista e membro da SBEM, destacando que denúncias podem ser feitas a ouvidorias de hospitais. — O preconceito é muito danoso. Pois reduz a autoestima e aumenta a ansiedade, um gatilho que afeta a alimentação.

Logo no início do ano, Andréia da Silva gritava por socorro na porta do Hospital Geral de Taipas, na Zona Norte de São Paulo. Ela tinha visto o filho morrer após ter sido recusado em seis hospitais numa busca frenética por atendimento pelo sistema único de regulação. Nenhuma unidade tinha maca para atender Vitor Augusto de Oliveira, de 25 anos, que pesava 190 quilos. O Ministério Público do Estado de São Paulo abriu inquérito contra as secretarias de Saúde do estado. Vitor não resistiu a três paradas cardíacas.

— Estou orando a Deus para me dar discernimento — fala Andréia, na única frase que conseguiu balbuciar para o GLOBO enquanto vive o luto.

Gorda na Lei

Em novembro do ano passado, a modelo brasileira e influenciadora digital plus size Juliana Nehme, de 38 anos, denunciou que a Qatar Airways a impediu de embarcar num voo do Líbano para o Brasil por “ser gorda demais”. A companhia exigia, segundo ela, que fosse comprada uma passagem executiva de US$ 3.000 (cerca de R$ 18 mil) ou mais duas passagens normais para “caber no assento”. A Qatar nega a acusação. Quase dois meses depois, a modelo evita relembrar o caso. Juliana obteve uma liminar judicial em que a empresa fica obrigada a pagar a ela, durante um ano, R$ 400 por sessões de terapia. Ainda cabe recurso contra a decisão.

— Na luta contra a gordofobia, é uma importante vitória — afirma Eduardo Barbosa Lemos, advogado da influenciadora.

A batalha coletiva continua. De acordo com o Data Lawyer, apenas 2% dos processos desde 2014 foram favoráveis às vítimas. Cerca de 33,38% das denúncias favoreceram parcialmente denunciantes. As comarcas de Minas Gerais e São Paulo concentram o maior número de reclamações.

Para defender vítimas da gordofobia, Rayane Souza e Mariana Vieira de Oliveira criaram o Gorda na Lei. Segundo Rayane, em média, 70 pessoas as procuram todo mês. A ativista teve a ideia do projeto quando foi vítima de cyberbullyng dentro da Faculdade de Direito. Ela descobriu, por acaso, que suas fotos eram ridicularizadas num grupo de WhatsApp criado por outros alunos.

— Só fiquei sabendo porque uma dessas pessoas saiu do grupo e me pediu perdão. Sou ativista antigordofobia. Esse movimento é essencial para a sociedade perceber que não cabe mais naturalizar certos comportamentos. Pessoas gordas têm se empoderado e isso faz com que cresça a busca por direitos — observa. — Nosso objetivo é incluir ainda a demanda de acessibilidade, mostrar como as ofensas afetam a vida de pessoas gordas e criminalizar o preconceito.