Corpos de paciente oncológico e de vítima de Covid-19 são trocados em hospital particular da Tijuca

Pedro Zuazo
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A dor da perda ganhou contornos dramáticos para duas famílias. Na madrugada de segunda-feira, parentes de Waldyr Rosa da Silva, de 81 anos, receberam a notícia da morte do patriarca, vencido por um câncer contra o qual lutou por três anos. No mesmo dia, morreu Haicton Paula Ferreira, de 66 anos, de Covid-19. Duas histórias que se cruzaram no hospital particular São Vicente de Paula, na Tijuca. E, por um erro da unidade, os corpos foram trocados.

Ao ser chamado para fazer o reconhecimento do cadáver, o filho de Waldyr, Eduardo Castro, de 42 anos, percebeu que aquele não era seu pai. A etiqueta de identificação trazia o nome de outro falecido: Haicton de Paula Ferreira, de 66 anos, que morreu de Covid-19.

O velório de Haicton havia acontecido na véspera, com o caixão fechado, respeitando os protocolos da pandemia, e o sepultamento ocorreu no Cemitério de Inhaúma.

Agora, a família de Waldyr tenta descobrir se o corpo dele foi enterrado no lugar do de Haicton. O advogado da família encaminhou ontem ao Tribunal de Justiça do Rio um pedido para autorizar a exumação do corpo. Já os parentes de Haicton travam uma batalha judicial para enterrar o corpo do pai.

— Estamos sofrendo muito. A família do Haicton pelo menos sabe que o corpo dele está no hospital. Eu não sei onde está o do meu pai — desabafou o analista de sistemas Eduardo Castro.

Segundo Márcio, funcionários da concessionária Rio Pax o orientaram a não chegar perto do corpo devido à Covid.

— O caixão estava fechado e só a parte de cima estava exposta — contou.

A família de Waldyr acusa o hospital de não ter tomado logo providências. Eduardo conta que após constatar que o cadáver não era de seu pai, informou a um funcionário do hospital, que o orientou a aguardar um representante da administração. Após aguardar 40 minutos em vão, ele decidiu ir até a administração, onde conta ter encontrado um tumulto. Ao saber do caso, a irmã de Eduardo, Aline Castro, de 44 anos, foi até o local e pediu para verificar quais corpos haviam sido removidos do hospital de domingo para segunda-feira. Foi então que eles encontraram o nome de Haicton, e entraram em contato com a família.

— A gente teve que correr atrás de tudo. O hospital não conseguiu identificar o problema e nem ligou para a outra família. Fomos nós que fizemos contato com eles — conta Aline.

O filho de Haicton, Márcio de Paula Ferreira, de 40 anos, ficou surpreso ao receber a ligação.

— Eu saí de casa desesperado. Achei que era impossível terem trocados os corpos — diz ele.

Segundo Márcio, funcionários da concessionária Rio Pax o orientaram a não chegar perto do corpo para fazer o reconhecimento. Como o pai morreu de Covid-19, ele teve apenas uma visão parcial do cadáver.

— O caixão estava fechado e só a parte de cima estava exposta. O rosto dele estava com um adesivo da testa até a boca. Vi apenas a lateral do rosto e achei muito parecido — lembra Márcio. Os mesmos cuidados não foram tomados quando Eduardo chegou perto do corpo de Haicton. Como pensava-se que se tratava do cadáver de Waldyr, os funcionários do hospital e da funerária não orientaram sobre as medidas sanitárias. A exposição ao cadáver com Covid-19 é mais uma preocupação para a família. A família de Waldyr pretende processar o hospital pela confusão.

Em nota, o hospital disse que instaurou uma sindicância interna para apurar o "episódio que resultou no sepultamento equivocado do paciente Waldyr Rosa da Silva em lugar do paciente Haicton de Paula Ferreira". Segundo o hospital, o problema ocorreu no momento em que a funerária externa fez a remoção do corpo de Waldyr, que estava no mesmo ambiente aguardando pelo reconhecimento de sua família. "Ressaltamos que a identificação dos corpos seguiu as regras de segurança internas preconizadas por órgão internacional de qualidade hospitalar e que o reconhecimento do corpo do Sr Haicton de Paula Ferreira foi devidamente efetuado por um familiar dele".Quanto à exposição dos familiares de Waldyr a um corpo que foi vítima de Covid-19, o hospital diz que se colocou à disposição para realizar o acompanhamento dos mesmos.

Procurada, a concessionária Rio Pax não se pronunciou até o fechamento desta edição.