Corregedoria da PM investiga oficial que ameaçou chutar barriga de grávida por dívida

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Corregedoria Polícia Militar de São Paulo abriu investigação para apurar as declarações de um oficial da corporação, o capitão André Silva Rosa, que, durante entrevista a um videocast, afirmou ter ameaçado chutar a barriga de uma mulher grávida durante a cobrança de uma dívida de R$ 5.000.

"Você vai me pagar. Se você não me pagar, eu vou começar a chutar a sua barriga, eu vou pular em cima de você, eu vou arrancar a sua orelha na mordida", relatou o oficial na entrevista ao canal Snider Cast, do Youtube, sobre o momento da ameaça. A possível vítima não foi identificada na entrevista.

Pré-candidato a deputado federal pelo Avante e com a bandeira da defesa "dos interesses dos cidadãos de bem", Silva Rosa é o mesmo que foi investigado em 2020 sob a suspeita de ter forjado provas na prisão de um inocente. No ano passado, também foi investigado por supostas ameaças a uma namorada.

A reportagem tenta contato com o capitão desde domingo (17), sem resposta. A reportagem tentou falar com ele pelo celular e também tentou localizar sua defesa mas não obteve sucesso até a publicação desta reportagem.

A Polícia Militar não adiantou quais crimes ele pode ter cometido. Disse que as circunstâncias dos fatos narrados pelo PM estão sendo investigadas pela instituição. Se comprovados, eles serão tipificados e apresentados em juízo, "para que o agente responda nos trâmites legais".

Para a promotora Celeste Leite dos Santos, do Ministério Público paulista, os fatos narrados no vídeo constituem, em tese, possível prática do delito de extorsão contra a mulher grávida, praticada mediante grave ameaça com o fim de obtenção de possível vantagem de R$ 5.000.

Santos requisitou imediata a instauração de inquérito policial após ter conhecimento do teor da gravação, encaminhada pela reportagem. Ainda conforme a Promotoria, foram pedidas a identificação e a tomada de depoimento da possível vítima, além da concessão de medidas protetivas com urgência.

De acordo com policiais ouvidos pela Folha, a prioridade é tentar localizar a vítima e confirmar se os fatos narrados pelo PM são verdadeiros --ou se são uma bravata do oficial na tentativa de buscar votos de um público simpatizante com esse tipo de comportamento. Em ambos os casos ele estará passível de punição.

A advogada criminalista Roselle Soglio, após analisar a gravação a pedido da Folha, disse que há diversos crimes envolvidos no caso, como possível invasão de domicílio sem autorização judicial e crime de ameaça. Ainda segundo ela, mesmo se o relato for falso, o PM pode responder por incitação ao crime.

Na conversa o capitão conta como teria descoberto o endereço da mulher, ido até a casa dela e obrigado, por meio de ameaças, o pagamento do valor. No vídeo não fica claro o motivo da dívida.

Silva Rosa contou ter chegado ao endereço da mulher após rastrear seu telefone de maneira irregular. "Catei o número dela. Fiz um esquema que eu não posso falar, entendeu, consegui plotar a região em que ela ficava fazendo ligação. Consegui traçar ali um o perímetro provável de onde essa mulher morava, que era lá na região no Jardim Myrna [na zona sul da capital paulista]", relatou ele.

Ainda conforme a narrativa do PM, ele entrou na casa da mulher e passou a fazer diversas ameaças, inclusive de morte. "Bati na porta dela. [Ela:] 'Quem é?' Falei: 'Abre aí que é a polícia'. [Ela:] 'Quê?' Falei: 'Abre aí que é a polícia, senão vou derrubar'".

Aos risos, o capitão afirmou no vídeo que estava com vontade de matá-la, já que havia sido enganado e estava há muito tempo atrás dela. Foi quando falou do chute na barriga.

Ainda segundo relato do capitão, ao perceber que a gestante estava desesperada, ele a orientou a pedir dinheiro emprestado para traficantes da região ou para pessoas envolvidas com o jogo do bicho para lhe pagar.

A mulher entrou em contato com uma pessoa, segundo o capitão, que pediu a um menino para deixar o dinheiro na porta.

Segundo a Polícia Militar, Silva Rosa está afastado da função pública, tendo em vista o pedido de desincompatibilização, "que é o ato pelo qual o pré-candidato se afasta do posto que exerce para se tornar elegível perante a Justiça Eleitoral", diz trecho de nota enviada à reportagem.

Sobre as outras investigações contra o capitão, a corporação informou houve apuração mediante Inquérito Policial Militar. A denúncia de suposta fraude foi remetida à Justiça Militar estadual, enquanto a suposta agressão foi registrada na Polícia Militar e Polícia Civil.

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